“Peça de acusação do
procurador-geral foi seduzida pelos
holofotes da mídia”
A denúncia
apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, ao
Supremo Tribunal Federal (STF), na sessão da quarta-feira, recebeu críticas
demolidoras. “Fantasiosa, inepta, ficcional, vazia e panfletária” são alguns
dos adjetivos usados pelos advogados de defesa que se pronunciaram na primeira
sessão do STF. Eles demonstraram que não se sustenta, e não tem base na
realidade, a tese fabricada pela mídia, e abraçada pelo procurador, de que
teria se formado uma “organização criminosa” para supostamente “comprar” apoio
de parlamentares para votação de projetos do governo federal.
O advogado do
ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, José Luiz Mendes de Oliveira
Lima, foi o primeiro a se pronunciar na sessão e definiu como inconsistente e
submisso o documento apresentado pelo procurador. “A peça de acusação foi
seduzida pelos holofotes da mídia”, assinalou. “Não há no documento qualquer
elemento que comprove as acusações feitas a José Dirceu. Isto está mais para
peça de ficção do que para uma denúncia”, afirmou José Luiz. Ele lembrou que,
além de “afirmações vagas”, a denúncia contra seu cliente pecou por se basear
nas acusações feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson, que acabou cassado na
Câmara justamente porque havia mentido no episódio.
MONTAGEM
José Roberto Leal de
Carvalho, que defendeu o ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom),
Luiz Gushiken, também enfatizou em seu pronunciamento que a iniciativa do
procurador buscou “agradar à imprensa e as pressões que sempre vêm pela
mídia”. Ele ressaltou que não acredita que o Supremo venha a se submeter a
essas pressões e denunciou que o procurador forjou provas para incriminar seu
cliente. “Na denúncia foram pinçados trechos. Isso é leviandade. Houve a
deturpação da prova para apontar a autoria de meu cliente nos quatro crimes de
peculato de que foi acusado”, denunciou. “Fazer justaposição de trechos de um
depoimento, pinçar, justapor e apresentar em uma denúncia, isso não é motivo
para que eu venha aplaudir a ação do Ministério Público”, assinalou.
“Desgraçadamente a técnica do procurador-geral, se fosse praticada por
advogado, seria alvo de processo disciplinar”, argumentou Carvalho. Ele disse
ainda que os ministros e o procurador-geral não deveriam sucumbir “à máxima
nazista de Goebbels (Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler),
de que a mentira dita mil vezes vai se tornar uma verdade autenticada”.
AÇODAMENTO
Os advogados
afirmaram que as denúncias elaboradas pelo Procuradoria-Geral da República são
“ineptas” e “não se sustentam”. “Tratam-se de criação mental do procurador
Antonio Fernando de Souza e não deve ser aceita pelo Supremo Tribunal
Federal”, defenderam. Além disso, os advogados enfatizaram que as acusações
“não foram individualizadas e não descrevem quais crimes os acusados
cometeram”.
Um dos argumentos
que desqualificaram o documento lido pelo procurador foi o fato de que, ao
final de sua apresentação, ele solicitou ao STF que aceite a denúncia para que
possam ser apresentadas as provas contra os acusados. Isto seria, na opinião
dos juristas, uma demonstração clara de que o procurador elaborou a denúncia
de forma açodada e sem sustentação. Alguns advogados afirmaram ter até mesmo
dificuldade em defender seus clientes, por não haver no documento do
procurador “qualquer denúncia concreta” contra eles.
Segundo o defensor
de Kátia Rabelo, presidente do Banco Rural, José Carlos Dias, o procurador
Antonio Fernando de Souza, ao elaborar a sua denúncia, agiu de forma
precipitada. Segundo Dias, o procurador incluiu na denúncia até pessoas, que
como Kátia Rabelo, na época das supostas irregularidades ocorridas no Banco
Rural, não estavam nem na sua direção.
O advogado Alberto
Zacharias Toron refutou as acusações contra o ex-presidente da Câmara dos
Deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e classificou a denúncia como uma “obra de
ficção”. Segundo Toron, seu cliente “não pode ser tido como mensaleiro porque,
afinal, fundou o PT e não receberia dinheiro para votar dessa ou daquela
maneira”. O deputado foi reeleito nas eleições parlamentares de 2006.
O Supremo Tribunal
Federal decidirá nos próximos dias se aceita ou não a peça de denúncia
elaborada pelo procurador. Também deverá ser decidido se a acusação será
tratada em bloco ou se será individualizada. Os advogados repeliram, durante a
sessão, as pressões que vêm sendo feitas para influir na decisão da Suprema
Corte. José Roberto Carvalho, em seu discurso, denunciou, por exemplo, que as
ações abertas na segunda-feira pelo Ministério Público Federal do Distrito
Federal fazem parte dessas iniciativas. “Esta decisão estava com data marcada.
Apenas dois dias antes desta sessão do STF. Está clara a intenção de
pressionar os integrantes deste tribunal”, destacou.
INDEPENDÊNCIA
Os próprios
integrantes do STF repudiaram a pressão que vem sofrendo nos últimos dias por
parte de setores da mídia e alertaram, através de nota (ver abaixo), que “a
tentativa de antecipar o voto dos ministros é especulação gratuita, sem base
em fatos reais”. A nota diz ainda que “ao longo de toda sua história, o
Supremo Tribunal Federal tem se notabilizado pela independência de seus
integrantes, cujas decisões são baseadas no livre convencimento a respeito dos
fatos e na aplicação do direito”.
SÉRGIO CRUZ