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Bolívia: aprovada Constituição que
torna ilegal latifúndio e monopólio
Constituição, celebrada por milhares de
camponeses, trabalhadores e indígenas determina que hidrocarbonetos são
propriedade do Estado. Evo afirmou que separatistas que tentaram sabotar a
Constituinte querem “dividir o país para voltar a entregar o petróleo às
transnacionais”
Em longa
sessão de quase 17 horas, na presença de milhares de mineiros, indígenas,
camponeses, líderes comunitários e trabalhadores urbanos, a Assembléia
Constituinte da Bolívia aprovou o texto da nova Constituição do país, com dois
terços dos votos dos 165 parlamentares presentes de 10 partidos políticos, no
domingo, dia 9.
“É uma grande
alegria para mim e para todo o movimento popular – todos os que realmente se
sentem bolivianos – o triunfo que representa a aprovação da nova Constituição do
Estado, depois de uma grande batalha política que nos permitirá sentar as bases
de um país solidário e que seja para todos”, afirmou o presidente Evo Morales,
em coletiva de imprensa em Buenos Aires, Argentina, onde participava da posse da
presidente Cristina Kirchner. “Quando falamos do Estado plurinacional, falamos
da unidade na diversidade, respeitando a diversidade de nossos povos e não só
dos indígenas mas de todos os bolivianos”, expressou.
Desde a noite
de sábado na cidade de Oruro, a 230 quilômetros de La Paz, cantando o hino
nacional, muitos com vestimentas dos índios aymaras e quéchuas, os constituintes
manifestaram sua alegria pela aprovação de 99,8% dos 411 artigos do texto da
nova Carta Magna. Só um artigo, o relativo à extensão do latifúndio, não obteve
os dois terços dos votos e será levado a referendo para escolher entre duas
propostas, uma que atinja as propriedades de mais de 5.000 hectares e outra que
trata como latifúndio as de mais de 10.000 hectares. A questão do fim do
latifúndio no entanto foi definida dentro da nova Constituição.
DEMOCRACIA
Em seu artigo
I, estabelece que a Bolívia é um “Estado unitário social de direito
plurinacional comunitário, livre, autonômico e descentralizado, independente,
soberano, democrático e intercultural. Embasa-se na pluralidade e no pluralismo
político, econômico, jurídico, cultural e lingüístico, dentro do processo
integrador do país”. Apesar de aparentemente inquestionável, este artigo que se
constitui na antiga reivindicação dos 61% de bolivianos de origem indígena pelo
reconhecimento de sua cultura e identidade, é um dos pontos mais rejeitados da
Constituição pelos separatistas dos Estados mais ricos do país.
“Os chamados
‘cívicos’ de Santa Cruz, Pando, Beni, Tarija, e Cochabamba querem é separar as
regiões em que se encontram a maioria de nossos recursos naturais e continuar
entregando-os para as transnacionais de energia. A maioria dos bolivianos
queremos autonomia das regiões, dos departamentos e dos municípios dentro da
integridade e unidade territorial, econômica e política do país. Eles querem é
dividir o país”, revelou Evo, denunciando que “a tensão sobre a cidade onde se
estabelece a capital só é mais uma forma de desviar a atenção de seus
verdadeiros interesses”.
Desde o fim da
guerra civil de 1899, La Paz alberga os poderes Executivo e Legislativo e Sucre,
antiga capital, o Judiciário. Em esforço para chegar a um acordo, ficou mantida
Sucre como “Capital da República da Bolívia”, mas sem mencionar a sede dos
poderes. As instituições que se criarem produto da nova Constituição terão sede
em Sucre.
PLENÁRIA
Desmentindo a
acusação da oposição de que só o partido de Evo Morales, o Movimento ao
Socialismo, MAS, estaria participando do processo constituinte, a plenária que
concluiu no último domingo contou com a participação de 10 dos 16 partidos com
presença no Parlamento. O MAS foi a força com mais representantes, com 130, o
Movimento Bolívia Livre com oito, Unidade Nacional com sete, AS com seis, o
maior partido oposicionista Poder Democrático Social, Podemos, cujo comando
propôs a não participação mas não teve condições de segurar os desentendimentos
internos, acabou participando com quatro; CN com 4, MOP com dois, Aliança Social
Patriótica com dois, Ayra com um, MCSFA com um. A Assembléia Constituinte tem um
total de 255 parlamentares.
No final da
tarde de sábado, uma dúzia de constituintes do partido Podemos, do ex-presidente
Tuto Quiroga, inconformados pelo sucesso dos debates na plenária acudiram à
sessão para tentar adiá-la. Não conseguindo, saíram gritando que era “ilegal”, e
vaiados pelos que se manifestavam a favor da Constituinte.
Morales
assegurou que apesar de que os governadores da denominada “meia lua” – os
Estados formam esse desenho no mapa – dizem “que deve se fazer alguma coisa para
derrubar o índio”, ele insistirá em se reunir para dialogar porque “o MAS é pelo
tratamento político e democrático das nossas diferenças”. “Faço um chamado para
que mandem as razões e não as imposições e os caprichos. Muito menos os
interesses egoístas e anti-nacionais. Isso que é democracia”, afirmou Evo.
O texto
aprovado, além de criar as condições para extinguir o latifúndio, estabelece que
a propriedade dos hidrocarbonetos é do povo boliviano, detida em seu nome e
representação pelo Estado e torna ilegal o monopólio privado. Destaca que “não
se aceita nenhuma base militar estrangeira”, permite a reeleição imediata do
presidente por um só período constitucional; impõe o segundo turno na eleição
presidencial e o referendo revogatório do mandato. O Congresso continua sendo
bicameral.
SUSANA SANTOS
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