Nova Orleans repudia descaso de Bush no 2° ano do Katrina
Passados dois anos, partes inteiras de Nova Orleans estão
como ficaram após a tormenta. Desapareceram 100 mil empregos; só metade das
escolas reabriu e apenas um dos sete hospitais gerais da cidade funciona no
nível de antes da passagem do Katrina
Na data de dois anos da devastação de Nova Orleans, pelo furacão Katrina e pela incúria do governo Bush, uma multidão
percorreu as ruas de Nova Orleans para denunciar o abandono a que a cidade
está relegada e para exigir que a reconstrução seja completada, e seu povo
socorrido. Às 9h38 da manhã – a hora exata do rompimento dos diques que selou
a destruição da cidade pela inundação – o prefeito Ray Nagin fez soar os sinos
em cerimônia no cemitério da cidade. Mais de 1.400 moradores de Nova Orleans
morreram na inundação. De bicão, Bush apareceu na cidade para reincidir na
demagogia e tentar esconder sua responsabilidade na tragédia, enquanto as
verbas federais prometidas para a reconstrução não aparecem, chegam a
conta-gotas ou são malbaratadas em projetos de duvidosa eficácia. Os
manifestantes marcharam pela Lower Ninth Ward, uma área predominantemente
habitada por famílias negras, que foi arrasada e assim permanece até hoje.
Cartazes chamavam Bush de “mentiroso” e “esquecido”, enquanto centenas de
pessoas o repudiavam na avenida St. Claude. O prefeito convocou o povo de Nova
Orleans, e todos os norte-americanos, a não esquecerem o que ocorreu. “Foi o
momento quando a realidade com que nos estamos lidando agora nesta cidade teve
início, nos chocou, e chocou o mundo”. Como destacou um escritor em 2005, o
ocorrido em Nova Orleans, com a parte mais pobre, e negra, de sua população,
deixada à própria sorte durante dias, com a cidade arrasada e inundada, sem
luz, alimentos, remédios ou serviços públicos, era equivalente “a abandonar os
feridos no campo de batalha”.
SEM DEFESA
Se houvesse no próximo ano
outro furacão com a intensidade inicial do Katrina – escala 3, Nova Orleans
voltaria a ser inundada e destroçada, porque as obras de reparação e
fortalecimento dos diques e canais estão inteiramente atrasadas e, segundo o
Corpo de Engenharia encarregado da obra, só deverão ficar prontas em 2011, na
melhor das hipóteses. Isso mesmo, e para um furacão de intensidade 3; bem
menos letal que a intensidade 5 apresentada pelo Katrina no auge da passagem
por Nova Orleans. Um dos principais motivos é o atraso na liberação dos
recursos. Aliás, a falta de recursos havia sido um dos fatores decisivos para
o colapso do sistema de diques, porque o governo Bush havia em 2005 cortado em
44% a verba de manutenção dos diques, parando pela primeira vez em 37 anos as
obras de reforço; a verba para prevenção de inundação havia caído 80% e o
sistema de planejamento para abrigar cidadãos e evacuar refugiados havia sido
dizimado. A obra deverá custar US$ 14 bilhões.
Veja-se que as obras são
para supostamente dar conta de um furacão que seria o mais grave em 100
(“1-em-100”) no período de um século, enquanto o próprio corpo de Engenharia
reconhece que a intensidade do Katrina no momento na destruição de Nova
Orleans o faz o mais violento entre 396 furacões (“1-em-396”) no decorrer de
um século. Em suma, de acordo com o plano de Bush de reforço dos diques, os
moradores devem rezar para que o próximo furacão não ultrapasse essa
intensidade 3. (E também para que, como já foi dito, espere até o ano 2011).
Segundo o “New York Times”,
os remendos já feitos, ao custo de US$ 1 bilhão, permitiriam mais 15 cm de
altura de água, mas o próprio jornal informa que essa diferença não evitaria
muitas casas de serem novamente inundadas, como no caso que cita, da moradora,
Leah Pratcher. Assim como ela, por toda parte moradores registraram a marca da
inundação em suas casas. “A mensagem simples proporcionada por esses dados”,
assinala o jornal, “é que enquanto partes da cidade estão substancialmente
mais seguras, outras mudaram pouco. Nova Orleans permanece um lugar muito
arriscado de se viver”. As obras, acrescenta, fortaleceram quilômetros de
diques, “mas nem sempre nos lugares onde o povo mora”. Foram erguidas “paredes
contra ruptura no lado leste do canal principal, mas deixaram o lado oeste,
que ficou no caminho do furacão Katrina, mais baixo e assim mais vulnerável.
Não foram fechados os canais frequentemente descritos como funis para a
inundação da cidade”.
DISCRIMINAÇÃO
A seguir o “NY” esclarece
aos leitores quais são, entre os moradores de Nova Orleans, aqueles que o
governo Bush considera que devam ser preferencialmente protegidos de nova
tragédia: “as comportas agora protegem bairros prósperos como Lakeview”.
Assim, reconhece, “o trabalho mais bem sucedido, a construção de enormes
comportas para interromper os canais que como dedos trazem tanta inundação
para a cidade, tiveram um efeito divisor”. O efeito, admite, é a instigação de
“velhos ressentimentos” e o que o jornal chama de “teorias conspiratórias” –
“embora as autoridades do Corpo de Engenharia digam que não há favoritismo”.
Passados dois anos, a
situação de Nova Orleans permanece dramática. Como denunciou o ex-senador John
Edwards, “se o governo Bush fosse um governo decente e honesto, partes
inteiras da cidade não estariam exatamente como ficaram após atingidas pela
tormenta”. Bairros estão em destroços e inúmeros postos de comércio continuam
fechados. Desapareceram 100 mil empregos. Apenas um dos sete hospitais gerais
da cidade está operando no seu nível pré-Katrina; mais dois estão parcialmente
abertos e quatro continuam fechados – um deles, o hospital universitário. Só
em um dos condados, 30% dos médicos foi embora. O número de leitos
hospitalares encolheu de dois - terços. A taxa de mortalidade aumentou
agudamente. Só metade das escolas reabriu. Outros serviços básicos, como
creches e bibliotecas, sofreram redução de 50%. O sistema de transporte só
conta com 69 dos 368 ônibus que operavam antes do furacão. Foram destruídas 77
mil residências que eram alugadas, e agora o valor dos aluguéis dobrou ou
triplicou. O crime está desenfreado, enquanto a polícia opera a partir de
trailers.
DEMOLIÇÃO
O governo Bush planeja
demolir quatro dos maiores conjuntos habitacionais da cidade, derrubando 3 mil
apartamentos onde viviam famílias de baixa renda, isto é, em geral negras,
para pôr nas novas construções a classe média. Só haveria dinheiro para
reconstruir 1 mil residências para os habitantes prévios desses quatro
conjuntos. 40% da população de Nova Orleans não teve como retornar. A situação
dos refugiados internos de Bush não é muito diferente dos que estão de volta.
Só em Houston, no Texas, um-terço é de velhos ou inválidos; um-terço está sem
emprego, e o restante se vira com empregos de baixos salários. Mais de 30 mil
famílias norte-americanas – a maioria de Nova Orleans - estão espalhadas pelo
país em improvisados apartamentos pagos pela defesa civil, e outras 13 mil
famílias estão vivendo precariamente em trailers em parques “onde a fome é tão
prevalecente que se formam filas sempre que o caminhão da distribuição de
cupons de alimentos aparece”. Há dois anos Bush mantém seus campos de
refugiados.
ANTONIO PIMENTA