Jorge Venâncio, membro do
Secretariado Nacional do MR8:
“Luta de Tonico foi uma
página indelével para que o medo à ditadura fosse sendo derrotado dentro de
cada brasileiro”
O Movimento
Revolucionário 8 de Outubro ao prestar homenagem a Antônio Carlos de Carvalho
(Tonico), um dos seus mais valorosos dirigentes, destacou que durante a
ditadura, “uma das páginas mais negras da História do Brasil”, “houve aqueles
que não se dobraram. E a sua luta arrancou de volta cada espaço da democracia.
Tonico foi um destes bravos”. A seguir, a íntegra do pronunciamento de Jorge
Venâncio, membro do Secretariado Nacional do MR8 , na Sessão Solene na Câmara
Municipal do Rio de Janeiro.
“Gostaria de cumprimentar a
presidente, vereadora Aspásia, mãe desta homenagem que permitiu unir a todos
neste plenário, cumprimentar os companheiros Azedo, da ABI, Wadih, da OAB,
Marcello, Werneck, companheiros da luta democrática, companheiro Marco
Antonio.
Cumprimentar especialmente a
Câmara Municipal do Rio de Janeiro, pela lucidez ao instituir como o seu dia
exatamente o dia 27 de agosto, em que foi a única câmara parlamentar do país a
ser atacada, de forma solerte pelos inimigos da democracia, com um atentado
terrorista, uma carta-bomba de alto poder destrutivo.
Conheci Antonio Carlos nas
lides do movimento estudantil em 1968, naqueles tempos difíceis das vésperas
do AI-5. Ele tinha vindo do movimento secundarista lá na sua terra, o
Maranhão, para cursar a Faculdade de Engenharia no Fundão.
Voltei a encontrá-lo no
início de 1970 nos porões do DOI-CODI. Tonico havia sido preso e torturado por
semanas sem admitir a sua militância. No 46º dia de prisão, a repressão
capturou um companheiro da época que fraquejou e fez revelações sobre o
Tonico. Pois nem assim ele cedeu. Aproveitou-se de um descuido dos seus
carrascos e, ao ficar sozinho com o companheiro, disse: “se você quiser parar
de apanhar, mude a sua história, porque eu não vou mudar a minha”. E foi isto
que aconteceu. No 75º dia, ele convenceu seus algozes que sua prisão havia
sido um equívoco e foi posto em liberdade para voltar para a luta.
DITADURA
Os monopólios privados,
especialmente norte-americanos, auxiliados pelos setores da mídia que lhes
eram servis, fizeram violenta campanha contra o governo constituído,
manipularam a opinião pública civil e militar e implantaram a ditadura, uma
das páginas mais negras da História do Brasil. Naqueles tempos, eles
acreditavam que mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo. Mas houve
aqueles que não se dobraram. E a sua luta arrancou de volta cada espaço da
democracia. Tonico foi um destes bravos.
Em 1974, teve participação
destacada na campanha que deu 100 mil votos a Lisâneas Maciel, em que se
espalhou pela primeira vez uma condenação aberta e forte à ditadura.
Em 1975, comandou a Semana
dos Direitos Humanos, que aglutinou todos os setores do movimento estudantil e
construiu as bases para a explosão de mobilizações do início de 1977.
Em 1976, elegeu-se vereador
desta casa com uma memorável campanha, que atingiu 38 mil votos espalhados por
todos os bairros da cidade.
Em 1978, comandou árdua
batalha para conseguir a legenda para deputado para o nosso companheiro
Raymundo de Oliveira. A legenda foi conquistada a 45 dias das eleições e com o
manifesto idealizado pelo Tonico “O povo está calado, mas não está
satisfeito”, Raymundo se elegeu deputado com 60 mil votos. Tonico foi também
um braço direito na histórica passeata promovida pelo senador Nelson Carneiro,
à revelia da repressão, que sacudiu o Rio e assegurou a sua reeleição.
ANISTIA
Em 1979, esteve firme na
luta pela anistia e sempre presente na recepção aos companheiros que voltavam
do exílio e saíam da clandestinidade.
Em 1980, Tonico foi um dos
principais combatentes nas brigadas da “Hora do Povo”, que havia sido fundada
no ano anterior. A máxima na época era não ceder um centímetro de democracia
aos seus inimigos. Não se deixar prender. Apelar ao povo para defender o
direito do jornal falar. E essa luta do Tonico foi uma página indelével para
que o medo à ditadura fosse sendo derrotado dentro de cada brasileiro. Nem a
repressão às brigadas, nem os incêndios nas bancas de jornais foram capazes de
conter a ânsia de liberdade de nosso povo.
Foi então que foi planejado
o duplo atentado: à Câmara dos Vereadores, gabinete do Tonico, que mutilou seu
assessor e tio José Ribamar de Freitas, e à Ordem dos Advogados, que
assassinou D. Lyda Monteiro da Silva. E ainda houve uma terceira bomba que
explodiu na madrugada no jornal Tribuna da Luta Operária. Os príncipes das
trevas já não tinham mais espaço nem na legalidade canhestra da ditadura, e
partiram em desespero para o submundo aberto e degenerado.
DEMOCRACIA
Isso só fez fortalecer a
luta pela democracia. Poucos meses depois, o desastre do Riocentro abriu
espaço para a volta das diretas para governador e, com a vitória da oposição
em 1982, o surgimento de uma nova correlação de forças que desembocou na
campanha das Diretas Já e na eleição de Tancredo Neves. Tonico esteve presente
em todas essas batalhas.
Com a volta da democracia,
Tonico foi nomeado Secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Já nos últimos meses de
vida, alquebrado pela doença, ao comparecer à sua última reunião do Comitê
Central, Tonico emocionou a todos nós, seus companheiros do MR8, ao fazer um
chamamento enérgico a seguir a luta pelo Brasil e aprofundar o nosso
compromisso com o povo.
Para concluir, gostaria de
relembrar as palavras com que os franceses homenageiam a sua mártir, a
camponesa Joana D’Arc. Está escrito no grande muro de pedra, em Rouen, erguido
no lugar da fogueira que a assassinou: “O lugar dos heróis é o coração dos
vivos”.
Viva o Tonico!
Viva a Câmara Municipal do
Rio de Janeiro!
Viva o povo brasileiro!”