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Chávez é um ditador? Não segundo minha definição
*DEWAYNE
WICKHAM
Não seria hora
dos jornalistas - sem mencionar os políticos - pararem de abusar dos
adjetivos ao se referir a Hugo Chávez?
Nos dias que
antecederam o recente referendo das
amplas emendas constitucionais que o presidente venezuelano pediu para seu
país aprovar, muitas reportagens americanas se referiram a Chávez como
ditador e líder autoritário.
Tal linguagem
parece mais um reflexo da política externa deste país do que uma análise
racional do temperamento político de Chávez. Pense a respeito. Quando foi a
última vez que um ditador perdeu uma eleição convocada por ele?
Mas foi
exatamente isto o que aconteceu com Chávez na semana passada. Os eleitores
do país latino-americano rico em petróleo rejeitaram as mudanças na
Constituição venezuelana que dariam a Chávez poderes extraordinários e lhe
permitiriam ficar no cargo por quanto tempo os eleitores estivessem
dispostos a reelegê-lo.
Como este
chamado “ditador banana” respondeu à rejeição? Ele ordenou que suas tropas
tomassem as ruas para tomar por decreto aquilo que lhe foi negado pelas
urnas? Ele deteve os líderes da oposição, como fez recentemente o presidente
paquistanês e aliado americano Pervez Musharraf para conter a dissensão em
seu país? Não, ele foi rapidamente à televisão nacional para reconhecer a
derrota.
Chávez não é
um ditador.
Idi Amin era
um ditador. O ex-líder de Uganda massacrou seus inimigos políticos - ele não
tentou superá-los nas urnas.
Augusto
Pinochet era um líder totalitário. O general chileno, que tomou o controle
de seu país em um golpe, travou uma campanha brutal para silenciar os
ativistas de esquerda. Ele aprisionou alguns e fez com que sua polícia
secreta assassinasse muitos outros.
Radovan
Karadzic era um déspota ainda mais impiedoso. Enquanto a ex-Iugoslávia se
dissolvia, Karadzic se declarou chefe da separatista República Sérvia da
Bósnia e deu início a uma campanha de limpeza étnica para livrar a nova
nação de sua população muçulmana. Ele usou tortura e estupro como armas de
guerra.
Este é o tipo
de coisa que ditadores e líderes totalitários fazem.
Chávez, por
outro lado, tentou usar os processos democráticos de seu país para
transformar a Venezuela em uma república socialista. É possível fazer
objeção à meta dele, mas a forma como tentou realizá-la deve ser enaltecida.
Em vez disso,
o governo Bush - e muitos jornalistas - condenaram o esforço de Chávez para
colocar um fim à limitação de mandato da presidência venezuelana dizendo que
ele estava agindo como um ditador. Eles o acusaram de buscar um mandato
ilimitado como executivo-chefe da Venezuela, nunca mencionando que os
presidentes americanos gozaram do mesmo direito por mais de 150 anos.
Muitos
jornalistas repetiram feito papagaios a descrição do governo Bush das ações
de Chávez como sendo uma tomada de poder descarada. Poucos questionaram se
os poderes que ele estava buscando diferiam muito dos poderes
extraordinários que o presidente Bush convenceu o Congresso a lhe dar após
os ataques do 11 de Setembro.
Eu sei algo
sobre ditadores e governantes totalitários. Eu sei, por exemplo, que os
presidentes americanos -republicanos e democratas- mostraram grande
tolerância por líderes autocráticos que abraçaram a visão de mundo deste
país.
Alguém
realmente acha que a Venezuela sob Chávez é um país menos tolerante e menos
democrático do que a Arábia Saudita? Quando foi a última vez que a Jordânia
ou o Egito, dois dos principais aliados deste país no Oriente Médio, tiveram
uma eleição livre e justa para escolher seu líder?
Bush rotulou
Chávez de “ditador” e Chávez chamou Bush de “o diabo”. Os dois estão nos
lados opostos da profunda divisão entre os Estados Unidos e Cuba -uma
divisão escancarada que frustrou 10 presidentes americanos e que está
estreitamente ligada a considerações de política doméstica.
Mas como a
Comissão Hutchins de Liberdade de Imprensa escreveu em 1947, “não basta mais
relatar a verdade de forma factual. Agora é necessário relatar a verdade
sobre o fato”.
Neste caso, a
verdade é esta: o governo Bush condena Chávez porque ele se recusa a ser um
satélite na órbita de política externa deste país. E não rotula como
ditadores os líderes estrangeiros que realmente são déspotas, porque operam
dentro da atração gravitacional do governo Bush.
* jornalista norte-americano, colunista do USA Today
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