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“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”

A grande marcha (4)

No Nordeste, os combates prosseguem com táticas bem sucedidas dos revolucionários, combates sangrentos e a prisão de Juarez Távora

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

Em Teresina a confusão reinante era agravada pelos desentendimentos entre o governador Matias Olímpio e o comando das forças militares. Na madrugada de 26 de dezembro, um levante no 25º Batalhão de Caçadores, que poderia ter sido fatal aos ocupantes daquela cidade, foi debelado.

Na madrugada do dia 28, as forças revolucionárias começam a testar as defesas adversárias, mantendo a pressão durante três dias seguidos. Numa das investidas, o pelotão comandado pelo capitão Filó, do 4º Destacamento, conseguiu romper as linhas inimigas, penetrando em Teresina. Porém, refeitas da desordem inicial, que as acometera desde o recontro em Benedito Leite, as forças governistas conseguiram se estabilizar, passando a tirar proveito de sua superioridade numérica e maior poder de fogo.

O comando revolucionário ordenou então a suspensão do cerco e a retomada da marcha em direção ao Ceará.       

Em suas Memórias, Juarez Távora revela que o Estado-Maior contava com essa possibilidade, desde o momento em que planejara a ofensiva:

“Ficou estabelecido que antes de decidir-se um ataque em força àqueles dois redutos governistas, seriam feitas cautelosas explorações ofensivas sobre cada um deles, para melhor avaliar a organização defensiva em seu conjunto.

Essas explorações foram realizadas simultaneamente sobre Flores e Teresina, durante as madrugadas de 28, 29 e 30 de dezembro, chegando-se à conclusão de que não seria compensador para as forças revolucionárias o ataque projetado...”.

A retirada, inclusive a transposição do Parnaíba pelas forças revolucionárias que se encontravam na margem maranhense, se realizou no dia 31 de dezembro.

As tropas governistas custaram a perceber a manobra, que se efetuou sem maiores percalços, salvo o que passa, agora, a ser relatado pelo tenente-coronel João Alberto:

“Infelizmente, no dia exato em que me cumpria partir na vanguarda para transpor a serra de Ibiapaba - acidente geográfico que limita o estado do Piauí com o do Ceará - Juarez foi feito prisioneiro. Cometera a imprudência de tentar, apenas com alguns homens, um reconhecimento às posições adversárias. Atacado pelo inimigo, julgou poder escapar com a sua montada, na qual transportava arquivos e documentos. Tiveram mais sorte os homens que o acompanhavam: cortaram o mato e alcançaram o acampamento. Que desastre!”.

Juarez considerou-se vítima de “uma infeliz coincidência”. Ao relato de João Alberto acrescenta que estava acompanhado apenas de seu ordenança e um oficial da guarda de Caieiras, e que se deslocava pela margem direita do Parnaíba, na direção de Teresina, em busca de um local apropriado para armar emboscada a uma lancha governista.

Imprudência ou coincidência, o fato é que não havia tempo para se chorar o leite derramado. E o coronel Távora, logo encontrou um modo de retirar da derrota sofrida o primeiro resultado positivo:

“Teresina, 1º de janeiro de 1926

Prestes,

Aqui estou desde ontem pela manhã, como prisioneiro. Recebendo logo após a minha chegada uma honrosa visita de sua Excelência o bispo Dom Severino Vieira de Melo, abordou-se, em palestra, a idéia de um entendimento para evitar, se possível, o transe amargo que ameaça a população indefesa de Teresina.

Contrariando, embora, o meu interesse pessoal, naturalmente propenso a anelar por uma tentativa de libertação, eu prefiro abdicar dessa satisfação em benefício do povo desse recanto do meu país...”.

Em sua resposta, Prestes repica o blefe, dando seqüência à operação de contra-informação deflagrada por Juarez. A carta foi entregue por ele, pessoalmente, ao bispo de Teresina:             “’Acantonamento da Vila Natal, 4 de janeiro de 1926.

Meu caro Távora,

Tendo consultado o general Miguel Costa e os comandantes de destacamento a respeito do teu pedido, resolvemos suspender o ataque a Teresina, até que tenhas outro entendimento com o comandante dessa praça, coronel Bentemuller, desde que ele se mantenha, como prometeu, dentro de suas posições atuais, e não procure perturbar a tranqüilidade das regiões que estamos dominando no estado, regiões essas que, como sabes, abrangem a quase totalidade do seu território.

Percebemos que com essa nossa primeira concessão os nossos adversários ficarão, dia a dia, mais fortes; mas tudo sacrificamos pela tranqüilidade da família teresinense, certo de que igualmente por esta tranqüilidade o governo não se oporá à tua liberdade e volta ao nosso meio.”

O governo não libertou Távora, mas a 1ª Divisão Revolucionária só foi incomodada pelo adversário a partir de 14 de janeiro, depois de haver deixado a cidade de Valença, a mais de 200 km de Teresina. Uma semana depois cruzava a fronteira do Ceará.

720 km haviam sido percorridos em território maranhense e piauiense. Maior inimigo: a malária - contraída por cerca de 400 homens nas margens do Parnaíba. Parte dos feridos e doentes ficaram pelo caminho a convite dos moradores. Voluntários preenchiam os claros, mantendo os efetivos da força combatente em torno de 1.200 homens.

Os revolucionários procuravam não avançar muito além desse patamar, em razão das dificuldades que isso acarretaria ao abastecimento da tropa. 

No dia 20 de janeiro, Miguel Costa promovera Siqueira Campos e João Alberto ao posto de coronel e Prestes a general.           

JAGUNÇOS E CANGACEIROS 

O governo concentrara forças no Ceará. Além das tropas do Exército e Polícia Militar, armara milhares de jagunços e cangaceiros, arrebanhados por Floro Bartolomeu e Pedro Silvino, na zona do Cariri.

O doutor Floro e o latifundiário Silvino haviam se tornado poderosos e temidos, anos antes, explorando os supostos milagres do padre Cícero Romão, em Juazeiro do Norte. No ano de 1914, com o apoio do padre, eles mobilizaram milhares de romeiros para marchar sobre Fortaleza e derrubar o governador Franco Rabelo, que se desentendera com o governo federal.

Em 1926, Floro Bartolomeu ocupava uma cadeira de deputado, na capital da República. O padre Cícero recusara-se a atender a convocação do presidente Artur Bernardes para incorporar-se à cruzada contra a 1ª Divisão Revolucionária. Este recorreu então ao doutor Floro.

O capitão Moreira Lima conta que:

“Floro fechou o negócio, recebeu mil contos de réis, armas e munições e partiu para o Ceará, onde reuniu o cangaço, contra a vontade do padre que, já passando dos 80 anos de idade, não teve energia para se opor a isso”.

Nem mesmo Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, cuja base de operações era distante do Cariri, deixou de comparecer a Juazeiro, acompanhado de 40 cabras, para receber os armamentos, dinheiro e uniformes idênticos aos do Exército - a única diferença era o distintivo sobre o dólmã, com as letras BPJ, Batalhão Patriótico de Juazeiro. Floro também brindou-o com a patente de capitão. Lampião ficou muito envaidecido, até descobrir que a patente era falsa. As armas eram verdadeiras, mas ele não as empregou contra as forças revolucionárias.

Em relatório enviado ao governador da Paraíba, o tenente-coronel Elísio Sobreira, comandante da Polícia Militar do estado, não deixa dúvida sobre o caráter dessas novas tropas criadas por iniciativa do governo federal:

“Pesa-me relatar a Vossa Senhoria que os oficiais imediatos do coronel Pedro Silvino constituem uma afronta às autoridades paraibanas”.

A passagem da 1ª Divisão Revolucionária pelo Ceará, no entanto, ocorreu sem confrontos expressivos. O objetivo fixado pelo Estado-Maior era atingir a cidade de Triunfo, em Pernambuco, entre os dias 12 e 15 de fevereiro, conforme fora combinado com os emissários do tenente Cleto Campelo.

Para isso, foi concebida uma manobra posta em execução desde o levantamento do cerco a Teresina.

O 2º Destacamento seguira na direção nordeste, para atravessar a serra de Ibiapaba e invadir o Ceará ao norte, na altura de Ipu, simulando uma investida contra Sobral e Fortaleza, para atrair e fixar o grosso das forças governistas naquelas localidades. Enquanto isso, o restante da Divisão deslocou-se para sudeste, atingindo a vila de Arneiroz, às margens do Jaguaribe, em 26 de janeiro, evitando as tropas de Floro Bartolomeu que se encontravam mais ao sul, na cidade de Campos Sales.

De Ipu, onde João Alberto tomou a estação ferroviária, danificou a via férrea e, antes de silenciar o telégrafo, enviou mensagens a Fortaleza anunciando a chegada das tropas revolucionárias, o 2º Destacamento deslocou-se para o sul, em marcha forçada de 100 km diários, ligando-se ao grosso em Arneiroz, a 29 de janeiro.

A vila ficava às margens do Jaguaribe, cujo leito escarpado, quase sem água, situava-se em terras semi-áridas que impunham grande dificuldade ao deslocamento de tropas.

O Estado-Maior avaliara que as forças governistas descartariam a hipótese de que a 1ª Divisão Revolucionária ousasse se aventurar por aqueles caminhos. E justamente por isso escolhera essa rota. Seguindo a leste, por Saboeiro e Jucás, a Divisão atravessou a região - onde 30 anos mais tarde foi construído o grande açude de Orós - e atingiu o estado do Rio Grande do Norte, em São Miguel, no dia 3 de fevereiro, depois de haver transposto a serra do Pereiro. Os dois recontros mantidos com as forças inimigas, no alto da serra e na vila de São Miguel, foram facilmente vencidos. Dali a coluna revolucionária infletiu para o sul, conforme relata o coronel João Alberto:

“Atravessamos o estado do Rio Grande do Norte sem maiores incidentes... Entramos no estado da Paraíba sempre em marcha forçada, para aproveitar a surpresa do ataque... o comando das forças governamentais... não sabia bem se era nossa intenção... marchar sobre a capital daquele estado ou continuar para o sul... Já no limite com Pernambuco teve a Coluna de batalhar duramente para dominar a resistência obstinada do Padre Aristides, misto de sacerdote e de cangaceiro que chefiava a defesa de Piancó...”.

PIANCÓ 

A cidade bloqueava a progressão da 1ª Divisão Revolucionária, tanto para Pernambuco, ao sul, quanto a leste para Patos, ponto estratégico da defesa da estrada de rodagem que seguia até a capital da Paraíba.

O padre Aristides Ferreira da Cruz, deputado estadual que portava um 38 sob a batina, já fora expulso de Piancó por roubar gado dos vizinhos. Empenhara-se em diversas atividades pouco recomendáveis a um prelado, porém retornara à cidade sob a proteção de seu correligionário, o ex-presidente Epitácio Pessoa.

Foi a pedido deste que Aristides armou 200 pistoleiros para barrar a marcha da 1ª Divisão Revolucionária, em Piancó, enquanto aguardava reforços, enviados pelo governo, através de Patos.

Os revolucionários não tinham conhecimento de que as forças governistas haviam entrado em prontidão, no dia 5 de fevereiro, após intenso tiroteio travado contra 11 revolucionários comandados pelos tenentes Sousa Dantas e Seroa da Mota, antes que estes pudessem iniciar o levante do 22º Batalhão de Caçadores, na capital paraibana.

Os tenentes foram delatados por Batista Ramos, ex-deputado goiano, que havia se infiltrado na 1ª Divisão Revolucionária, no Piauí.

Outro levante também havia fracassado, no dia 18 de janeiro, em Aracaju. O tenente Maynard Gomes, que liderara a rebelião de julho de 1924, em Sergipe, conseguira fugir e sublevar o 28º Batalhão de Caçadores, ocupando os pontos principais da cidade e cercando o quartel da Polícia Militar. Os revolucionários foram subjugados com a ajuda de tropas da Marinha, depois que o tenente Maynard foi ferido.

O sangrento confronto em Piancó foi registrado pelo capitão Moreira Lima, no diário da campanha:

“O dia 9 amanheceu belíssimo, fazendo a vanguarda o Destacamento Cordeiro, seguindo-se Dutra e por fim Siqueira.

O Destacamento Cordeiro ao descer a ladeira que conduz à vila foi rudemente atacado, travando-se renhido combate, que durou ate às 3 horas da tarde...

O inimigo estava entrincheirado em várias casas, na cadeia pública, que é um vasto edifício de granito, e na igreja.

Caíram feridos, logo no início do combate, os capitães Manoel de Oliveira Pires e João Batista dos Santos, e o tenente Agenor Pereira de Sousa, além de vários soldados, sendo mortos alguns desses últimos.

Mais tarde foi ferido o tenente Valfrido, do Destacamento Dutra, que avançava em apoio a Cordeiro...

Em dado momento, de uma das casas ocupadas pelo inimigo, hastearam uma bandeira branca, tendo arrefecido o fogo, da nossa parte... Os nossos avançaram confiadamente, sendo alvejados da casa onde estava o padre Aristides.

Dutra ordenou então ao sargento João Baiano que jogasse uma lata de gasolina à porta da casa, a fim de incendiá-la.

João Baiano tratou de cumprir essa ordem.

Nesse momento, abriu-se a porta da casa.

O sargento Laudelino da Silva, conhecido como Lino, tentou penetrar nela recebendo um tiro que o prostrou morto.

Os demais soldados precipitaram-se na sala, subjugando as pessoas que ali se achavam, inclusive o padre Aristides...”.

Foram todos imediatamente degolados. Um dos soldados, depois disso, castrou o padre e encheu-lhe a boca com os próprios testículos.

A velha tradição da degola que imperava nas guerras civis dos pampas fora combatida pelos oficiais revolucionários como um costume bárbaro. Porém, a torpeza do deputado-cangaceiro, simulando por duas vezes consecutivas um ato de rendição, para disparar contra os adversários, havia despertado a fera.

Miguel Costa e Prestes não permitiram que seus comandados tornassem a se deixar dominar por ela, até o final da Grande Marcha.

Continua na próxima edição
 

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22/08/2007
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