Hugo Chávez e a “grande
imprensa”
Pouco antes de embarcar para
a Venezuela, vi publicado nos jornais mais representativos da nossa mal
denominada “grande imprensa” a notícia de que as latas de atum doadas pela
Venezuela ao Peru, à guisa de ajuda humanitária pelo terremoto que assolou
aquele país irmão, traziam a foto de Chávez.
Em Caracas, pude constatar
que a fonte da informação, um canal de televisão de conhecida trajetória
golpista, acrescentara à “denúncia” uma “contundente crítica” do presidente
Alan Garcia a Chávez.
O locutor falava das latas e
do protesto de Garcia. Em seguida o mostrava dizendo: “Chávez é presidente
da Venezuela, não é candidato a nenhum cargo eletivo no Peru”. Para
completar, as câmeras retornavam ao locutor que condenava com veemência o
“oportunismo de Hugo Chávez, que está usando o sofrimento do povo peruano para
fazer propaganda”.
À noite, o canal 8 (TV
pública) esclareceu a fraude. Apresentou vários lotes dos referidos
enlatados e a íntegra das declarações do presidente Alan Garcia, feitas de
viva voz pelo próprio.
Ao contrário de uma crítica
a Chávez o que havia era um agradecimento, e, no final, um desmentido da
informação plantada com o objetivo de intrigar os dois presidentes: “Isto
não existe, é uma história tola, mesmo porque Chávez é presidente da
Venezuela, não é candidato a nenhum cargo eletivo no Peru”, foi a
declaração completa de Garcia, naquela parte da entrevista.
O canal golpista
simplesmente havia forjado a história das fotos, mutilado as declarações do
presidente peruano e se apropriado de um pequeno trecho que por associação com
a arenga do William Bonner local pudesse ter o seu significado invertido.
O poder da associação de
imagens, para emprestar-lhes distintos significados, deu origem a uma célebre
experiência do cinema soviético, no início do século passado, na qual um close
do ator Ivan Moujhkine foi intercalado entre três cenas: um prato de sopa
fumegante, crianças brincando e um enterro. O que as platéias viam era a
incrível capacidade do grande ator russo de transmitir as sensações de fome,
alegria e tristeza. Na realidade, o close utilizado na experiência pelas três
vezes era, exatamente, o mesmo.
Ninguém que trabalha em
jornal ou televisão desconhece que os recursos de edição podem servir tanto
para realçar a realidade quanto para falseá-la, fazendo uma mentira parecer
verdade.
Portanto, não foi por
ingenuidade que veículos da nossa “grande imprensa” endossaram a grosseira
fraude perpetrada por um canal useiro e vezeiro em expedientes desse tipo.
Como não gostam de Chávez,
se julgam no direito de reproduzir qualquer patuscada contra ele.
No jargão que um estouvado
diretor do jornalismo global em boa hora deixou escapar, isso quer dizer que
contra o presidente Chávez vale “testar todas as hipóteses”. E vale também não
publicar o desmentido quando a “hipótese” não resiste ao “teste”.
Não é difícil compreender as
razões pelas quais o papel de Chávez na Venezuela, na América Latina e no
mundo os perturba, a ponto de levá-los a arrastar na lama os restos de uma
credibilidade que outrora parecia sólida.
Em primeiro lugar, o
presidente venezuelano traz na face as inequívocas marcas de sua origem
popular, coisa que as elites saudosas dos bons tempos da senzala, assim como
seus viscosos aderentes, desprezam e, sobretudo, temem – Freud explica como
tais sentimentos conflitantes podem coexistir, produzindo altas doses de
ansiedade no paciente.
Em segundo lugar, desde o
fim do socialismo na URSS – e já se vão quase 20 anos – a Venezuela é o
primeiro país que está decidindo, pela vontade soberana do seu povo,
ultrapassar os limites do capitalismo para ingressar no terreno da edificação
socialista.
Este acontecimento de
extraordinário significado contrasta com a retumbante derrota que o
imperialismo americano está colhendo no Iraque e prenuncia um novo ciclo
revolucionário no mundo. É natural que aqueles que se auto-embalaram com a
cantiga do “fim da história” não se sintam agradecidos à Venezuela, por tê-los
despertado para os rigores da realidade.
Porém, a razão principal
reside num fato singular. A revolução venezuelana tem conseguido avançar,
pacientemente, dentro da mais estrita observância à lei e à ordem. Todas as
ameaças e insurgências contra o estado de direito e a legalidade vigentes,
desde a primeira eleição de Chávez, em 1998, partiram, de forma muito nítida,
das forças contra-revolucionárias que se congregam na oposição.
Portanto, o ataque à
revolução em nome da democracia formal, arma ideológica predileta dos
detentores do privilégio de viverem da exploração e miséria do próximo, já não
pode ser efetuado com a mesma desenvoltura e eficácia demonstrada em outros
carnavais.
Na Venezuela de Chávez, para
desgosto deles, a democracia real e a formal caminham de mãos dadas.
Tanto é assim que para
iniciar a construção do socialismo o presidente Hugo Chávez apresentou um
projeto de reforma constitucional e, para combatê-lo, o “The New York Times”
se vê na obrigação de iniciar o editorial de 22 de agosto afirmando o
seguinte: “Chávez segue sendo um democrata, ao menos tecnicamente. Tem
derrotado a incompetente oposição venezuelana repetidas vezes em eleições que
observadores internacionais julgam justas. No mês de dezembro passado obteve
uma aplastante vitória que ampliou seu mandato até 2012. Sua proposta de
reforma constitucional deve ser submetida à votação da Assembléia Nacional e
depois a um referendo popular”.
Ao contrário dos
espiroquetas que tem empurrado nossa “grande imprensa” para uma situação de
inédito descrédito, o “The New York Times” tem seus motivos para demonstrar
mais zelo pela própria reputação: espera viver mais tempo do que eles.
Sérgio Rubens de Araújo
Torres - Caracas, Cuna de Bolívar, 26
de agosto de 2007