“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”
A grande marcha (6)
Combatendo bravamente, os
destacamentos da 1ª Divisão Revolucionária enfrentam ciladas, emboscadas e as
durezas do sertão nordestino
SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES
A 30 de abril, a 1ª
Divisão Revolucionária sesteou na fazenda Ilha de Dentro, a leste da
cidade de Condeúba, já no estado da Bahia. Os revolucionários seguiram para
Ituaçu, tendo atravessado o rio Gavião e mais adiante o das Contas, ocupando a
cidade em 4 de maio.
No dia seguinte, uma
potreada comandada pelo sargento Zupério prendeu o jovem Anatolino Medrado,
levando-o até o acampamento do QG.
Anatolino era filho de Doca
Medrado, chefe político da cidade de Mucugê, pai de 42 filhos e sogro de
Horácio de Matos.
Mucugê fica nas
proximidades de Brotas, capital do feudo de Horácio de Matos, na região das
Lavras Diamantinas.
Ao ser preso, Anatolino
dissera a Zupério que seu pai o encarregara de convidar os integrantes da
coluna para irem a Mucugê, onde seriam recebidos como amigos.
O destacamento Dutra foi
designado para acompanhar Anatolino até a cidade, enquanto o grosso levantou
acampamento, retomando a marcha para o povoado denominado Guiné de Cima.
O convite tinha uma forte
aparência de cilada. Mas se não fosse, poderia render à coluna armas e
munições, que faziam muita falta naquele momento. O QG decidira correr o risco
de fazer a verificação.
O 4º Destacamento,
marchando cautelosamente, alcançou Mucugê, que fica além de uma longa e
estreita garganta formada por duas serras pedregosas. Eram 9 horas da manhã.
Diz o capitão Moreira Lima:
“Fazia a vanguarda o
major Ari Salgado Freire, que atravessou aquela garganta até perto das
primeiras casas da cidade.
Ao atingir esse ponto,
foi hostilizado com violência, de frente e pelos flancos por numerosa tropa
emboscada dentro das casas e nos altos das serras... Ari mediu a situação em
que se achava e resolveu manter-se dentro daquele círculo de fogo em que
penetrara, até receber o apoio de Dutra”.
O combate foi feroz. Os
revolucionários só conseguiram retirar-se da garganta depois de tomarem uma
das serras, expulsando dali a força inimiga.
Os efetivos mobilizados por
Doca Medrado eram de 400 homens, entre policiais militares e jagunços.
Transportando os feridos em
padiolas, o destacamento Dutra iniciou a marcha para Guiné de Cima. A tropa
inimiga tornou a atacar.
O capitão Moreira Lima
registrou:
“Eram 4 horas da tarde,
o inimigo investiu contra os nossos com uma fúria terrível. O 4º Destacamento
recuava combatendo bravamente, em proteção de seus numerosos feridos, assim
percorrendo duas léguas, até que sobreveio a noite, quando se rompeu o contato
com o adversário, cujas baixas também foram igualmente grandes”.
Em conseqüência da cilada,
por não resistir aos ferimentos, morreria, na noite do dia 9, o tenente
Leopoldo Ribeiro Júnior, voluntário baiano que havia se incorporado às
forças revolucionárias durante a insurreição paulista de 1924.
Anatolino Medrado, que
entrara no desfiladeiro ao lado do major Ari Freire, foi defendido por este,
no inquérito aberto para apurar a sua responsabilidade na cilada. O relato é
do capitão Moreira Lima:
“Ari declarou que...
Anatolino se mostrara sinceramente surpreendido e indignado..., pedira-lhe uma
arma para combater, não tendo passado para a cidade porque não quisera, pois
fora descurada a sua vigilância durante o combate... Diante disso Anatolino
nada sofreu, sendo levado como prisioneiro, sempre bem tratado, até a cidade
de Monte Alegre, onde foi solto...”.
Algum tempo depois, ele
daria uma entrevista num jornal de Salvador, afirmando que aceitara cumprir o
papel de isca na armadilha preparada por seu pai.
Verdadeira ou falsa a
segunda versão de Anatolino, a entrevista teve o mérito de expor de público a
miséria moral que campeava nas hostes governistas.
TRANSPOSIÇÃO DO SÃO
FRANCISCO
O plano de campanha na
Bahia era cortar a chapada Diamantina na direção noroeste, para atingir o vale
do rio Verde, afluente do São Francisco, e cruzar o velho Chico na altura de
Pilão Arcado.
Até o meio do caminho, a
exceção da cilada em Mucugê, não houve confrontos. O dispositivo do general
Mariante, composto pelas forças regulares que se deslocavam em embarcações,
através do São Francisco, e pelos bandos de jagunços que faziam o papel de
cauda da coluna, custou a perceber a manobra que esta fizera em Minas.
Continuou tentando cercá-la naquele estado, quando ela já se deslocava pela
Bahia.
A partir de Várzea, em 9 de
maio, duros embates e mortíferas tocaias começaram a se suceder. O general
Mariante conseguiu reposicionar as suas forças e os coronéis sertanejos
pressionaram as populações dos pequenos vilarejos, para lançá-las contra a
coluna.
Como essas pressões
começassem a produzir resultados, a 1ª Divisão Revolucionária reagiu,
incendiando os povoados de Barro Alto, Tiririca dos Bodes, Canabrava do Ângelo
e Roça de Dentro, entre os dias 12 e 14.
O remédio amargo
neutralizou o veneno. Na manhã do dia 17, a coluna sesteou em Passagem do Rio
Verde, na margem direita deste rio, descendo-o até atingir a localidade de
Pedrinhas, a 50 km da sua foz. Dali não pode mais prosseguir, as águas do
Verde estavam represadas, naquele ponto, pela grande cheia do São Francisco,
que galgara suas barrancas e vazara para as áreas ribeirinhas.
A 1ª Divisão
Revolucionária enveredou, então, por uma picada de 80 km, na direção
nordeste, através da vasta caatinga situada no chapadão que divide as bacias
do Verde e do Jacaré, procurando atingir a localidade de Tabuleiro Alto.
O caminho era conhecido
pelo nome de Estrada Cruel. Moreira Lima registrou no diário de
campanha:
“Essa região é um ermo
despovoado de pássaros e quadrúpedes, e nela vivem numerosos répteis que
coleiam por entre as macambiras agressivas e as coroas de frade espalhadas
pelos lajeados...
A marcha foi vagarosa,
não só porque grande parte da tropa estava desmontada, como também por termos
sido forçados a ir afastando numerosos galhos armados de temíveis espinhos,
que obstruíam a estreitíssima passagem que percorríamos.”
Chegando a Tabuleiro Alto,
próximo à margem direita do rio Jacaré, no dia 25 de maio, nova decepção os
aguardava.
Conta o capitão Moreira
Lima:
“Ali, segundo nos
informou um morador que encontramos, o São Francisco estava com cinco léguas
de largura... A margem do rio apresentava um aspecto doloroso de miséria e
desolação. Nela apenas encontramos as pequenas canoas dos moradores, sendo
portanto impraticável a travessia... Diante desses embaraços foi resolvido
descermos até a altura da cidade de Sento Sé, a fim de ganharmos o sertão...”.
O plano envolvia altos
riscos e extremo esforço para sua realização.
O caminho de Tabuleiro Alto
a Sento Sé, apertado entre o rio São Francisco e a serra do Encaibro,
alongava-se por quase 300 km de terrenos pegajosos, impróprios ao deslocamento
rápido. Várias localidades, nesse percurso, estavam sendo ocupadas pelo
inimigo. Este certamente concentrava forças em Sento Sé, bloqueando a garganta
próxima da cidade, única saída para os sertões do leste. E os bandos de
Horácio, Volney, Granja e Franklin de Albuquerque - ali conhecido como seu
Franklin de Pilão Arcado - estariam logo atrás.
Se algo não desse certo, só
restaria aos revolucionários invadir a imensa caatinga que cobria a serra
do Encaibro, da qual haviam tido uma amostra na travessia da Estrada
Cruel. Agigantaram-se os soldados da coluna. Nada os deteve.
Andando muitas vezes com água pela cintura, comendo e dormindo pouco, rompendo
à bala ou contornando os bloqueios do inimigo, eles escreveram uma epopéia a
parte através dessa estafante marcha.
No esforço final, o último
obstáculo foi vencido com uma manobra, assim narrada pelo capitão Moreira
Lima:
“João Alberto, que fazia
a vanguarda, abriu uma picada de cerca de légua e meia e às cinco horas da
manhã de 1º de junho, saímos a uma legua na retaguarda do entrincheiramento
inimigo, na estrada de Sento Sé... A coluna que nos perseguia foi bater de
encontro ás trincheiras da polícia...”.
Ganhando os sertões
baianos, a 1ª Divisão Revolucionária livrara-se do aperto que a
constrangia. O plano do Estado-Maior entrava, agora, em sua segunda fase:
atingir o trecho não navegável do São Francisco, na altura da cidade
pernambucana de Cabrobó, para, finalmente, poder transpô-lo e atingir aquele
estado.
Esse ponto estava cerca de
400 km a nordeste de Sento Sé. Os revolucionários, no entanto, marcharam para
sudeste, até Monte Alegre, infletindo para nordeste, até as imediações da
estação ferroviária de Serrinha, seguindo depois para o norte, até Jeremoabo,
cidade próxima à fronteira sergipana. Dali tomaram a direção noroeste, até
Canché, e, finalmente, avançaram para o norte, até Rodelas, na margem do São
Francisco, descrevendo uma grande curva de 1.470 km, em 32 dias.
Desconcertadas com a
manobra, as forças comandadas pelo general Mariante anularam-se por completo.
ACOLHIDA
NO PIAUÍ
O coronel João Alberto
sintetizou em poucas palavras o final da campanha na Bahia e a travessia de
seu estado natal:
“Depois de outra marcha
para o litoral..., conseguimos, ainda uma vez, graças à mobilidade da coluna,
agora toda montada, atravessar o famoso rio, nas proximidades de Cabrobó, no
sertão pernambucano... A reação do governo do Recife era, agora, bastante
fraca. Mantinha a sua tropa a fim de... defender capital do estado e
prevenir-se contra qualquer tentativa de sublevação”.
No rápido deslocamento,
através do território de Pernambuco, a 1ª Divisão Revolucionária seguiu
o rumo noroeste, ate Bodocó, de onde infletiu para oeste, entrando no Piauí.
Após passar pelas cidades
de Jaicós e Picos, o grosso estacionou em Oeiras, entre os dias 17 e 23 de
julho.
O 2º Destacamento foi
enviado a Amarante e Floriano, cidades que haviam sido ocupadas durante a
primeira jornada da coluna naquele estado.
Em todas elas, os
revolucionários foram recebidos pela população com manifestações de apreço e
carinho.
Um único incidente foi
registrado pelo capitão Moreira Lima no diário da campanha:
“Eu e João Alberto
causamos involuntariamente um grande desgosto à cidade de Amarante: batemos os
seus campeões de gamão numa partida em que nos empenhamos”.
Em Floriano, foi impresso
mais um número do jornal O Libertador. Após um comício, realizado no
dia 26, os oficiais revolucionários foram presenteados, pelas famílias locais,
com lenços de seda vermelha.
A partir de 22 de julho, os
jagunços de Volney, Granja e Franklin haviam começado a pressionar o
destacamento Cordeiro de Farias, que fazia a retaguarda, na fazenda
Tranqueiras. Novos ataques foram repelidos, a 25, em Tanque Novo, pelo 1º
Destacamento, e a 26 pelo destacamento Siqueira Campos que avançara para o
sul, até Jurumenha, reiniciando a marcha rumo ao estado de Goiás.
No Piauí, a 1ª Divisão
Revolucionária aproveitara para recompor-se das perdas sofridas nos quatro
meses de campanha na Bahia e Minas Gerais: quase 300 homens, entre mortos,
prisioneiros, extraviados e desertores, contra 50 novos voluntários,
incorporados à tropa.
Além de preencher esses
claros, buscaram também os revolucionários reduzir a carência de armamentos e
munições, já que o marechal Isidoro não respondera às suas solicitações a esse
respeito.
A população de Oeiras
despediu-se dos ilustres hóspedes, oferecendo-lhes um grande baile.
A dedicatória sobre um
velho mapa de campanha, que ficaria na cidade como recordação daqueles
acontecimentos, registrava os 16.500 km varados pela coluna, até aquela data:
“Marcha dos
Revolucionários de 1924.
Percurso de 2.500 léguas
de Puerto Adela (Paraguai) a Jurumenha (segunda passagem).
Lembrança ao senhor José
Nogueira Tapety que gentilmente nos ofereceu outro mapa mais apropriado.
Oeiras, 22 de julho de
1926.
General Miguel Costa
General Luís Carlos
Prestes”.
Continua na próxima edição