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“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater” A grande marcha (7) Missão das forças governistas para aniquilar os revoltosos, organizada pela oligarquia cafeeira, fracassa, e a 1ª Divisão Revolucionária marcha, através do Mato Grosso, em direção à Bolívia SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES Insatisfeita com os insucessos do dispositivo militar do general Mariante, a oligarquia paulista decidiu transferir à sua Polícia Militar a missão de aniquilar a 1ª Divisão Revolucionária, no território de Goiás. Um forte contingente de 4.000 homens de infantaria e dois regimentos de cavalaria, sob direção do próprio comandante da corporação, coronel Pedro Dias de Campos, foi deslocado para aquele estado. A Polícia Militar - que, na época, tinha o nome de Força Pública Paulista - estrearia também, nessa oportunidade, sua mais recente conquista bélica: uma esquadrilha de cinco aviões Curtis e JN. Antes que os revolucionários se deparassem com o novo oponente, haveriam de passar, ainda, por mais uma dura prova. A 27 de agosto, dois dias depois que a coluna penetrara em Goiás, cerca de 60 jagunços, comandados pelo capitão Ludovico Lustosa e guiados pelo desertor Newton Milhomem, por muito pouco não conseguem tirar a vida do general Miguel Costa. Newton fora cabo no Exército e se apresentara à coluna, no Maranhão. Tendo desertado no norte da Bahia, se incorporara à força do major Abílio Volney que o fez oficial. Conhecedor dos hábitos de seus antigos camaradas, ele se oferecera para conduzir um ataque diretamente ao QG revolucionário, com o objetivo de matar Miguel Costa ou Prestes. A oportunidade surgiu durante um confronto entre a tropa de Volney e o 1º Destacamento que fazia a retaguarda. O grosso acampara a poucos quilômetros dali, na fazenda do Piau - município de Monte Alegre. O pelotão do capitão Ludovico infiltrou-se por um flanco, onde havia um enorme banhado cortado por um riacho, conseguindo chegar, sorrateiramente, a 50 metros do QG, prorrompendo, então, em intensa fuzilaria. Conta o coronel João Alberto: “Eu havia acampado com o 2º Destacamento a cerca de 200 metros de uma velha fazenda onde ficara o general Miguel Costa, para sestear. Cordeiro de Farias, cobrindo a retaguarda, combatia em boas condições, a uns três quilômetros, defendendo uma passagem do córrego. Conduzido por moradores que conheciam bem o terreno, o tal grupo de jagunços aproximou-se do acampamento do Miguel abrindo fogo a curta distância contra alguns companheiros nossos que se encontravam ao redor do churrasco. Surpresa! A confusão foi completa, mas a reação pronta. Siqueira Campos, que se encontrava nas proximidades, socorreu a turma do general Miguel Costa, liquidando os atacantes. Tudo isso se passara em poucos momentos. Miguel Costa fora ferido... Corri com alguns homens para socorrer o Miguel, trazendo-o nos braços, com a ajuda de outros amigos, até a posição que eu ocupava. Lívido, golfando sangue pela boca e apresentando um vasto ferimento sobre o peito esquerdo (tão grande que nele cabia a mão) portava-se como um bravo. Agradecia-me com um olhar amigo a ajuda que lhe prestara e não soltava um só gemido. Ao anoitecer, quando atingi o acampamento de Prestes, encontrei o major Aristides Correia Leal, oficial veterinário que fazia as vezes de médico e era pau para toda obra. Preparava, no momento, banha de porco para ser misturada ao ácido bórico... Fazia falta, no caso do Miguel, uma agulha de operação e um pouco de fio de guta para dar uns pontos na horrível abertura que lhe pulsava bem em cima do coração. A resistência orgânica dos enfermos e o índice de salubridade das terras virgens eram, porém, os maiores medicamentos dos nossos feridos... Miguel deveria resistir também àquele sofrimento, restabelecendo-se completamente cerca de dois meses depois”. Além do general Miguel Costa, foram feridos o tenente Atanagildo França, sargento Francisco Messa, cabo Francisco Martins, soldados Frederico Francisco Lira, Antonio da Rosa, Antonio Lemos da Silva e Amado Madure. Morreram o sargento Faustino Gonçalves, os soldados Albino Bento de Freitas, Lidio Francisco de Sousa, Anésio de Oliveira e o conhecido como Periquito. Oito jagunços foram mortos no embate, entre eles o renegado Milhomem. Não fosse o imediato contra-ataque de Siqueira Campos, à frente de um punhado de homens que se lançaram sobre os agressores, entrando em luta corporal contra eles a golpes de coronha de fuzil e facão, o desastre teria sido completo. O PILOTO AMERICANO No dia 3 de setembro, chegava à cidade mineira de Uberaba a esquadrilha que decolara de São Paulo para arrasar os revolucionários no interior de Goiás. A força estava sob o comando do capitão Orton Hoover, aviador norte-americano que chefiava a missão instrutora da Polícia Militar de São Paulo. O capitão Hoover atendeu com satisfação o pedido das autoridades locais para a realização de um show aéreo, brindando a população daquela cidade com uma demonstração inequívoca da superioridade das forças governistas sobre os impertinentes rebeldes. O show foi um sucesso. A vida, porém, não se sentiria compelida a imitar a arte. Na saída de Uberaba, para a escala seguinte, um dos aviões caiu, morrendo a sua tripulação, composta pelos oficiais Pereira Lima e Edmundo Chantre. No dia 8 de setembro, antes de entrar em combate, caiu sobre a cidade goiana de Urutaí o avião pilotado pelo capitão Hoover. A aeronave carregava 15 bombas que não detonaram, mas produziram uma crise, na capital da República, pois a evidência de que o falecido oficial norte-americano se encontrava em missão de combate e não de instrução violava a ordem jurídica, expunha a diplomacia de Washington a uma situação delicada e criava conflitos de competências entre as autoridades civis e militares. A missão da esquadrilha foi cancelada e os três aviões restantes retornaram a São Paulo. Desfalcado de sua força aérea, o coronel Pedro Dias dispusera as forças paulistas em duas linhas de defesa. A primeira estendida de São José do Duro a Porto Nacional, passando por Almas e Natividade. A segunda, mais ao sul, partia da cidade de Formosa, onde foi instalado o QG das forcas governistas, alongando-se pelo vale do Paranã, até a vila de Cavalcanti. O capitão Moreira Lima aponta a vulnerabilidade dessa estratégia: “Pedro Dias entrincheirou a força dentro das vilas e das cidades, mandando vigiar as estradas reais por fracas patrulhas e deixando os campos em completo abandono”. No dia 23 de setembro, ele registraria no diário de campanha: “Passamos entre Formosa e Planaltina, à distância de quatro léguas de cada uma delas... Estava transposta a defesa inimiga sem que houvéssemos travado um só combate, registrando-se apenas ligeiros tiroteios entre patrulhas, nos quais não tivemos um único morto ou prisioneiro e tão somente um ferido”. Constatando a inutilidade das linhas de defesa, o coronel Pedro Dias procurou movimentar as suas forças, sofrendo, então, um golpe decisivo, em Olho D’Água, nas proximidades de Anápolis. O relato é do capitão Moreira Lima: “A coluna sesteou a 1º de outubro, na fazenda João Batista, andando cinco léguas, e acampou no lugar Taboca, cobrindo mais três léguas. Aí foram assinaladas duas forças inimigas que se aproximavam, vindas de pontos diversos. Uma, constituída por um batalhão de polícia paulista, comandada pelo major Artur de Almeida, avançava a leste, e a outra formada pelos jagunços de Horácio de Matos, procedia do norte. Prestes resolveu jogá-las uma contra a outra, como fizera com Paim em Maria Preta, e com os cangaceiros de Franklin e Volney e a polícia baiana nas proximidades de Sento Sé... Os inimigos satisfizeram a sua vontade empenhando-se em encarniçado combate que durou desde a madrugada, até às 8 horas da manhã de 2... Esse encontro motivou o suicídio daquele major quando seguia preso para São Paulo a fim de ser submetido a conselho de guerra, acusado como responsável pelo mesmo”. O coronel Pedro Dias foi removido do comando das forças governistas, reassumindo-o o general Álvaro Mariante. GARIMPOS DO GARÇAS Em meados de outubro, a coluna revolucionária atravessou o rio Araguaia, atingindo o estado do Mato Grosso, na altura dos garimpos do Garças. A região era rica em diamantes e abrigava uma população de 30 mil baianos e maranhenses que cruzaram Goiás a pé, em busca da fortuna. Vivendo em conflito com a polícia por questões de fisco, os garimpeiros tinham por hábito reagir à bala a qualquer violência que contra eles se praticasse. As autoridades temiam aquelas legiões de homens armados e evitavam internar-se em seus domínios. Os ideais dos combatentes da coluna eram quase incompreensíveis aos garimpeiros. No entanto, o fato de que ambos arrostavam com coragem os perigos advindos de suas opções gerava respeito. Havia também um inimigo comum que os aproximava: as tropas governistas. Avaliando a situação, o general Prestes começara a arquitetar um novo plano, com objetivo de fixar as forças revolucionárias naquela região. O projeto foi relatado pelo coronel João Alberto, nos seguintes termos: “Criaríamos um núcleo de resistência de onde o governo não nos pudesse desalojar. Talvez isso desse mais resultado que enfrentar uma penosa marcha de 3.000 km, atravessando florestas e pantanais, para chegar, enfim, exaustos, a fronteira da Bolívia”. Prestes já havia sustentado muitas idéias surpreendentes e, à primeira vista, insensatas, mas que logo haviam se revelado precisas e eficazes. Esse crédito não foi suficiente para convencer seus camaradas. E quanto mais aquela nova estratégia era questionada, mais ele insistia nela. Conta o coronel João Alberto: “O problema tornou-se tão sério que os comandantes de destacamentos se reuniram para deliberar. Prestes defendeu calorosamente a tese... Dividir-se-ia a coluna em destacamentos autônomos que eventualmente se poderiam apoiar... Miguel Costa reagiu vigorosamente... inflamou-se na defesa da coluna que, dizia ele, não podia desaparecer assim, ao terminar a gloriosa jornada através do Brasil. Suspendemos a reunião sem que nada ficasse resolvido. Todos nós, comandantes de destacamentos sabíamos que a razão estava com Miguel Costa... Entretanto não queríamos, assim, numa reunião, desgostar Prestes, velho companheiro, repelindo por unanimidade o seu alvitre... Siqueira e eu encarregamo-nos de falar mais tarde a Prestes em sua barraca... Não foi preciso argumentar muito. Prestes também já havia sentido que também éramos pela imigração”. Retomado o plano original, a 1ª Divisão Revolucionária dirigiu-se para o sul, marchando na direção de Campo Grande. COLUNA RELÂMPAGO No dia 25 de outubro, na fazenda Cervo - 130 km ao norte da cidade de Coxim - destacou-se da 1ª Divisão Revolucionária um piquete de nove homens, comandados por Emídio Miranda, com a missão de escoltar o tenente-coronel Djalma Dutra e o capitão Moreira Lima, até a fronteira paraguaia, situada a 800 km de distância. Os dois oficiais deveriam dirigir-se a Libres, na Argentina, a fim de estabelecer contato com o marechal Isidoro. Até a altura de Campo Grande, a marcha do grupo seria monitorada à distância, pelo 3º Destacamento. Conta o capitão Moreira Lima: “Fora combinado comigo e Dutra, ao nos separarmos da coluna, a 25 de outubro, que nos deveríamos achar na fronteira da Bolívia, nas alturas de San Mathias... dentro de dois meses, a contar daquela data, quando a coluna se deveria encontrar nas cercanias daquela região, a fim de nos reunirmos a ela...”. Dutra e Moreira Lima chegaram a Passo de los Libres, em 14 de novembro. O piquete que os acompanhou até a fronteira paraguaia voltou a reunir-se à Divisão no dia 30 de novembro. Na primeira conferência mantida com o marechal Isidoro, os dois emissários foram informados de que uma ampla e complexa operação militar se encontrava em fase final de preparação. O plano previa o levante de unidades do Exército, no Rio Grande, inclusive a guarnição da estratégica cidade de Santa Maria, a penetração de três colunas revolucionárias, naquele estado, e uma em Santa Catarina. O marechal havia investido 200 contos de réis, para armar essas colunas organizadas pelos generais maragatos Zeca Neto, Leonel Rocha, Julio de Barros e dezenas de militares exilados como o general Bernardo Padilha, o coronel Estilac Leal e vários componentes da guarnição do encouraçado São Paulo. Seguro de que esta iniciativa mudaria o curso da luta, o marechal se dirigia à 1ª Divisão Revolucionária pedindo - pois “não se considerava com o direito de ordenar” - que esta permanecesse em armas, “a fim de manter aceso o fogo sagrado da revolução, até que o Rio Grande voltasse a luta”. Conta o capitão Moreira Lima: “Entretanto, no dia seguinte começavam a chegar boatos de haver rebentado o movimento revolucionário, no Rio Grande... No dia 17, o marechal recebeu uma carta de Santa Maria, em que os nossos amigos lhes comunicavam que o pessoal de São Gabriel resolvera precipitar o levante para o dia 14, o que já havia feito e que eles, assim surpreendidos, só se poderiam levantar até o dia 18... Outros levantes parciais foram se verificando em vários pontos, sem nenhuma unidade coordenadora. O marechal Isidoro... tratou de tomar as providências que julgou conveniente, declarando-nos porém, imediatamente, que considerava o movimento abortado... Em seguida escreveu a Miguel e Prestes... Nessa carta ele... pedia que a coluna se mantivesse em armas por dois meses, a contar de 23 de novembro... E, que expirado esse prazo, se a situação no sul não lhe desse oportunidade de se movimentar isoladamente, emigrasse...”. As orientações de Isidoro eram tão altissonantes quanto inócuas, assim como seu plano. À exceção da vitória obtida pelo 5º Regimento de Artilharia Montada, rebelado pelo tenente Alcides Etchegoyen, contra os provisórios comandados por Osvaldo Aranha, ferido naquele combate, nas proximidades de Santa Maria, a campanha foi uma sucessão de equívocos, correrias, fracassos e dilapidação dos efetivos revolucionários, passando a ser conhecida pelo nome de coluna relâmpago. Já no início de janeiro, nada restava das múltiplas colunas coordenadas pelo marechal. Moreira Lima, que retornara de Libres, no dia 23 de novembro, aguardou por vários dias, na fazenda Descalvados, situada no Mato Grosso, a 120 km da vila boliviana de San Mathias, a passagem da 1ª Divisão Revolucionária por aquela região. O capitão viajara sozinho, pois Djalma Dutra permanecera na Argentina. Na madrugada do dia 2 de fevereiro, ele conseguiu fazer contato com uma potreada comandada pelo tenente Sousinha. No dia 3, encontrou-se, em San Mathias, com o tenente-coronel Ari Freire, que substituíra Dutra no comando do 4º Destacamento. Dali seguiram para a fazenda Capim Branco, onde a Divisão acampara após haver emigrado. Com base nos relatos de seus camaradas, o capitão Moreira Lima conseguiu recompor, no diário de campanha, os três últimos meses de lutas da coluna. Continua na próxima edição |