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Os imprescindíveis

Em entrevista a um jornal paulista, o presidente Lula declarou que “quando um dirigente político começa a pensar que é imprescindível, que ele é insubstituível, começa a nascer um ditadorzinho”.

É verdade: quem se acha imprescindível, e não é, não passa de um ditadorzinho. Diferente é a situação de quem, numa determinada quadra da História, é realmente imprescindível, ou seja, aqueles cuja falta, num determinado momento, significa levar o país a um retrocesso. Nisso, o nosso presidente certamente concordará conosco, e com Brecht, que “Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;/ Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;/ Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;/ Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis”.

Geralmente, esses últimos são os que têm maior dificuldade de conceber a própria grandeza, simplesmente porque não lutam para ser grandes, ou porque se consideram grandes. Lutam porque acham que é necessário lutar – e, exatamente por isso, são grandes.

Lula é um desses “que lutam toda a vida”. Por isso, não é espantoso que tenha uma estimativa modesta sobre o seu próprio papel.

Alguns fariseus da mídia colonizada quiseram jogar sobre o presidente Chávez, e sua proposta de acabar com as limitações à reeleição na Venezuela, a declaração de Lula - cuja posição é a de não concorrer a um terceiro mandato. O próprio Lula, na entrevista citada, esclareceu que não estava se referindo à democracia de outros países.

Realmente, não há nada mais autoritário e grotesco do que um candidato de si próprio. Completamente diferente é a situação quando é o povo que deseja reconduzir alguém a alguma função, especialmente à função suprema de presidente da República.

Em janeiro deste ano, escrevemos aqui que “a limitação à reeleição é uma limitação ao direito do povo escolher quem ele quiser para governá-lo. Não por acaso, jamais foi para ampliar a democracia que essa limitação foi imposta. Ao contrário, e com toda lógica, ela é uma forma de limitar a própria democracia, ou seja, reduzi-la”.

Com efeito, nos EUA, por exemplo, a limitação do número de mandatos do presidente somente foi instituída após a morte de Franklin Delano Roosevelt – que, contra a mídia, os cartéis e os monopólios financeiros, conquistara quatro mandatos populares consecutivos. No entanto, os governadores continuaram a ter quantos mandatos fossem eleitos e, naturalmente, os deputados e senadores.

Aliás, é peculiar, no Brasil, que os detentores de cargos legislativos possam ser eleitos quantas vezes as urnas os elegerem, enquanto os detentores de cargos executivos não o possam. Por que essa diferença? Certamente, não é pela possibilidade de uso da máquina administrativa para reeleger-se, pois é evidente que um deputado ou senador também poderá, com suas ligações políticas, fazer uso dessa máquina.

Seja como for, na França as reeleições presidenciais são ilimitadas e ninguém jamais disse – exceto quando De Gaulle era presidente e se chocava com a política imperialista ianque – que a França não é uma democracia. E nem é preciso falar dos chefes de governo em sistemas parlamentaristas, onde o primeiro-ministro é reeleito indefinidamente (o primeiro-ministro da Irlanda acaba de conquistar um terceiro mandato). Muito menos é necessário falar nos chefes de Estado vitalícios – reis, rainhas, ainda comuns na Europa. Nestes a reação não vê problemas.

Mas, por que essa preocupação em impedir que líderes populares possam ser reeleitos? Porque não é fácil para o povo condensar em um líder as suas aspirações a uma vida melhor e mais digna. Quando isto acontece – e não é sempre que acontece – mais difícil ainda é substituir esse líder, fruto de décadas de luta e história, por outro. É para isso que serve a limitação à reeleição. Para impedir os imprescindíveis de exercerem o papel para o qual foram preparados por uma vida inteira de luta.

C.L. 

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29/08/2007
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