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Monopólio de ‘agências de risco’ sustentou a fraude das hipotecas

Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch controlam 95% de todas as “avaliações de risco”. Até a véspera do estouro dos fundos de papéis podres mantiveram avaliações em grau máximo. Na União Européia e EUA cresce o clamor por investigação dos mafiosos

A União Européia anunciou que vai investigar o papel das “agências de risco” Moody’s, S&P e Fitch na fraude das hipotecas “subprime”, em que elas mantiveram grau máximo para títulos podres até às vésperas da quebra de dois fundos do Bear Stearns que deflagrou a atual crise, quando os problemas já estavam evidentes desde o ano passado. A investigação será chefiada pelo Comissário da UE para Mercados Internos, Charlie McCreevy. A porta-voz do ministro, Antonia Mochan, afirmou que a investigação se concentrará “na lentidão [das agências de risco] com relação à deterioração do mercado desde o meio de 2006” e no “conflito de interesses”, já que as agências “são pagas por aqueles a quem supostamente estão avaliando”. Também dentro dos EUA cresce o clamor para que as “agências de risco” sejam investigadas. De acordo com uma delas, a Moody’s, 1.700.000 famílias norte-americanas perderão suas casas em até um ano em decorrência do colapso do sistema de hipotecas.  

COMISSÕES 

A questão é que não haveria como os bancos, corretoras, financeiras e fundos de derivativos envolvidos na quebradeira cometerem uma fraude dessa amplitude, sem o aval das assim chamadas “agências de risco”, que atestavam, em troca de polpudas comissões, que os títulos podres que “lastreavam” as hipotecas eram “triplo-A”, isto é, tinham garantia máxima. Mas, como em toda a pirâmide financeira que se conhece, chegou a hora da verdade, do mico, e da corrida aos fundos em que esses títulos podres estavam depositados. Vários dos maiores bancos dos EUA e do mundo inteiro tiveram que comunicar que tais fundos tinham, literalmente, evaporado. O que levou à derrubada da bolsa, paralisia do crédito no mundo inteiro e a mais de 400 bilhões de dólares de socorro do Federal Reserve e de outros bancos centrais.

Comentando a situação, o economista Paul Krugman ironizou: “O que você obtém ao cruzar um chefão da máfia com um vendedor de títulos? Um vendedor de CDOs [os derivativos que viraram fumaça]”. De acordo com ele, os derivativos “CDOs da bolha imobiliária desta década são hoje o que o estilo de contabilidade da Enron foi para a bolha da bolsa dos anos 90”. Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch detêm o monopólio da “avaliação de risco” no planeta – 95% de todas as “avaliações”. Além do ramo das pirâmides financeiras, essas agências norte-americanas também atuam na assim chamada “avaliação de nações” e do “risco soberano” .  

ENRON 

Em matéria de previsão de riscos, a Moody’s, S&P e a Fitch são imbatíveis. Afinal, como Krugman registrou, elas deram “investment-grade” à Enron até dias antes dela ir a bancarrota, assim como deram à Tailândia uma avaliação também de “investment-grade” até cinco meses depois do início da crise financeira da Ásia. Segundo o “Wall Street Journal”, só a Moody’s amea-lhou US$ 3 bi de 2002 a 2006 - 44% dos ganhos no período.

Também não haveria a bolha imobiliária, se em 2000 as agências de risco, após devidamente acionadas pelos bancos e corretoras, não tivessem decidido mudar o critério de avaliação do risco de uma hipoteca rolada com novo empréstimo. O que permitiu que as pessoas que não conseguissem pagar a hipoteca antiga fizessem um empréstimo novo, para pagar os atrasados, mesmo que inflando a dívida. No meio, um estratagema: a “colateraliza-ção” da dívida, por meio de um derivativo, os CDOs, cuja essência era misturar hipoteca em dia, com hipoteca em atraso, mas de um jeito que, ao final, ninguém soubesse quem está com o quê.

Apesar de toda a prestidigitação, continuava sendo uma bolha hipotecária, como descreve o economista norte-americano. “Por um momento, os riscos dos empréstimos subprime foram mascaradas pela própria bolha imobiliária: enquanto os preços continuavam subindo, tomadores de empréstimo enrascados podiam levantar mais dinheiro com a garantia de valorização da casa. Mas, uma vez que a bolha estourou ... muitos desses empréstimos estavam condenados. Não que os bancos fazendo os empréstimos fossem estúpidos. As hipotecas subprime estavam ‘securiti-zadas’, com os bancos emitindo títulos com base nos empréstimos por casa, na verdade transferindo o risco aos compradores de títulos. Também é claro que muitos investidores foram iludidos pela fantasiosa engenharia financeira, levados a crer que estavam protegidos contra o risco, quando na verdade não havia nada disso”. Em resumo: a clássica pirâmide.

Como Krugman notou, “supostamente os CDOs transferiam a maior parte dos riscos de maus empréstimos para um pequeno grupo de sofisticados investidores, recompensados com uma taxa de lucro maior, e que deixava os demais investidores com um ativo “sintético” seguro como casas. Moody’s, S&P e Fitch disseram aos investidores que os ativos sintéticos criados pelas CDOs eram ‘equivalentes a títulos corporativos de alta qualidade’ e davam mais lucro que títulos com mesma avaliação de crédito’” . Agora, as estimativas de perdas, que na semana passada eram de “US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões” já são apontadas como de “até US$ 250 bilhões”. O que pode ser inclusive mais, já que apenas as chamadas hipotecas “subprime” ultrapassam US$ 1 trilhão. Na reta final da pirâmide, estava valendo tudo: empréstimos Ninja (sem emprego ou renda), “No Docs” (sem comprovação) e assim por diante. Até que a parcela de “subprime” no total pulou para 30% em 2006. 

CONTUBÉRNIO

O “Financial Times” publicou em maio uma interessante história sobre como são as relações entre agências de avaliação de risco e os bancos “avaliados”. Durante meses o ABN Amro, aliás agora prestes a ser vendido, desenvolveu em negociações com a S&P “um novo produto de débito”, fruto de “complexa matemática”, destinado a pagar “uma taxa de juro tão alta quanto um título “junk” (lixo) mas livre de risco como um depósito bancário”. Para tornar viável a arapuca, naturalmente a S&P teve de garantir um triplo A. Embora não haja um número preciso, o FT avaliou que a S&P faturou até 1,62 milhões de euros pelo carimbo.

A revista inglesa “The Economist”divulgou alentada ficha da Moody’s, que pertence ao magnata Warren Buffet: “operou no ano passado com uma margem de 54% e a receita está crescendo 20% ao ano”. Já a S&P “ajudou a elevar em mais de 30% as ações da empresa-mãe” (McGraw). O “Washington Post”, em 2004, publicou uma série de artigos sobre as agências de risco. Como a Moody’s praticamente chantageou uma das maiores seguradoras alemães, a Hannover, para que esta passasse a pagar por uma avaliação que não queria, e que obtinha da S&P e de uma empresa especializada do setor alemã. Durante meses, a Moody’s foi rebaixando a “avaliação” da Hannover – um escândalo, e muito esclarecedor de como agem. O mesmo modus operandi foi visto quanto ao Canadá, em 1995, quando a Moody’s repentinamente anunciou que “estava colocando a dívida do país em revisão para um possível rebaixamento”. Causou uma derrubada do dólar canadense e forçou seu governo a gastar centenas de milhões de divisas para defender sua moeda, enquanto especuladores faziam a festa. E é são a Moody’s e a S&P, que se dispõem, em troca de módicas comissões, a avaliar a situação “soberana” de cada país.  

ANTONIO PIMENTA

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22/08/2007
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