“Nossa vitória consistia
em não nos deixar abater”
A grande marcha (5)
Durante um ano invictos
e batendo sistematicamente as forças do governo, os revolucionários cruzam o
Nordeste e traçam os próximos passos da campanha: manter a luta armada até o
último dia do governo Bernardes e aproximar a Divisão da fronteira boliviana
SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES
Penetrando
em Pernambuco, entre Flores e Ingazeira, a 1ª Divisão Revolucionária atingiu a Vila do
Triunfo, no dia 13 de fevereiro, conforme fora combinado com os emissários do
tenente Cleto Campelo.
A permanência na
região, no entanto, apresentava novas dificuldades, conforme relata o coronel
João Alberto:
“Passara a
surpresa, e o adversário apresentava-se agora cheio de agressividade...”.
O tenente Cleto
Campelo não conseguira reunir as condições para sublevar o 21º Batalhão de
Caçadores e tomar a capital pernambucana. Seu novo plano era assumir o
controle da estação ferroviária de Jaboatão, na periferia do Recife, seguir de
trem para o interior e incorporar à 1ª Divisão Revolucionária as forças
que conseguisse arregimentar durante a marcha.
Cleto desertara do
21º BC, em 1925, ao ser enviado para combater os revolucionários no Mato
Grosso. Acompanhava-o Waldemar de Paula Lima, sargento da guarnição do
encouraçado São Paulo, rebelada em 1924. Waldemar era capitão da 1ª Divisão
Revolucionária, e fora designado para fazer a ligação com os
revolucionários pernambucanos. O núcleo era integrado também pelo marinheiro
Severino Cavalcanti e treze civis, entre os quais os padeiros comunistas José
Francisco de Barros e José Caetano. O dirigente do recém-criado Partido
Comunista do Brasil, em Pernambuco, Cristiano Cordeiro, havia prometido apoio
ao tenente Cleto. O Comitê Central do partido não referendou a sua iniciativa.
No dia 18 de
fevereiro, o grupo ocupou a estação da estrada de ferro Great Western, em
Jaboatão, recebeu a adesão de 40 ferroviários e organizou um trem de
combate, composto de quatro vagões e uma locomotiva.
A primeira parada
foi em Vitória de Santo Antão, onde Cleto requisitou, da prefeitura e
coletoria estadual, armas e munições, além de 1 conto e 525 mil-réis. Cerca de
100 novos voluntários se incorporaram à coluna. A maioria era constituída de
ferroviários que seguiam de Caruaru para Recife. Quando o trem em que viajavam
foi parado, em Vitória de Santo Antão, operários, telegrafistas, fiscais e o
próprio chefe da estação de Caruaru decidiram somar-se aos revoltosos.
O tenente Cleto
Campelo pretendia seguir pela via férrea até Buique, buscando contato com a
1ª Divisão Revolucionária.
O plano começaria a
ruir em Gravatá. Numa confusa operação para submeter a fraca guarnição da
cadeia local, o tenente Cleto foi baleado e morto, acidentalmente, pelos seus
próprios companheiros. A consternação tomou conta da inexperiente tropa. O
capitão Waldemar de Paula assumiu o comando e tentou prosseguir a luta,
alterando o rumo da marcha. Mas pouco pode fazer. A 22 de fevereiro, foi morto
numa emboscada em Tapada. Nenhum dos homens do pequeno contingente que o
acompanhava escapou com vida.
CÍRCULO DE FERRO
Para o coronel João
Alberto, os 15 dias passados em Pernambuco pesaram como 15 meses:
“Combatendo
diariamente, não nos sobrava tempo, sequer, para comer, tal a velocidade com
que nos deslocávamos. A cada passo, surgia uma reação nova”.
A 14 de fevereiro
os destacamentos Dutra e João Alberto atacam uma tropa da Policia Militar
transportada em 20 caminhões, chefiada pelo coronel João Nunes.
O capitão Moreira
Lima registraria no diário de campanha o resultado da batalha de Carneiro:
“O inimigo foi
completamente destroçado, deixando 15 homens mortos e 15 prisioneiros, alguns
dos quais feridos, salvando-se os demais por se haverem refugiado na caatinga,
onde a nossa cavalaria não os podia perseguir...
Foram feridos nesse
combate o major Manuel Alves de Lira, capitão Heraclides Pinto (Preto),
tenente Agerson Dantas e três soldados”.
Apesar dos reveses,
as forças governistas tornavam-se mais ousadas e cada vez mais numerosas. No
dia 18, em Mulungú, o 3º Destacamento sofreu 10 baixas, em virtude de um
ataque no qual os homens da Policia Militar usaram lenços vermelhos nos
pescoços, para confundir os comandados de Siqueira Campos.
A falta de notícias
sobre Cleto Campelo obrigava os destacamentos revolucionários a restringirem
sua movimentação à região demarcada pelos rios Pajeú, Navios e a Serra Negra.
Um piquete comandado pelo major Ari Freire destacara-se na direção leste,
realizando um raid sobre Pesqueira, Garanhuns e Buique em busca de
ligação com o tenente Cleto.
Os combates se
sucediam. Dia 20, na vila de Santa Maria e fazenda Monte Alegre. 21, em
Tabuleiro Comprido. 22, na fazenda do Cipó.
Na tarde do dia 22,
o grosso acampou na fazenda Buenos Aires, situada num contraforte da serra
Negra. Conta o capitão Moreira Lima:
“Pelas explorações
realizadas pelos nossos piquetes e depoimentos dos prisioneiros que fizemos em
Cipó, soubemos que se aproximavam três poderosas Colunas inimigas, procurando
nos envolver num círculo de ferro.
A situação era
grave, tendo o governador de Pernambuco se apressado em telegrafar para o Rio,
conforme lemos depois nos jornais, comunicando nos acharmos cercados e
restar-nos apenas o refúgio daquela serra.
Esse comunicado
exprimia a verdade, pois o inimigo havia conseguido transportar para aqueles
sertões todas as tropas que dispunha no Nordeste, cerca de 15.000 homens.
Ari não conseguira
notícias de Cleto.
Foi então combinado
atravessarmos o São Francisco e invadirmos a Bahia...”.
Antes que o círculo
se fechasse, a 1ª Divisão Revolucionária executou outra manobra na qual
buscou intencionalmente o terreno adverso, para surpreender o adversário.
Marchou para o norte, em passo acelerado, voltando em seguida para o sul,
descrevendo um arco de mais de 120 km, através das caatingas, sob chuvas
torrenciais, transpondo lamaçais e atoleiros, em marchas noturnas, enquanto o
inimigo se distanciava, seguindo em direção à serra Negra.
No dia 25, a coluna
revolucionária atingiu a fazenda Brejinho, a 20 km do São Francisco, tendo
iniciado a travessia do rio ao meio-dia, terminando-a na madrugada do dia 26.
A travessia dos
estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco durara 23 dias, nos quais
foram percorridos 1.016 km.
Realizando um
rápido balanço, o coronel João Alberto conta que:
“Perdêramos, desde
o cerco de Teresina, mais de 100 dos nossos melhores veteranos, sem contar os
voluntários que vinham aderindo...”.
Lourenço Moreira
Lima apresenta um quadro mais geral:
“Entramos no
Maranhão com cerca de 900 homens. Aí incorporamos 250, no Piauí 160, no Ceará
20, na Paraíba e Pernambuco 40, tendo se perdido 160, por mortes, deserções e
extravios, de sorte que invadimos a Bahia com perto de 1.200 homens”.
Ainda em
Pernambuco, os revolucionários receberam a informação de que Tia Maria, uma
das cozinheiras da coluna, fora degolada na Paraíba, junto com outros três
soldados que haviam se perdido da tropa.
A CAUDA DO COMETA
A primeira etapa da
campanha na Bahia foi a marcha de 558 km, na direção sudoeste, até a chapada
Diamantina.
Durante os 18 dias
de travessia daqueles sertões - imortalizados na obra de Euclides da Cunha - a
1ª Divisão Revolucionária vadeou o rio da Ema, o Vaza Barris, o Salitre
e o rio do Inferno; cruzou a estrada de ferro Salvador-Juazeiro; sesteou e
pousou em 21 fazendas e um povoado. Nenhum combate expressivo foi registrado.
As condições de suprimento eram satisfatórias, conforme relata o
coronel João Alberto:
“Nos habituáramos a
comer cabrito, que existia em toda a parte. Assado era quitute apreciável.
Havia também muito queijo de leite de vaca e de leite de cabra. Farinha e
rapadura encontravam-se com facilidade. Quase uma Canaã”.
O que incomodava
era o fato da tropa estar a pé, pois a cavalhada tivera de ser deixada na
margem pernambucana do rio São Francisco.
Antes de atingirem
regiões mais favorecidas pela presença eqüina, o que só ocorreria a partir da
vila de Uauá, os potreadores não dispensaram os jericos, que da
localidade de Salgado do Melão em diante existiam em grande quantidade.
O capitão Moreira
Lima faz uma apreciação do desempenho desses resistentes animais, no exercício
do papel de montaria dos exímios cavaleiros da 1ª Divisão Revolucionária:
“Eles
portavam-se bem e pareciam seriamente compenetrados da sua nova e honrosa
missão de corcéis de guerra, mantendo uma elegante linha de conduta, até
encontrar um riacho a vadear, quando perdiam a compostura marcial que iam
ostentando. Sem nenhuma consideração para com os guerreiros que tinham a
ventura de carregar, davam coices e cabeçadas e se recusavam a entrar na água,
por mais que apanhassem... Era necessário arrastá-los”.
A 18 de marco, a
1ª Divisão Revolucionária atingiria a vila de Alagoinhas, na extremidade
norte da chapada Diamantina. No dia 25, ocupava Caraíbas. O capitão Moreira
Lima relata o teor de uma inesperada visita recebida naquele povoado:
“Chegaram a
Caraíbas o capitão Leovigildo Cardoso Viana, da Guarda Nacional, amigo de
Horácio de Matos e um primo deste, de nome Augusto de Matos, que nos disseram
ter ido a nossa procura, a fim de promover um entendimento com Horácio,
declarando que ele simpatizava com a nossa causa, e que, certamente nos
apoiaria, e quando isso não fosse possível não nos hostilizaria”.
Os revolucionários
desconfiaram que se tratava de um ardil. E estavam certos.
O coronel Horácio
de Matos era o rico e truculento senhor de Lençóis, centro da comercialização
de pedras preciosas na chapada. No ano anterior, ele havia armado seus cabras
e promovido uma guerra contra o governo estadual, para impedir a nomeação de
um delegado de polícia que não rezava pela sua cartilha. O Exército precisou
intervir, e o governador Góes Calmon acabou recuando da nomeação.
A missão dos
embaixadores do coronel era de espionagem. Horácio de Matos já havia negociado
com o governo federal a mobilização de seu bando.
Dirigia as forças
governistas, na Bahia, o general Álvaro Mariante, que sustentava uma acirrada
contenda com o general João Gomes, seu comandante e chefe das Forças em
Operação no Norte da República, sobre as implicações éticas e a eficácia
militar das tropas compostas de jagunços e cangaceiros, na luta
contra-revolucionária.
Entusiasta desse
método, Mariante havia mobilizado, para a campanha na Bahia, além do bando de
Horácio de Matos, os de Franklin de Albuquerque, Abílio Volney e José Honório
Granja, com cerca de 400 homens cada - todos armados, municiados, alimentados
e pagos pelo governo federal.
Sua estratégia
consistia em lançar esses destacamentos contra a coluna revolucionária,
“como cães de caça no encalço da raposa”, enquanto os caçadores
aguardariam o momento oportuno para entrar em ação.
Mariante dispôs os
efetivos do Exército e Polícias Militares da Bahia, São Paulo, Rio Grande do
Sul, Piauí e Alagoas, ao longo do São Francisco. Seu QG foi instalado em
Chique-Chique. De uma barcaça que descia e subia o rio, ele dirigia as
operações.
Seu plano era
cercar a 1ª Divisão Revolucionária na caatinga, entre Tiririca dos
Bodes, Aleixo, Brotas e o rio São Francisco.
O plano não
produziu o resultado prometido. A 1ª Divisão Revolucionária cruzaria a
região, não apenas uma, mas duas vezes. Mariante, no entanto, tomaria o lugar
de João Gomes, por determinação do ministro da Guerra, general Setembrino de
Carvalho, no dia 23 de abril. Em julho, Horácio de Matos ganharia o status
de coronel da Guarda Nacional e seu bando o de Batalhão Patriótico Lavras
Diamantinas. Franklin e Volney seriam promovidos a tenentes-coronéis da
reserva do Exército e Ganja a major.
LAÇO HÚNGARO
Atravessando a
chapada Diamantina, na direção do sul, os revolucionários mantinham
ainda a esperança de receber uma comunicação do marechal Isidoro sobre a
remessa dos armamentos que haviam solicitado quando passaram pela vila de
Posse, em Goiás, seis meses antes.
Nos 21 dias de
duração dessa marcha, a 1ª Divisão Revolucionária ocupou 16 povoados e
vilas, percorrendo 700 km. A partir de 27 de março, vários confrontos ligeiros
foram mantidos com os bandos de jagunços, ocorrendo o principal em Barra do
Mendes, envolvendo o destacamento Djalma Dutra.
A ação
contra-revolucionária quase se resumia à realização de emboscadas contra os
pequenos grupos de potreadores, evitando os jagunços aproximar-se dos
destacamentos da coluna.
Concluída a
travessia das Lavras Diamantinas, o terreno plano e aberto, coberto de campos
floridos, era impróprio às tocaias, passando então os bandos de Horácio de
Matos, Franklin, Volney e Granja a formarem o que o capitão Moreira Lima
designou de “a grande cauda de acompanhamento que nos seguiu até o norte de
Minas”.
No dia 7 de abril,
a 1ª Divisão Revolucionária foi recebida na cidade de Rio de Contas por
uma comissão trajada a caráter: fraques, sobrecasacas e cartolas.
Relativamente rica e orgulhosa da condição de berço do educador baiano Abílio
César Borges, o Barão de Macaúbas, a cidade registrava, no entanto, uma
deficiência que motivou a seguinte reflexão do capitão Moreira Lima:
“Minas do Rio de
Contas, apesar de ter um bom prédio para a cadeia, não possui um edifício
condigno para escola, pois a que existe funciona num pardieiro.
É uma coisa que
impressiona, tristemente, no interior do Brasil a diferença entre as cadeias e
as escolas... É o contrário do que se verifica na Argentina... Outros prédios
que sempre se encontram no interior da Argentina são os hospitais...
Percorremos mais de 500 cidades, vilas e povoações e em nenhuma delas
encontramos um só hospital”.
No dia seguinte,
encantaram-se os revolucionários com a visão da cachoeira do Fraga, que
despenca de 340 metros de altura.
A 13 de abril,
assistiram uma sessão de cinema em Caculé e, no dia 15, vadearam o rio Gavião
chegando à cidade de Condeúba, onde, a noite, os soldados encenaram uma
comédia criada por eles próprios.
Estava quase
concluída a travessia da Bahia - 1.596 km, em 52 dias.
Penetrando em
território mineiro, no dia 19, a coluna atinge o povoado de Jatobá, no dia 23,
tendo a sua retaguarda mantido dois recontros, no percurso, com as forças de
Horácio de Matos e Honório Granja.
Numa reunião,
Miguel Costa, Prestes e os comandantes de destacamento discutem e decidem o
futuro da campanha.
Ao longo de um ano,
a coluna se mantivera invicta, fustigando e batendo o governo
sistematicamente, mas as forças insurgentes, em seu conjunto, não haviam
reunido as condições para uma ofensiva estratégica. A onda revolucionária
iniciada em julho de 1924, em São Paulo, apresentava sinais de esgotamento.
Era necessário preparar o passo seguinte, no qual a ação política prosseguiria
por outros meios.
Manter a luta
armada até o último dia do governo Bernardes e aproximar a Divisão da
fronteira boliviana, passaram a ser os objetivos da campanha.
O coronel João
Alberto conta que a decisão foi mantida sob rigoroso sigilo:
“Não se falaria de
emigração na coluna, nem aos próprios oficiais. Somente os comandantes e
subcomandantes de destacamento tinham conhecimento da manobra”.
A posse de
Washington Luís, candidato único à presidência da República, nas eleições de
março de 1926, só ocorreria a 15 de novembro.
O plano do
Estado-Maior, concebido e apresentado pelo general Prestes, para atingir esses
objetivos, era tão ousado quanto surpreendente: realizar uma contramarcha,
retrocedendo sobre os próprios passos, cruzar de novo a Bahia, transpor o São
Francisco, atingir o Piauí, Goiás e Mato Grosso.
Para iniciá-lo era
preciso livrar-se dos bandos de jagunços, que acompanhavam a coluna, e das
tropas do Exército que subiam o rio São Francisco em embarcações, procurando
cercar a 1ª Divisão Revolucionária.
Isso foi realizado,
conforme o relato do capitão Moreira Lima:
“Prestes repetiu
a manobra realizada em Pernambuco, após o combate da fazenda do Cipó,
marchando, porém, para oeste, para dar a impressão de que avançava para aquele
rio, mudando logo de direção. Descreveu, assim, um arco de círculo e entrando
novamente na Bahia, deu à nossa marcha nos territórios baiano e mineiro a
forma de um laço húngaro das faldas setentrionais do Grão Mogol à margem do
São Francisco, no lugar Saco e no povoado de Rodelas”.
Continua na próxima edição