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Relatório desmascara mentiras de Bush e Cheney contra o Irã
O pretexto de Bush para
começar uma guerra contra o Irã e cercar as fronteiras da Rússia com seus
mísseis foi destroçado pela relatório conjunto de 16 agências
norte-americanas que desmentem toda a cantilena sobre o “perigo nuclear”
iraniano
Foi para o espaço a
política de Bush e do vice Cheney de envolver o mundo numa agressão ao Irã a
pretexto de que o país seria uma “iminente ameaça nuclear” à segurança do
planeta. Numa situação inédita, as 16 principais agências de espionagem dos
EUA tornaram público relatório conjunto que desmente Bush e que afirma “com
elevada confiança” que o Irã “suspendeu seu programa de armas nucleares em
2003”. Isto é, há quatro anos. O novo relatório – conhecido na roda dos
espiões dos EUA como “Avaliação Nacional de Espionagem” (NIE, na sigla em
inglês) – também desmentiu documento de 2005 que dizia que o Irã estava
“decidido a obter a bomba”. Note-se que, como a suposta ameaça de um míssil
iraniano armado nuclearmente é o único pretexto de Bush para colocar
antimísseis nas fronteiras com a Rússia, outro de seus objetivos centrais
está atingido.
INCURSÃO
O primeiro efeito do novo relatório foi levar a pique a incursão na
Europa de um enviado de Bush, em prol de mais sanções do Conselho de
Segurança da ONU contra o Irã. “Penso que todos nós [membros do Conselho]
teremos que começar da presunção de que agora as coisas mudaram”, afirmou o
embaixador da China junto às Nações Unidas, Wang Guangya. O chanceler russo,
Sergey Lavrov, afirmou que “sequer é possível dizer que o Irã tenha algum
dia desenvolvido um programa de armas nucleares”. “O esforço para arrancar
uma terceira resolução [de sanções] está morto”, afirmou Bruce Riedel,
ex-oficial sênior da CIA, Pentágono e Conselho de Segurança Nacional, agora
no Brookings Institution, e que considerou o relatório “a desculpa que
Berlim, Moscou e Pequim” precisavam.
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA),
Moha-med El Baradei, afirmou que o Irã foi “obviamente de certa forma
absolvido” pelo relatório. “Isso é consistente com o que a Agência e eu
estamos dizendo há anos”, acrescentou, considerando o fato “uma grande
oportunidade” para mais negociações. “Não existe o sentido de urgência de
que o Irã está perto de produzir uma arma nuclear amanhã, como dizem certas
pessoas”, assinalou.
“URÃNIO DO NÍGER”
É como se a CIA tivesse divulgado, por conta própria, em 2002, o relatório
do embaixador Joseph Wilson que afirmava ser fraude a história, disseminada
por Bush, de que o Iraque havia “comprado urânio do Niger” para fazer bombas
atômicas. Agora, o vice-diretor de espionagem dos EUA, Donald Kerr, divulgou
uma versão não-classificada (sem sigilo) das conclusões-chave do NIE que
nega a bomba do Irã, ato justificado em nota em separado como “de interesse
da segurança da nossa nação”. “Dado que nossa compreensão das capacidades do
Irã mudou, nós sentimos que era importante lançar essa informação para
garantir que uma apresentação acurada estivesse disponível”.
Em outras palavras: para que não fosse oculta por Bush e Cheney.
Registre-se que o teor do relatório – comparado por um jornal dos EUA “a
fazer uma curva em U” em relação à posição anterior – foi consensual entre
as agências, o que deve ser uma raridade. Mas deve haver uma explicação mais
comezinha que um súbito apego à verdade para a mudança na avaliação sobre o
Irã e sua divulgação.
O Diretor Nacional de Espionagem, que comanda o conselho das 16
agências, almirante Mike McCon-nell, afirmou em agosto ao “New York Time”
que seu trabalho é “dizer a verdade ao poder”. Apresenta-se, assim, como um
imperialista “conseqüente”. Como o “poder” não está muito interessado na
verdade, foi urgente apresentá-la ao distinto público. Não é segredo que a
situação no Iraque é desesperadora, nem o risco de que débeis mentais
esganados como Bush e Cheney enfiem o país numa aventura ainda mais
inglória, no Irã, que não sofreu dez anos de bloqueio total como o Iraque,
tem uma população três vezes maior e fronteira com a Rússia. No site
Counterpunch, o ex-analista da CIA Ray McGovern atribuiu ao atual comandante
dos EUA no Oriente Médio o convencimento de McConnell sobre a urgência em
divulgar as conclusões. A revista alemã “Der Spiegel” analisa que a maior
parte dos militares, exceto a Força Aérea, e o Departamento de Estado estão
contra outra guerra desastrosa. Parece que as agências de espionagem tomaram
posição.
RETÓRICA
Jornais e “especialistas” – isto é, velhos agentes da CIA alocados em
“think-tanks” conservadores coincidiram em que o relatório ceifou “a
alarmante retórica” do governo Bush sobre as “ambições nucleares” do Irã e
“tirou da mesa a possibilidade de uma ação militar pré-emptiva antes do fim
do governo Bush”. O “Washington Post”, através do colunista Robert Kagan,
disse que a opção militar “se foi agora” e que “é impossível” ganhar o apoio
europeu para “sanções sérias”.
VENDAVAL
A divulgação do relatório se abateu como um vendaval sobre a Casa Branca.
Conferências de imprensa foram suspensas, até Bush conseguir remendar
dizendo que o relatório mudou, mas “não sua política” e que o Irã “continua
perigoso”. No entanto, não se trata de que Bush não sabia. Ele havia sido
informado em agosto sobre as mudanças de “avaliação” em curso. Mesmo assim,
em outubro, insistiu na ameaça de “III Guerra Mundial” caso o Irã tivesse
armas nucleares. Naturalmente, como o comentário de Bush se seguiu a uma
manifestação do presidente russo contra as pressões ao Irã, a ameaça de “III
Guerra Mundial” não tinha como alvo exatamente o Irã. O presidente iraniano
Ahmadinejad, também comemorou a divulgação do relatório. Em uma manifestação
na província de Illam, ele afirmou que o novo documento “tenta tirar a
América do seu impasse, mas é também uma declaração da vitória do povo
iraniano contra as grandes potências”. “Nosso povo resistiu, está resistindo
e resistirá até o fim”, destacou, referindo-se às pressões dos EUA para
impedir o Irã de dominar o ciclo do combustível nuclear, o enriquecimento de
urânio e a geração nuclear de energia.
ANTONIO PIMENTA
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