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Niemeyer faz 100 anos com a lucidez da vida revolucionária
Oscar Niemeyer, o maior arquiteto do Brasil e um
dos maiores da História, completa neste sábado 100 anos de uma vida onde semeou,
com a clareza e a poética de suas linhas curvas e a firmeza de seus princípios
na luta por uma sociedade mais justa, a admiração e o carinho dos brasileiros.
Revolucionário na arquitetura e na vida, sua
trajetória está indissoluvelmente ligada às transformações que o país viveu nos
últimos 60 anos.
Autor de mais de 600 projetos espalhados pelo
Brasil e por diversos países, Niemeyer continua em plena atividade. Só não quer
ouvir falar em homenagens: “A gente nasce e morre. Cada um dá sua historinha e
vai embora. Eu deixo a minha historinha também”, diz. E completa, “mas
compreendo (as homenagens), é natural, se eu ficar me escondendo fica meio
esquisito, meio misterioso, tenho que me abrir”.
E é isso que ele tem feito sempre que é
procurado, falando sobre a “precariedade do homem” diante do tempo e do
Universo, sobre os problemas do Brasil e do mundo, sobre sua obra e, claro,
sobre política, como quando responde sobre sua posição quanto a um possível
terceiro mandado de Lula: “Sou favorável, porque o governo dele tem se mostrado
a favor do povo, contra a miséria, a violência e, principalmente, contra o
intervencionismo norte-americano neste país”.
No início de dezembro, o presidente Lula, ao
lado do governador do Rio, Sérgio Cabral, visitou o arquiteto em seu apartamento
em Copacabana, onde o homenageou com a comenda e medalha do Mérito Cultural.
“Niemeyer é a minha inspiração”, disse o presidente na ocasião.
Falando sobre suas convicções políticas, o
arquiteto diz: “Eu era de família católica, com retrato do Papa na parede. Mas a
vida é injusta demais. Eu sou um comunista que acha que é preciso mudar o mundo,
que nada vai se resolver com paliativos, o capitalismo é ruim, divide os homens,
cria poder, cria a violência. Para melhorar, tem que mudar. E vai mudar, porque
a miséria é a maioria. É o proletariado no poder”.
Para ele, que entregou ao presidente da
Venezuela, Hugo Chávez, um de seus projetos mais recentes - um monumento a Simon
Bolívar com mais de 100m de altura -, novos tempos estão surgindo na América
Latina: “Os países estão se transformando em repúblicas populares, de mãos dadas
contra os americanos. Essa onda do Bush, o terrorista número um, acabou”.
Sobre sua obra, ele diz que tem projetos que tem
prazer em elaborar, “outros eu recuso”.
“O lado humano da arquitetura sofre a influência
do mundo capitalista e do poder imobiliário, que a corrompem e desmerecem. Tem
certos princípios de que a gente não abre mão. Eu tive sorte, tive oportunidade
de começar fazendo a Pampulha, depois veio Brasília... E aproveitei. Às vezes,
temos uma chance boa e não sabemos tirar partido dela, aí não adianta nada”.
Ele diz que o que gostaria mesmo “é olhar para a
cidade e não ver favelas, não ver pobre na rua, olhar o povo satisfeito correndo
na praia”.
“Acho que a felicidade do povo é ter uma casa
para morar, e ter o suficiente para comer e levar a vida decentemente. Não tem
nada a ver com arquitetura. A arquitetura não muda a vida, mas a vida pode mudar
a arquitetura”.
“Cem anos é uma bobagem, depois dos 70 a gente
começa a se despedir dos amigos. O que vale é a vida inteira, cada minuto, e
acho que passei bem por ela. Quando olho para trás vejo que não fiz concessões e
que segui o bom caminho. Isso é que dá uma certa tranqüilidade”, afirmou, ao ser
homenageado com uma medalha oferecida pelo governo francês (onde se exilou no
regime militar) na quarta-feira.
“Um dia a vida será mais justa, os homens não se
olharão a procurar defeitos uns nos outros, como tantas vezes acontece. Ao
contrário, haverá sempre a idéia de que em todos há um lado bom, uma dada
qualidade a destacar (Lênin dizia que 10% de qualidades já seriam suficientes)”,
disse.
Na sexta-feira, Oscar Niemeyer será homenageado
pelo consulado da Rússia. No sábado, comemora o aniversário na Casa das Canoas,
um projeto de 1952, de sua autoria, considerado um dos marcos da arquitetura
brasileira.
ANA BRAIA |