Paulo Nogueira Batista Jr.:
Turbulência internacional ameaça o crescimento?
“A maior ameaça ao
crescimento talvez seja interna. A turma da bufunfa, embora “cansada”, já se
agita e já se mobiliza. Pede aumento do superávit fiscal primário. Quer que o
Banco Central interrompa, ou pelo menos desacelere, os cortes na taxa básica
de juro”, afirma Paulo Nogueira Batista Jr., em artigo na Folha de S.Paulo
que reproduzimos a seguir.
“A TURBULÊNCIA financeira
internacional ameaça o crescimento da economia brasileira? A preocupação com o
tema é compreensível. Afinal, a história econômica do Brasil é marcada por
crises cambiais recorrentes.
No período Fernando Henrique
Cardoso, por exemplo, o quadro foi realmente terrível. O Brasil enfrentou
crises de balanço de pagamentos em nada menos que seis dos oito anos do
governo FHC! Cada vez que a economia brasileira ameaçava levantar a cabeça,
sobrevinha um choque cambial e abortava o crescimento incipiente. Era o vôo da
galinha, como se dizia na época.
Pode acontecer o mesmo
agora? Não parece provável. Como tentei mostrar no artigo da quinta-feira
passada, a posição brasileira é atualmente bem mais forte do que foi na década
de 90 e no início da atual.
Não somos invulneráveis, mas
a balança comercial, o balanço de pagamentos em conta corrente, o ingresso de
investimentos diretos e o nível de reservas internacionais indicam que o país
pode resistir a choques externos de magnitude considerável sem ser obrigado a
tomar medidas recessivas.
Se a crise financeira
externa se agravar, as nossas exportações sofrerão, é claro, afetando em
alguma medida o ritmo de crescimento brasileiro. Uma crise duradoura
provocaria uma desaceleração da economia mundial e reduziria a demanda externa
por produtos brasileiros e os preços das commodities exportadas pelo país. Não
se deve perder de vista, entretanto, que a expansão recente da economia
brasileira se apóia primordialmente no mercado interno, e não nas exportações.
As fontes principais da retomada têm sido a ampliação do investimento e do
consumo. O Brasil pode continuar crescendo mesmo que a economia internacional
perca dinamismo.
A maior ameaça ao
crescimento talvez seja interna. A turma da bufunfa, embora “cansada”, já se
agita e já se mobiliza. Pede aumento do superávit fiscal primário. Quer que o
Banco Central interrompa, ou pelo menos desacelere, os cortes na taxa básica
de juro.
Repare, leitor, que o nosso
juro real básico ainda é mais de três vezes superior à média internacional.
Mas os bufunfeiros não querem nem saber. O presidente de um grande banco
privado nacional, que acaba de divulgar lucros exorbitantes, pediu “prudência”
ao BC diante da turbulência financeira externa. E sugeriu que a Selic seja
mantida em 11,5% na próxima reunião do Copom.
Na realidade, a turma da
bufunfa é incansável. Sempre encontra um motivo ou pretexto para manter os
juros nas alturas. Quando não é a crise financeira externa, é o risco de
inflação. Quando não é a inflação, é o crescimento exageradamente robusto da
economia brasileira. Quando não é o crescimento, é o risco de crescimento
excessivo -e vai por aí.
Se dependesse dessa turma, o
Brasil estaria eternamente condenado ao crescimento medíocre. Até o economista
John Williamson, conhecido como “pai do Consenso de Washington”, em entrevista
publicada na Folha de ontem, comentou que seria “sábia” a decisão de
continuar diminuindo os juros no Brasil.
“Não existe nenhuma base
para pânico neste momento”, declarou. Fiquei empolgado. Um economista
subdesenvolvido sempre vibra quando encontra apoio externo. Ditas em inglês,
por um economista do establishment internacional, as opiniões mais triviais
adquirem ares de sabedoria profunda e inexpugnável. E ressoam intensamente
(assim espero) nos subúrbios financeiros do planeta.”
Paulo Nogueira Batista Jr. é
diretor-executivo do FMI. O artigo foi publicado com o título “Ameaças ao
crescimento?”