“Cansei” consegue dividir
dupla sertaneja e unir Piauí
A segunda “manifestação” da
“cansada” elite paulistana realizada na Praça da Sé, na última sexta-feira,
foi novamente, para sermos bondosos, abaixo das expectativas. Nem mesmo o fato
dos organizadores terem arrebanhado alguns artistas globais ou do ato ter sido
realizado na Sé em pleno horário do almoço fez com que a atividade tivesse
expressão.
Os melhores números apontam
para 2 mil participantes. Mas a maioria não estava nem aí para o que os poucos
cansados falavam em cima do palco, que em alguns momentos chegou a estar mais
lotado do que embaixo. O que as tietes queriam mesmo era ver os artistas e
tentar conseguir um autógrafo.
Uma das principais alegações
para o ato, uma homenagem às vítimas ao acidente com avião da TAM, que
completou um mês na sexta-feira, causou a revolta dos familiares, que foram
barrados no palco. O único cidadão que se fez ouvir na Sé foi o engenheiro
José Carlos Caldeira Braga, que se posicionou próximo ao palco e cansou ainda
mais os participantes. “Seu padre pilantra, vai casar o Ronaldinho!”, afirmou
Caldeira para o padre pé-frio Antônio Maria.
A única coisa que o
movimento conseguiu até agora foi causar uma divisão na dupla Zezé Di Camargo
e Luciano. O primeiro aderiu ao movimento, e o segundo disse que iria fundar
um novo: “Caguei. Caguei para Cansei”. “Como é que eu vou apoiar um movimento
liderado por alguém que promove desfile de cachorros (o empresário João
Doria)? Essas pessoas cansaram de quê? Os artistas só estão aderindo porque
foram convidados por amigos. A maioria não tem coragem de dizer não. Eu tenho.
Este é mais um movimento oportunista. As pessoas que estão nesse movimento não
cansaram de coisa nenhuma”, afirmou Luciano em entrevista à “Folha de S.P”.
Zottolo
Além dos poodles, Bichon
Frise e Yorkshire - que foram a marca da manifestação anterior e desta vez
foram poupados por suas donas para que não se estressassem com o aroma de
churrasquinho grego da Sé - outra ausência de peso foi a do presidente da
Philips do Brasil, um dos financiadores e líderes do “cansei”, Paulo Zottolo.
O executivo, que diz cansado
do alto do seu salário anual de 2 milhões de reais, ao explicar as diretrizes
do “movimento” ao jornal “Valor Econômico” expôs a essência elitista e
preconceituosa do grupo quando afirmou que o Brasil estaria se transformando
“num Piauí. Não se pode achar que o país é um Piauí no sentido de tanto faz ou
tanto fez. Se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado”. As
declarações causaram protestos em todo o país.
O governador do Piauí,
Wellington Dias (PT), reagiu aos ataques de Zottolo: “Tenho certeza de que o
capitalismo afasta o homem do ser humano. Que Deus dê a ele a oportunidade de
conhecer o Piauí e os homens e mulheres que aqui vivem”. Na última
quinta-feira, vários senadores ocuparam a Tribuna da Casa para repelir as
afirmações do executivo “cansado”. O mais enfático foi o senador e
ex-governador do Piauí, Mão Santa (PMDB), que classificou Zottolo como
“imbecil” e “ignorante”. “A ignorância é audaciosa. Eis um ignorante marcado
pela própria destinação. Atentai bem e leia o nome dele: Zottolo. É um tolo,
um tolo, um tolo! Um arrogante tolo, porque tem uns dólares da Philips,
ignorante da nossa história”, afirmou Mão Santa.
O repúdio a Zo-ttolo também
tomou a Assembléia do Piauí que aprovou, na última segunda-feira, uma moção
considerando-o “persona non grata” no estado. Porém, as declarações do
executivo da Philips não estão causando prejuízos só à imagem da empresa, que
também começa a sofrer no campo econômico. O Armazém Paraíba - presente no
Piauí, Maranhão, Ceará e Pernambuco - quinto maior cliente da Philips do
Brasil, anunciou boicote à empresa e retirou os seus produtos das prateleiras.
Na última sexta-feira, estudantes organizaram, em Teresina, uma manifestação
contra os produtos da Philips no Piauí. Eles quebraram vários aparelhos da
marca em praça pública e pediram um boicote à Philips. A bancada do PT na
Assembléia de São Paulo se somou aos manifestos e declarou total repúdio às
afirmações.
ALESSANDRO RODRIGUES/ISAC BEZERRA