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Lula: “essa crise é
americana, tentaram ganhar dinheiro fácil”
“Parece que tem pessoas que torcem para que a desgraça
aconteça neste país. O Brasil não está com medo dessa crise”, completou o
presidente
Ao comentar a crise da especulação
internacional, o presidente Lula frisou que trata-se de uma crise “eminentemente
americana”. Ou seja, “é uma crise do setor imobiliário americano, de alguns
fundos que compraram títulos pensando em ganhar muito dinheiro nos Estados
Unidos. Então, na hora em que os Estados Unidos resolverem o seu problema, não
haverá problema no mundo”.
“A crise está afetando os
que tentaram ganhar dinheiro muito fácil, e, quem tenta ganhar dinheiro muito
fácil, é como se estivesse em um cassino, pode ganhar e pode perder”, disse o
presidente.
É interessante observar que
aqueles que lêem os jornais reacionários (há cada vez menos, mas os há) nos
últimos dias foram quase sepultados por uma torrente emitida por cassandras
acadêmicas e jornalísticas com as interpretações mais estapafúrdias – ou mais
incompreensíveis, até para eles – da crise. Lula, sempre subestimado por essa
aliança de tolos e patifes, foi ao ponto.
Trata-se de uma crise da
especulação americana, da imensa bolha especulativa que a casta dominante nos
EUA inflou irracionalmente durante os últimos anos, onde papéis em cima de
papéis transformaram a economia norte-americana num apêndice de um cassino (os
próprios economistas dos EUA favoráveis a essa aberração chamam isso de “gambling”,
isto é, “jogo de azar”, onde a economia real, isto é, a produção, é soterrada
por títulos que têm como lastro outros títulos, numa pirâmide infinita até a
explosão).
MAU AGOURO
As cassandras que
mencionamos têm, no momento, uma coisa em comum, além de serem tolos, ou serem
patifes, ou serem os dois. Todas elas prevêem que o Brasil será terrivelmente
abalado pela crise. Aliás, dizem, já deveria estar sendo. Se dependesse deles,
nosso país já teria ido a nocaute no primeiro round, e se não foi é porque
esse Lula é terrível. Essa parece ser a única explicação que eles encontraram
para explicar porque seus agouros não tiveram sucesso.
Não deixam de ter uma certa
razão. Não porque Lula seja terrível. Mas porque Lula não é Fernando Henrique.
Se fosse, aliás, eles o estariam apoiando. Sua oposição histérica, com seus
pios de aves pouco providenciais, são a melhor prova de que, acima de tal ou
qual insuficiência, há algo de profundamente positivo no governo Lula. Talvez
o próprio presidente haja resumido esse algo em seu discurso aos atletas
brasileiros no Para-pan: “O que faz a diferença é o caráter, é a alma, é o
coração, é a consciência política de cada um de nós”.
Porém, há quem tenha alma de
escravo, de capacho. Não são muitos, mas veja só, leitor: é fato que o país
não foi vítima de um terremoto econômico ou financeiro, apesar da crise
especulativa americana ser muito mais grave do que a crise da Rússia ou a da
Ásia. No entanto, é exatamente com esse fato que as aves de mau agouro estão
brigando. Como era de se esperar, eles não conseguem admitir que os EUA sejam
abalados, e o Brasil não. Seria preciso alguma independência ideológica - ou,
melhor dizendo, mental – para admiti-lo, e isso é exatamente o que eles não
possuem. Simplesmente, mesmo que o fato esteja diante de seus narizes, não
conseguem conceber que o seu farol leve uma pedrada (para ser moderado nas
previsões) e o Brasil escape ileso. Preferem ficar com sua subserviente
fantasia. Afinal, durante décadas, essa gente, sequazes tardios do já em vida
carcomido Eugenio Gudin, defendeu que o Brasil só poderia crescer como uma
repartição econômica, política e ideológica dos EUA – mais precisamente, do
que há de mais podre nos EUA, a ganga de monopólios financeiros e cartéis
imperialistas.
No entanto, toda a História
mostra o contrário. Toda vez que o centro imperialista entrou em crise, o
Brasil cresceu, desde que houvesse alguma independência, alguma proteção à
nossa economia, alguma consideração para com o interesse nacional. Para não
irmos mais longe, foi assim durante a I Guerra, foi assim durante a crise
iniciada em 1929, após a Revolução de 30. E foi assim durante a crise dos anos
70, quando o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) impulsionou o nosso
setor de máquinas e equipamentos, até então mais do que débil, a um acelerado
crescimento. E reparemos que nem o governo Wenceslau Braz, na época da I
Guerra, nem a ditadura, na época do II PND, eram especialmente nacionalistas
ou progressistas. Apenas, colocados diante da necessidade, não agiram como
meros fantoches de potências ou potentados econômicos externos.
VULNERABILIDADE
Somente não foi assim
durante o governo de Fernando Henrique, quando a crise da Ásia e a da Rússia
quase devastam o país, só não o fazendo porque este é um país realmente muito
sólido, assentado nos fundamentos construídos a partir de 1930 - que nem os
tucanos, apesar de sua sanha declarada de arrasá-los, conseguiram destruir,
ainda que os tenham prejudicado bastante. A razão pela qual nessa época, ao
contrário das outras, qualquer ressaca externa nos balançava, levando-nos à
beira do cataclismo, é evidente: a política de Fernando Henrique era a de
tornar o Brasil um apêndice do capitalismo monopolista dos países centrais. Em
síntese, era privar o país de independência econômica – e, aliás, de qualquer
independência, exceto a meramente formal. Portanto, qualquer crise
especulativa, mesmo que acontecida em Pago Pago ou Bora Bora, atingia-nos como
se tivesse acontecido em São Paulo, e isso era considerado uma virtude, não
uma vulnerabilidade, já que o negócio era se “integrar”, o que significava, no
curioso dialeto daquele governo, se submeter ao esgoto externo, e às suas
turbulências pouco agradáveis e pouco propícias à saúde do país.
Mas isso acabou depois da
posse do atual governo. Não que tenhamos resolvido todos os problemas que
dizem respeito à nossa independência econômica. É evidente, por exemplo, que o
Banco Central ainda é um foco de resistência à política de crescimento
implementada pelo presidente. Mas o Brasil é um país gigantesco, com uma
economia forte – e, às vezes, nós, brasileiros, devido a convivermos com isso
em nosso cotidiano desde o nascimento, não percebemos em toda a dimensão o que
isso significa.
O que foi feito por Lula é
suficiente para que possamos enfrentar essa crise. Digamos assim: dá para o
gasto – pelo menos no início, pois não é ainda possível saber até onde a crise
vai. E, se daqui a pouco forem necessárias outras medidas para que a crise não
nos atinja, que sejam tomadas, e serão muito bem-vindas. A crise no centro do
sistema imperialista é sempre a melhor oportunidade que os países da periferia
têm para se libertar.
Entretanto, é exatamente
isso com que não se conforma a confraria dos tolos e/ou canalhas. Daí as
previsões diárias das miriams-leitão e outros idiotas.
“Parece que tem pessoas que
torcem para que a desgraça aconteça neste país. Torcem para que as coisas não
dêem certo no Brasil”, observou o presidente. Realmente. “A crise que está
acontecendo não vai afetar o Brasil. O dado concreto é o seguinte: o Brasil
não está com medo dessa crise”.
Com efeito, somente aqueles
que só conseguem enxergar o país como uma neo-colônia é que têm razão para
medo. As pessoas normais, não, mesmo que a crise nos afetasse. Pois, se
acontecesse, seria razão para conjurá-la sendo mais independentes - e não
menos.
CARLOS LOPES
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