Lisboa: unidade da África isola política
de ingerência inglesa contra Zimbábue
A política da
Inglaterra de intervenção em Zim
bábue
foi a grande derrotada da Cúpula de Lisboa, em que quase 70 países da Europa
e da África se reuniram durante dois dias para discutir suas relações. O
sucessor de Blair, Gordon Brown, tentou impor o “ou ele” – o presidente do
Zimbábue Robert Mugabe – “ou eu” e acabando tendo de ficar em Londres para o
chá das cinco, porque nem a União Africana, nem a Europa se submeteram ao
veto a Mugabe. Em seu discurso no encerramento da cúpula, Mugabe afirmou que
“há uma grande incompreensão em relação à África e ao Zimbábue. Fala-se aqui
na Europa em direitos fundamentais e democracia, mas se esquece que houve
muita gente do meu povo que morreu lutando pela democracia e pela
independência nacional”.
A atitude
imperial de Brown acabou se tornando o grande divisor de águas no encontro –
se os dois continentes vão ter relações mais parelhas, ou se a África, que
já foi escravizada e retalhada, se submeterá de novo. A Unidade Africana
enviou uma mensagem clara aos países europeus: se Mugabe não fosse, ninguém
iria. Como a BBC registrou: “A África, sensitiva sobre seu passado colonial,
insistiu que a Europa não pode ditar que Robert Mugabe, um dos heróis da
libertação, não deveria participar de um encontro internacional”. Ainda
segundo a BBC, quando algum dirigente europeu se meteu a dar aulas de
democracia, ouviu de Mugabe que “foram os africanos que trouxeram a
democracia para a África – um homem, um voto – não as potências coloniais”.
O
primeiro-ministro inglês Brown, que não paga as indenizações para a reforma
agrária devidas pela potência colonizadora ao Zimbábue, como determinam os
acordos de independência, alegou como pretexto para o veto a Mugabe o
suposto “desrespeito aos direitos humanos”. Como se sabe, o colonialismo
inglês primou pelo humani-tarismo, desde as priscas eras dos flibusteiros a
serviço de sua Majestade, até a pilhagem da África e da Índia, sem esquecer
a Guerra do Ópio. Atualmente, além do Zim-bábue, também tem exaltado os
direitos humanos, em comunhão com a CIA e o Pentágono, no Iraque e no
Afeganistão.
Em uma
manifestação na véspera da partida para Lisboa, o presidente Mugabe afirmou
a uma multidão: “Que a Inglaterra aprenda uma lição simples - o Zimbábue não
é mais uma colônia britânica”. Ele agradeceu, ainda, aos presidentes da
Comunidade de Desenvolvimento do Sul da África, que reúne também a África do
Sul, Angola e Namíbia, entre outros, “pelo apoio ao Zim-bábue em sua
afirmação para defender sua soberania frente aos ataques violentos que vêm
da Inglaterra”.
Para o
anfitrião do encontro, o primeiro-ministro português José Sócrates, que
cumpriu o papel de bancar a cúpula apesar das chantagens inglesas, o
encontro obteve um êxito histórico. Uma virada de página no impasse nas
relações entre os dois continentes desde a primeira Cúpula, há sete anos, no
Cairo. “O fato de que a cúpula tenha ficado suspensa por tantos anos leva as
duas regiões a perceberem que não podem ser reféns de disputas ou diferenças
sobre temas bilaterais”, declarou o chanceler do Zimbábue, Simbarashe
Mum-bengegwi.
No documento
final, a Cúpula propõe uma nova “relação estratégica”, com planos de ação
para oito áreas, incluindo desenvolvimento, comércio, energia, imigração,
segurança e mudança climática. Durante a Cúpula, o presidente do Senegal,
Abdoulaye Wade, liderou a oposição aos planos para “livre comércio” entre os
dois continentes, de desenvolvimento tão desigual. “De Casablanca (no
Marrocos) à Cidade do Cabo (África do Sul), os africanos devem rejeitar o
acordo”, afirmou. Esse tipo de acordo, com corte das taxas de importação dos
produtos europeus nos países africanos, foi amplamente rejeitado.