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O “constitucionalismo” golpista de Raúl Baduel
O sr. Raúl Baduel, após o presidente Chávez anunciar o resultado do
referendo de domingo, “convidou o povo venezuelano a superar esta fase
‘unidos em torno da convocatória de uma Assembléia Nacional Constituinte’”.
É interessante que na íntegra do discurso de Baduel que o “El Universal”, de
Caracas, publicou, essa frase haja desaparecido, apesar dela constar de
outra matéria da mesma edição. Provavelmente, o jornal – um lídimo
representante da mídia golpista venezuelana – achou que a frase abria o jogo
cedo demais. Ou, talvez, Baduel não seja o cabecilha golpista de sua
predileção.
Pois é evidente o que essa proposta significa: a caterva dos esquálidos fez
a campanha do “não” supostamente sob a bandeira de defender a atual
Constituição, aliás, uma obra do presidente Chávez que eles sempre odiaram.
No fim da campanha, Baduel foi o principal garoto-propaganda desse
pseudo-constitucionalismo. Porém, antes mesmo de terminada a apuração,
aparece ele para dizer que não é nada disso. Que é necessária uma
Constituinte – evidentemente, para mudar a Constituição que horas antes ele
dizia que queria defender. Portanto, onde ficou aquele amor à Constituição,
evaporado em menos de 24 horas? Não é à toa que Baduel, no mesmo discurso,
disse que “já demos palco suficiente aos atores”. Não há dúvida sobre quem é
o ator – que, inclusive, quer o palco só para si.
Na última Constituinte venezuelana, há apenas oito anos, a oposição elegeu 6
deputados e os apoiadores de Chávez, 125. Foi convocada por um referendo
popular em que a proposta recebeu 92% dos votos. No referendo que se seguiu
a ela, 71,21% dos eleitores aprovaram a Constituição. Esta foi, inclusive, a
razão do presidente Chávez para submeter suas propostas de mudança da
Constituição ao Congresso e, depois, a um novo referendo popular: não se
tratava de uma nova Constituição, mas de uma mudança na Constituição vigente
– coisa que no Brasil nem depende de referendo, pois as emendas
constitucionais são votadas às carradas pelo Congresso.
Porém, Baduel espera que agora as coisas sejam diferentes do que foram em
1999. Provavelmente, acha que algumas montanhas de dólares podem virar o
jogo e criar um simulacro de parlamento.
Na Venezuela, o Congresso – a Assembléia Nacional – foi eleito livre e
democraticamente. A oposição boicotou as eleições – porque sua opção, e a da
CIA, era o golpe de Estado e não a via democrático-eleitoral. O golpe foi
derrotado. A proposta de Baduel é fazer tábula rasa das eleições e da
vontade popular – em suma, mandar para o espaço as regras democráticas
estabelecidas e destituir o Congresso para que os golpistas façam a farra.
Se a oposição está realmente convertida à democracia, porque não adota uma
proposta semelhante àquela que no Brasil fazem alguns setores: a de eleger o
próximo Congresso com poderes constituintes? Mas é evidente que não foi isso
o que Baduel propôs. O que ele propôs foi dissolver os poderes da República
pela convocação de uma “constituinte” – e não esqueçamos que, em princípio,
uma Constituinte está acima dos poderes do próprio presidente escolhido pelo
povo, sobretudo se este não é eleito com ela. Ou seja, é a linha golpista
travestida de “constitucionalismo” - algo relativamente comum e vulgar na
história de muitos países, entre os quais, o Brasil.
Mesmo sem as mudanças propostas pelo presidente Chávez, a Constituição da
Venezuela é muito boa – a mais democrática que já existiu naquele país e
pelo menos tão democrática, ou mais, quanto a nossa logo assim que saiu do
forno, isto é, antes de ser desfigurada por Fernando Henrique & cia.
Portanto, quando Baduel diz que “existe um grupo que quer incorporar
mudanças nesta constituição e outro que se deu conta de que esta mesma
constituição tem algumas falhas que devemos melhorar”, o que é, aliás, a
mesmíssima coisa, quer apenas passar a idéia de que sua “constituinte” é
consenso entre os venezuelanos. Na verdade, o consenso entre os venezuelanos
é que sua Constituição atual foi uma conquista. Alguns milhões de
venezuelanos querem melhorá-la ainda mais. Outros, têm dúvidas. E meia dúzia
de vendidos querem rasgá-la para que retroceda a algo semelhante ao
papelucho anti-democrático que era antes a constituição da Venezuela. Ou,
talvez, a algo pior.
Essa espécie de oportunismo – nesse caso, oportunismo golpista - não é raro
em Baduel. Fundador do Movimento Bolivariano Revolucionário, ele esquivou-se
de participar no levante cívico-militar de 1992, enquanto seus colegas
arriscavam a vida. Depois, acompanhando a maré popular, apoiou Chávez e foi
por ele promovido a general. Mas, durante o golpe de 2002, se manifestou
pela legalidade quando o povo já havia paralisado o país e, inclusive,
tomado a Venezolana de Televisión, em luta contra a polícia do então
governador de Miranda, Enrique Mendoza - posteriormente derrotado em
eleições pelo ex-vice-presidente Diosdado Cabello. Condecorado por Chávez ao
passar para a reserva, Baduel não demorou a trair.
Assim é a vida - e alguém já disse que não existe uma grande luta sem seus
heróis e seus traidores.
CARLOS LOPES
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