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Ministro da
Integração Nacional, Geddel Vieira, critica jejum de bispo:
“Transposição do
São Francisco será golpe na indústria da seca”
“Todo governo tem
que levar em conta o que pensa a sociedade. Mas todo debate, para ser produtivo,
precisa chegar a um fim”, alertou
O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira
Lima, criticou, nesta segunda-feira, a greve de fome feita pelo bispo de Barra,
na Bahia, d. Luiz Flávio Cappio, contra as obras de transposição do Rio São
Francisco. “Atropelar os ritos, desprezar o diálogo e ignorar as instituições,
numa democracia, é pecado capital”, afirmou o ministro.
Geddel fez questão de salientar que quem está
fazendo o protesto não o faz enquanto um bispo da igreja católica. “Que uma
coisa fique bem clara: quem está fazendo seu protesto, atentando contra a
própria vida, não é um bispo. Não é o pastor de um rebanho religioso. Não é um
líder espiritual. Tanto não é que a atitude de Cappio foi publicamente condenada
por d. Aldo Pagotto, bispo da Paraíba”, salientou.
“Sendo assim”, prosseguiu o Geddel, “Cappio toma
emprestada a aura simbólica de sua condição religiosa para colocá-la a serviço
de uma militância política baseada num fundamentalismo que só entende a rendição
incondicional como resposta. Fundamentalismos - venham de onde vierem,
praticados seja como for - são o inimigo público número 1 da democracia”,
alertou. “Quando se vê que até políticos veteranos, como o ex-governador de
Sergipe João Alves Filho, já partiram em peregrinação para tirar vantagem da
greve de Cappio, percebe-se nessa profanação que ele está sendo usado até mesmo
para a tentativa de milagres políticos, por meio da ressurreição nas urnas”.
“Cappio merecia apóstolos melhores”, disse. “Não tenho nada contra d. Cappio. Só
não posso aceitar o terrorismo simbólico nem permitir que a chantagem substitua
o diálogo”.
LEGITIMIDADE
“Todo governo tem que levar em conta o que pensa
a sociedade. Mas todo debate, para ser produtivo, precisa chegar a um fim.
Governos não são feitos para serem unânimes, em que pese o forte apoio que há ao
presidente Lula e à transposição. Governos são feitos para serem legítimos”,
prosseguiu Geddel.
“Poderia aqui ter discorrido sobre os inúmeros
benefícios e as inegáveis qualidades da transposição do São Francisco,
especialmente no que diz respeito à redenção de uma das regiões mais carentes do
Brasil. Mas, como cidadão preferi colocar em perspectiva o gesto radical de d.
Cappio e seu significado para a democracia”. “Seguramente, a transposição
significará a emancipação dos grotões e o golpe de morte na indústria da seca”,
argumentou.
O projeto de transposição do Rio São Francisco,
defendido por Geddel, foi concebido há mais de um século e tem como objetivo
garantir água às populações do sertão nordestino, uma das regiões mais carentes
do país. A meta do governo é promover o desenvolvimento agrícola, comercial e
industrial da região.
BARRAGENS
O rio São Francisco é um dos maiores e mais
importantes do mundo, estende-se por 2.700 quilômetros. Nasce na região Sudeste,
cruza a Centro-Oeste e vai até o Nordeste. Após cruzar três estados, ele
desemboca no mar na divisa entre os estados de Sergipe e Alagoas. Seu curso é
interrompido por duas barragens para geração de eletricidade, a de Sobradinho,
que garante a fluência do rio mesmo no período da seca, e a represa de
Itaparica, ambas na divisa entre a Bahia e Pernambuco.
Atualmente, 95% das águas do São Francisco
desembocam no mar e apenas 5% são usadas pelas populações beneficiadas, em
cidades ou na irrigação. Basicamente, o governo pretende aumentar o uso da água
para benefício da população.
O projeto prevê retirar água justamente nas duas
represas e levar essa água para duas outras bacias de rios menores, mas também
importantes: a do rio Paraíba e a dos rios Jaguaribe, Apodi e Piranhas-Açu.
Trata-se da construção de dois imensos canais de
ligação do São Francisco com as bacias menores e seus açudes e, depois, a
construção de futuras adutoras.
O prazo previsto para a obra é de 20 anos, a um
custo final estimado de R$ 4,5 bilhões. Pelo planejado, a obra beneficiará
diretamente 60 cidades, somando as que já recebiam alguma água e as que não
recebiam nenhuma, e uma população de 12 milhões de nordestinos. Junto com a
interligação de bacias, será também executado um Projeto de Recuperação do Rio
São Francisco e seus afluentes, muitos deles assoreados como conseqüência do
desmatamento e da agricultura. A revitalização do São Francisco é uma
reivindicação antiga e permanente de todos os setores que se preocupam com o
desenvolvimento do Nordeste e foi lançada como uma das grandes prioridades do
governo Lula.
SÉRGIO CRUZ |