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Travas das chuteiras em canelas

ARIOVALDO IZAC *

É consenso que o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportivo) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) foi benevolente com o técnico do Flamengo, Joel Santana, ao absolvê-lo por ter incitado a violência aos seus jogadores em partida contra o Santos no dia 2 de agosto, quando câmaras de televisão o flagraram sugerindo porradas no adversário “se (o jogo) ficar palhaçada”. Joel havia se irritado com o toque de bola debochado dos atletas santistas, que queriam apenas administrar a vantagem no placar.

 É prudente que se esclareça que dezenas de treinadores do passado já mandavam bater. “Rasga”, era a recomendação mais repetida para se tirar a bola da defesa de qualquer maneira, mesmo que tivesse de acertar a perna do adversário. Houve um período em que se dizia “bola ou bolim”, numa referência que passa a bola, mas não passa o adversário. Era a clara orientação para se matar a jogada no nascedouro. Na época, descreviam jogador violento como aquele que “batia da medalhinha pra cima”.

O zagueiro Moisés - ex-Bangu e Corinthians - tinha a fama de xerife, mas raramente era expulso. Ele lembra que jogava duro, às vezes cometia faltas exageradamente, mas ressalta que agia sem deslealdade. “Quase ganho o Belfort Duarte”, brinca, numa referência ao prêmio instituído pelo Conselho Nacional de Desportos em 1945, e entregue ao atleta que passava dez anos sem ser expulso de campo.

Márcio Rossini - ex-Marília (SP), Santos, Bangu e Flamengo jogava duro e muitas vezes foi punido com o cartão vermelho. Foi o típico zagueiro temido por incontáveis atacantes adversários, mas não valia só da compleição física, tanto que jogou em grandes clubes e foi campeão paulista no Santos, em 1984, quando formava dupla de zaga com Toninho Carlos.  

ZAGUEIRÃO 

 Há quase três décadas surgia um dos mais temidos zagueiros, caso foi Pinheirense, que apareceu para o futebol na Ferroviária de Araraquara (SP) inicialmente como volante. Ele “chegava junto”, como se diz na gíria do futebol, para ganhar as jogadas. E muitas vezes acertava meio gomo da bola e metade do pé do adversário.

 Na época, parte dos zagueiros extrapolava em jogadas mais duras quando atuava em seus domínios. Sabiam que a “juizada” pipocava no momento da expulsão e aquele foi um período de “enxurrada” de arbitragens caseiras. O comandante do jogo não tinha a segurança de hoje nos estádios, e predominava a impunidade para atos de vandalismo de torcedores.  

ANTIJOGO 

Agora, quem abusa do antijogo na maioria das vezes recebe o cartão vermelho até mesmo no primeiro tempo. E o ex-árbitro Almir Ricci Peixoto Laguna ficou marcado num derbi campineiro - Ponte e Guarani - há 24 anos, pela coragem ao expulsar o lateral-direito pontepretano Édson Abobrão, com menos de um minuto de jogo, após entrada violenta sobre o meia Neto. Talvez Abobrão tenha entrado no livro dos recordes pela expulsão mais rápida do futebol brasileiro, e quiçá mundial.

 Após esta abordagem, convém reafirmar que a coluna tem função precípua de focar personagens que marcaram histórias no futebol pelo talento ou atuações de destaque no cenário esportivo. Como toda regra tem exceção, está quebrado o protocolo e foi escancarado o espaço para mostrar exemplos de travas de chuteira em canelas de adversários.

* É jornalista e colaborador do HP em Campinas
 

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