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CARTAS
horadopovo@horadopovo.com.br
Kasparov
Muito interessante a matéria “Misérias e glórias
do xadrez”. Parabéns. Só acho que o Carlos Lopes exagerou na crítica ao
jogo de Kasparov. Ele pode até achar que o Kasparov não presta, mas como
jogador de xadrez é um gênio indiscutível. Distorcer essa realidade não
fará o público concordar com a opinião de que Kasparov é um péssimo
caráter. Essa passagem, por exemplo, chega a ser ridícula: “É inevitável
chegar à conclusão de que Kasparov queria evitar o confronto com Shirov
por outra razão - sabe-se lá o que podia acontecer num match com um
jogador tão imprevisível quanto ele... Em suma, o problema era medo de
perder, o que não era impossível...”. Ora, será que o Lopes não sabe que
o Kasparov ganhou do Shirov 16 vezes e não perdeu nenhuma? Abraço.
Ismael –
por correio eletrônico
NOTA DA REDAÇÃO
(Carlos Lopes): Bem, Ismael, você tem alguma explicação sobre a fuga
de Kasparov do match com Shirov? Porque, até agora, só há duas: a que
apresentamos, que não é apenas nossa, e a de Kasparov. E esta, a da
pouca “comercialidade” de Shirov, cá entre nós, é balela, sobretudo com
todos aqueles bancos e empresas espanholas dispostos a despender não
pouco dinheiro no patrocínio do match.
Mas, agradecemos a você a oportunidade de
explicitar melhor algumas colocações que, provavelmente, não ficaram de
todo claras no texto. Primeiro, uma pequena correção: Shirov perdeu 17
partidas para Kasparov - e não 16 - e empatou 15, sem ganhar nenhuma.
Você parece ignorar, no entanto, as datas dessas derrotas de Shirov: 10
delas foram depois de setembro de 1998 - quando Kasparov cancelou o
match. Portanto, naquela época, o retrospecto de Shirov vs Kasparov era
de 7 derrotas e 7 empates, o que é algo diferente de 17 ou 16 derrotas.
Mas o trecho a que você se refere somente lhe
pareceu “ridículo” por duas razões: a primeira é que não percebeu o grau
de canalhice desse cidadão, apesar de dizer que o acha um “péssimo
caráter”. Se o tivesse percebido numa magnitude próxima à verdadeira (e
concordo que não é fácil), teria também percebido que o número de vezes
que ele bateu Shirov nada tem a ver com sua insegurança e paranóia,
sobretudo quando se trata de um match, em que é possível a um jogador
preparar-se especialmente para ele, e não de uma partida de torneio.
Esta é uma característica inseparável dos sociopatas em geral, por mais
vezes que eles saiam por cima – aliás, sua insegurança e paranóia
aumenta, não diminui, à medida em que conseguem algum sucesso. Lembra-se
de Macbeth? Aí está, precisamente, o preço de ser um “péssimo caráter”.
A segunda razão é uma certa falta de atenção ao
texto: por que você acha que está tão frisado que, no match com Kramnik,
o treinador de Shirov era Valery Salov? Exatamente porque, além da
insegurança e paranóia habituais de Kasparov, havia um fator
catalisador: arriscar-se a perder para alguém treinado por Salov era
para ele algo inadmissível. Evidentemente, essa questão se tornou
crítica quando Shirov bateu Kramnik, coisa que Kasparov não esperava -
e, para dizer a verdade, quase ninguém, inclusive nós.
Portanto, não somos nós que estamos distorcendo
a realidade. Quanto a “fazer o público concordar com a opinião de
que Kasparov é um péssimo caráter”, realmente não temos essa pretensão,
muito menos à custa de esconder o que pensamos. Cada um concorda com o
que quer - e com o que quiser. Nós apenas expomos os fatos e nossa
avaliação sobre eles - se as pessoas concordarem conosco, ótimo; se não
concordarem, que se há de fazer? Afinal, é um direito delas. E sempre
haverá os que concordam e os que discordam, não é?
Por último, realmente não achamos que Kasparov
seja gênio em nada. Nem em xadrez. Esta é uma das pouquíssimas coisas
com que concordo com Alekhine: gênio mesmo, no xadrez moderno, só
Capablanca. Mas isso é uma questão de opinião. Cada um pode ter a sua -
o que não é o caso dos fatos. E, Ismael, gênio “indiscutível” não existe
- nem Jesus Cristo é “indiscutível”. Quanto mais essa besta do Kasparov.
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