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Destruição de provas de torturas é para acobertar Bush e Cheney
Uma operação
como a destruição das fitas com tortura de prisioneiros não seria levada a
cabo apenas para proteger a escória usada pela CIA e Pentágono nos
“interrogatórios”. São os mandantes da tortura os maiores interessados na
queima de arquivos
O governo Bush, através da CIA, anunciou ter
destruído “pelo menos” “duas fitas de vídeo” da tortura de acusados do 11 de
Setembro. A queima de arquivo foi executada em nome de “proteger os agentes
presentes aos interrogatórios” – o que, num governo conhecido exatamente por
ter exposto a identidade da agente Valerie Plame, soa como o mais descarado
cinismo. A destruição dessas fitas - em que o torturado é Abu Zubaidah,
suposto “operativo da Al Qaeda - foi repudiada por amplos círculos dos EUA e
pela maioria democrata no Congresso”.
Como se sabe, os operadores diretos da tortura
não passam da asquerosa extremidade, junto ao torturado, da cadeia de
comando com sede na Casa Branca, e ramificações no Pentágono e CIA, de onde
partiram as ordens de torturar. Segundo o que já havia sido levantado
anteriormente, não só as ordens, mas os detalhes de como proceder à tortura,
quais as modalidades, a intensidade e tempo de suplício partiam do alto:
Bush, Cheney, Rumsfeld e uns poucos auxiliares diretos. Portanto, uma
operação dessas implicações e riscos políticos – a destruição das fitas -
não seria levada a cabo apenas para proteger a escória usada pela CIA e
Pentágono nos “interrogatórios”. São os mandantes da tortura, os criminosos
de guerra Bush e Cheney os maiores interessados na queima de arquivo.
“JURISPRUDÊNCIA”
Foram os dois que cevaram a “jurisprudência” de
que os EUA não precisam se submeter às Convenções de Guerra de Genebra, e
que os presos secretos não só não estavam amparados nessas convenções, como
nem sequer pelas leis norte-americanas. Para o que inventaram os vôos de
rendição, as prisões clandestinas no mundo inteiro e os campos de
concentração de Bagram, Guantánamo e Abu Graib.
Também partiu da Casa Branca, isto é, Bush e
Cheney, a ordem ao “Departamento de Justiça” para emitir os famosos
memorandos da tortura. E, após o escândalo de Abu Graib, a decisão de buscar
o braço direito no corredor da morte no Texas, Alberto Gonzáles, para
enquadrar o ministério em pânico e expedir nova ordem de torturar. Foi ainda
Bush que, assim que Gonzáles caiu, indicou um novo ministro da Justiça que
“não sabe” se “water-boarding” (afogamento) é tortura. (Mas que quando era
juiz federal sabia sempre como mandar os presos para Guantánamo).
Note-se que até a lei contra a tortura do
senador John McCain, que determinou que seja cumprido o “manual do exército”
para interrogatórios, deixa tantas brechas que o torturador sempre poderá
alegar que “não teve a intenção” de torturar ou matar, e só queria “a
informação”. Em suma, ergueram uma enorme barragem de proteção aos
torturadores e mandantes – mas, ainda assim, os criminosos de guerra Bush e
Cheney se sentem em grave risco. Exatamente por serem criminosos de guerra e
torturadores declarados.
Agora, está instaurado o pega pra capar. A
Comissão Oficial que investigou o 11 de Setembro garante jamais ter sido
informada da existência da gravação, apesar de requerimento oficial à CIA na
época para apresentação de todos os documentos, gravações e investigações
sobre o caso. A CIA diz que comunicou a destruição das fitas aos líderes dos
comitês de inteligência do Congresso, mas é desmentida pelos líderes na
época alegada da destruição, democratas e republicanos.
MEMORANDOS
O general Michael Hayden, atual diretor da CIA,
veio em socorro de Bush, explicando que as gravações foram feitas em 2002
“nos estágios iniciais” do programa [leia-se tortura] para garantir que os
procedimentos dos “funcionários da Agência” estavam em consonância com as
novas “orientações legais e políticas”, isto é, o Memorando da Tortura. Ele
esclareceu, também, que as gravações teriam sido encerradas ainda em 2002,
após aprovação dos “procedimentos”. Já a destruição teria ocorrido em 2005.
Mas, porque nesse ano e não em outro qualquer? Todos esses acréscimos de
Hayden têm tanta credibilidade quanto a anterior afirmação do governo Bush
de que não existiam tais fitas gravadas da tortura.
Segundo o “New York Times”, havia “centenas de
horas de gravação” de tortura. Entre as torturas a que Zubaidah foi
submetido, está o “water-boarding”. O jornal afirma, ainda, citando fontes
na CIA, que a exibição dessas gravações teria causado “um impacto muito
forte”.
Ainda de acordo com o “NYT”, fonte no anonimato
da CIA assegurou que a destruição teria sido feita à revelia do diretor de
então, Porter Goss. O que, se for verdade, é apenas mais um indício de que a
ordem veio mais de cima. O governo Bush atribui à tortura de Zubaidah a
captura de Khalil Sheik Mohamed, aquele sujeito que, após dois ou três anos
de tour pelas prisões clandestinas da CIA no mundo inteiro, se “confessou”
“culpado de A a Z” – típica expressão árabe. E, para prevenir outra
temporada de pau-de-arara no frigorífico de Guantánamo, como de A a Z era
pouco, ainda acrescentou uma dúzia de inusitados complôs, mirabolantes
planos de bombas atômicas sujas, biológicas e de antraz, e até uma mãozinha
“para matar o papa”. As gravações da tortura destruídas incluem outro
prisioneiro, cuja identidade não surgiu até agora.
ANTONIO PIMENTA |