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Temor a Hugo Chávez
é medo da democracia
“Bush: Se é o nosso petróleo, por que os venezuelanos têm de votar sobre
isso? Republicanos em pânico de que a contagem de votos na Venezuela se
espalhe pela Flórida”, ironiza o jornalista norte-americano, Gerg Palast
no subtítulo de seu artigo que publicamos
A
Família Bush pode ajeitar a Flórida. Eles podem ajeitar Ohio. Mas estão
ficando loucos por não poderem dar um jeito nos votos na Venezuela.
O governo Bush e
seus marionetes na imprensa – os mesmos que não se cansam dos polegares
marcados a tinta vermelha dos votantes do Iraque – estão completamente
lívidos que este fim de semana o eleitorado da Venezuela tenha tido a
oportunidade de votar.
Foi típico o
ofegante editorial do San Francisco Chronicle, que o referendo poderia
fazer Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, “um ditador constitucional
pela vida inteira”. E ninguém menos que o combatente da liberdade Donald
Rumsfeld, do alto do Washington Post, disse que, pelo voto, a Venezuela
estava “afundando em uma ditadura”. Minha nossa!
Dado que o
referendo de Chávez foi derrotado nas urnas, nós sabemos agora que, como
um ditador, Chávez é um fiasco. Sem dúvida, sem querer contradizer o
secretário Rumsfeld, talvez Chávez não seja um ditador.
REFERENDO
Vamos deixar claro
exatamente sobre o que era a votação. Primeiramente, era um referendo
para mudar a Constituição da nação para acabar com o limite no número de
mandatos para presidente.
Oh, que horror!
Imagine se nós eliminássemos os limites de mandatos nos EUA! Nós
poderíamos acabar encalacrados com um presidente – como Franklin
Roosevelt. Pior, se Bill Clinton tivesse podido concorrer novamente, nós
teríamos perdido o estadista Bush Júnior. Enquanto a mídia dos EUA
chamava Chávez de “tirano” por propor um fim ao limite de mandatos, eles
de alguma forma esqueceram de jogar a lapela de tirano em Mr. Clinton
por sugerir o mesmo para a América.
Não nos foi dito
que o referendo desta semana era uma votação sobre limites de mandatos,
ao invés, nos foi dito virtualmente em cada notícia que saiu nos EUA que
o referendo era para fazer Chávez “presidente vitalício”. A pecha de
“presidente vitalício” foi desinformada não menos que pelo The New York
Times.
Mas acabar com o
limite de mandatos não significa ganhar o mandato. Com o próprio Chávez
me disse, “É com o povo” se ele será reeleito. E isso enfurece os
Poderes Existentes nos EUA.
Em segundo, além
de acabar com o limite de mandatos, o referendo teria carregado a
Constituição nacional com mudanças na lei de propriedade e tantos outros
ajustes econômicos complexos de tal modo que o referendo inteiro afundou
com o próprio peso.
É o petróleo.
Limite de mandato
e horas de trabalho na Venezuela? Por que isso seria uma crise para
Washington?
Por que a
tripulação de Bush está tão enlouquecida sobre Hugo? É por que a
Venezuela está sentada sobre a maior reserva de cocos do mundo?
Assim como a
Operation Iraqui Liberation (“OIL”) – é sobre petróleo, petróleo. Um
monte dele.
Documentos do
Departamento de Energia dos EUA que eu obtive indicam que os caras que
seguram a vareta medidora de óleo de Bush avaliam que a Venezuela está
sentada sobre 1,36 trilhão de barris de cru, cinco vezes as reservas da
Arábia Saudita.
O mandato
continuado de Chávez significa que o gigantesco suprimento de petróleo
da Venezuela agora está nas mãos de ... Venezuelanos!
Como me foi dito
por Arturo Quiran, morador de um conjunto residencial popular, “Dez,
quinze anos atrás.... havia um monte de dinheiro aqui na Venezuela mas
nós não vimos nada dele”. Registre-se que Quiran não concorda
particularmente com a política de Chávez. Mas ele pensa que os
americanos deveriam entender que sob o governo Chávez, há um consultório
médico no seu prédio com ‘operações gratuitas, raio-x, remédios.
Educação também. Gente que nunca soube ler e escrever agora sabe como
assinar seus próprios documentos”.
TIJOLOS E PÃO
Nem todos estão
satisfeitos. Como um âncora de noticiário da TV, violentamente
anti-Chávez me disse em tons risíveis, “Chávez deu a eles (aos pobres)
tijolos e pão!” – como ele ousou! – então, eles votam nele.
Big Oil tem idéias
melhores para a Venezuela, melhor expressas em vários artigos do Wall
Street Journal atacando Chávez por gastar a riqueza da nação com
“programas sociais” ao invés de mais plataformas de perfuração para
melhor encher os tanques dos SUVs [utilitários esportivos] do Texas.
Chávez tem
cometido outros crimes aos olhos de Washington. Não apenas esse mestiço
arrogante gastou a riqueza do petróleo da Venezuela na Venezuela, como
também retirou US$ 20 bilhões do Federal Reserve dos EUA. Estranhamente,
os líderes anteriores da Venezuela, embora a nação fosse extremamente
pobre, emprestaram bilhões ao Tesouro dos EUA a juros de merda. Chávez
disse “Basta! a esse jogo”, e conclamou que o capital da América do Sul
fosse mantido na ....América do Sul! Oh, não!
Ah, e eu cheguei a
mencionar que Chávez disse à Exxon que tinha de pagar mais que 1% de
royalty à sua nação pelo petróleo pesado que a companhia extraía?
E é por isso que
eles têm de assassiná-lo. Em 2002, o New York Times doentiamente
aplaudiu o golpe de Estado contra Chávez. Mas ele fracassou. Portanto,
já que o eleitorado da Venezuela obstinadamente se recusa a votar
conforme Condi Rice lhe diz, resta uma única solução aos Bush-niks
amantes-da-democracia, como expresso em viva voz pelo conselheiro
espiritual do nosso presidente, Pat Robertson:
“Temos este
inimigo ao sul controlando uma grande piscina de petróleo. Hugo Chávez
pensa que nós estamos tentando assassiná-lo. Eu acho que nós deveríamos
ir em frente e fazer isso... Não precisamos de outra guerra de US$ 200
bilhões... é muito mais fácil mandar alguns operativos encobertos fazer
o serviço.”
BUSH
Mas Hugo não é meu
inimigo. Sem dúvida, ele fez uma oferta danada de boa ao povo americano:
petróleo a US$ 50 o barril – cerca de metade do seu preço atual. Olhando
em uma perspectiva de preços de longo termo, a Venezuela perde com esse
vendaval louco de preços do petróleo da guerra do Iraque. Em retorno,
nós concordamos em não deixar os preços do petróleo irem ao chão (caiu
para US$ 9 o barril em 1998) e levarem sua nação à bancarrota. Mas a
Arábia Saudita não gosta desse acordo. E a vontade de Abdullah é como
uma ordem para George Bush. (Interessante que o parceiro de Chávez em
mandatos sem limites, o ditador Bill Clinton, endossou esse conceito).
Eu não concordo
com tudo que Chávez faz. E eu considero alguns dos pontos de vistas de
seus oponentes bem articulados. Mas, diferentemente de Bush, eu não acho
que eu devo ter um veto sobre o voto venezuelano.
E os sentimentos
da população são bastante claros. Eu fui de carro com um candidato da
oposição, Julio Borges, em uma atividade de campanha em uma pequena
cidade a três horas de Caracas. Nós nos reunimos com seus apoiadores –
ou, mais acuradamente, sua única apoiadora. O “comício” foi na cozinha
dela. Ela nos serviu um delicioso arepas.
No dia seguinte,
eu voltei à mesma cidade quando Chávez chegou. Aproximadamente mil fãs
aos gritos estavam ali – e um número igual ficou de fora. (O Telegraph
inglês, de forma a fazer rir, registra que os apoiadores de Chavez
aparecem “sob pressão”). Você podia achar que eles estavam aguardando
uma apresentação do “South American Idol”. (Bem, umas poucas vezes o
presidente venezuelano efetivamente se dedica a cantar uma canção).
Vale a pena notar
que a popularidade pessoal de Chávez não se estende a todos os seus
planos para o socialismo “Bolivariano”. E isso matou seu referendo na
urna. Eu fico pensando que Chávez deveria ter perguntado a Jeb Bush como
contar votos em uma democracia.
Aí está. Tem gente
que acha que ele pode tomar o petróleo da Venezuela e o dinheiro do
petróleo e simplesmente entregá-los aos venezuelanos. E esses mesmos
venezuelanos têm a temeridade de exigir o direito de escolher o
presidente de sua escolha! Aonde o mundo vai parar?
Na fala orwelliana
de Bush e na conversa do Times [NYT], o referendo de Chávez foi
retratado antes da eleição como uma fraude, Sadam latino. Talvez o medo
real deles seja que Chávez trouxe um pouco de justiça econômica através
da urna, uma tendência que poderia se espalhar até o norte. Pense nisso:
Chávez está financiando a assistência médica integral para todos os
venezuelanos. E se isso acontecesse aqui?
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