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Governo de SP agride moradores e demole favela do Real Parque
Quatro
pessoas feridas e uma gestante hospitalizada na “reintegração de posse” do
terreno da Empresa Metropolitana de Águas e Energia, do governo do Estado
Na terça-feira, as imagens de mulheres e
crianças em meio à fumaça de bombas de gás chocaram pela brutalidade.
Os moradores da favela Real Parque foram
retirados à bala de borracha de seus barracos numa “ação de reintegração de
posse” concedida à Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), do governo
do Estado, pelo juiz Edson Luiz de Queiroz, da 3ª Vara Civil de Santo Amaro.
O terreno fica numa das regiões mais valorizadas
da capital paulista. A proximidade de condomínios de luxo, na Marginal
Pinheiros, faz aumentar a pressão pela retirada das favelas da região do
Brooklin e Morumbi, áreas nobres da zona sul da cidade.
Na “ação”, mais de 70 PMs usaram bombas de
efeito moral e sprays de gás pimenta para dispersar os moradores que, acordados
às 6 horas da manhã com a polícia na porta de suas casas, ocuparam a via
expressa da marginal Pinheiros. A maioria era de mulheres e crianças. Quatro
pessoas ficaram feridas e uma gestante foi hospitalizada.
Para o capitão da PM Ezequiel Morato, usar o gás
e as balas de borracha “foi melhor do que bater”.
RECURSO
Na quarta-feira, a Defensoria Pública entrou com
um recurso e uma ação na Justiça para barrar as ações de desocupação. A
defensora Carolina Pannain afirmou que há documentos que comprovam moradia de
famílias no local desde 2002, o que pela lei brasileira configura usucapião e
transfere a posse do terreno aos moradores.
A defensora ingressou com o recurso no Tribunal
de Justiça (TJ) pedindo a suspensão da reintegração de posse do terreno da
Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), onde ficava a favela Real
Parque.
De acordo com Carolina, a área tem 17 mil e 300
metros quadrados e abriga centenas de outros barracos. Segundo a EMAE, o terreno
dela tem 12 mil metros quadrados.
“Há pessoas que moram ali há mais de 5 anos. A
desocupação desta terça foi só da parte da frente do terreno, que é visível da
Marginal Pinheiros. A área dos fundos abriga muito mais gente”, diz Carolina.
Um grupo de 25 famílias despejadas com a
reintegração de posse da estatal paulista está sendo atendido pelos defensores.
“Eles estão relatando que não sabiam da
reintegração de posse. Foram acordados por volta de 6h receberam dois sacos de
lixo e a ordem de tirar os pertences e desocupar o local em duas horas. Não
tiveram sequer tempo de tirar seus pertences”, afirma Carolina.
Em nota, a EMAE informou que a reintegração foi
feita da “forma mais humana possível, respeitando as necessidades básicas e as
dificuldades dos moradores”.
A Subprefeitura do Butantã afirmou, ao término
do despejo, que a maioria dos barracos estava vago. A reintegração foi
determinada no dia 9 de novembro pelo juiz Edson Luiz de Queiroz, da 3ª Vara
Civil de Santo Amaro.
JARDIM EDITH
Mas, os moradores da favela Real Parque não são
os únicos ameaçados de ficar desabrigados em São Paulo. Numa área bem próxima,
na Avenida Luiz Carlos Berrini, está a favela do Jardim Edith, que faz parte da
Operação Urbana Água Espraiada.
A Operação Urbana Água Espraiada concedeu a
“investidores” o direito de construir prédios de altura superior ao permitido na
lei de zoneamento. Em troca, os recursos gerados pela venda destes certificados
deveriam ser destinados a melhorias no bairro - como a construção da Ponte
Estaiada e a criação de conjuntos habitacionais destinados a abrigar as pessoas
retiradas da favela.
Mas, ao invés dos conjuntos habitacionais, a
Secretaria Municipal de Habitação implementou a prática do “cheque despejo” que
consiste no pagamento de R$ 5 mil a R$ 8 mil para retirada de famílias. O valor
é insuficiente até mesmo para compra de barraco em outra favela.
Recentemente, o Shopping Cidade Jardim, que
também fica na Marginal Pinheiros, ofereceu R$ 40 mil por família para a
retirada de barracos de uma parte de seu terreno.
A Defensoria Pública entrou com ação civil
pública para impedir a prática do ‘cheque despejo’ no local. O defensor Carlos
Loureiro afirma que não pode ser usado na Favela Jardim Edith, pois o dinheiro
para providenciar moradia digna aos ocupantes de barracos já estava previsto em
lei.
“Se não forem feitas unidades habitacionais
ocorrerá fraude. O cheque-despejo não é atendimento habitacional. É imoral”,
afirma Loureiro.
Na Favela do Jardim Edith moram cerca de 3 mil
pessoas. São 800 famílias. De acordo com a Defensoria, metade delas residem há
mais de 10 anos no local. Segundo a Lei da Operação Urbana Água Espraiada
deveriam ser construídas moradias populares na região para realocar toda a
comunidade.
Com isso o Poder Público, por lei, não pode
conceder cheque-despejo. Tem o dever de construir moradias populares na região
para atender todos os moradores do Jardim Edith com recursos dos CEPACs
(Certificados de Potencial Adicional Construtivo)”, explica. “A área é de
permanente especulação imobiliária desde 2000, quando a Operação Urbana foi
realizada. Há uma pressão política dos investidores para que as favelas sejam
removidas”, denunciou. |