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Bush anuncia limpeza étnica com buldôzer em Nova Orleans
Plano da Casa
Branca é demolir 4600 apartamentos subsidiados atingidos pelo Katrina e
reconstruir apenas 744 nas mesmas condições. Enquanto desaloja os pobres,
Bush quer erguer no lugar 1000 imóveis a US$ 400 mil cada, a “taxas de
mercado”
O governo Bush está preparando o envio de buld ôzeres
(escavadeiras) para demolir milhares de apartamentos de baixa renda em Nova
Orleans, denunciou o professor de Direito da Universidade Loyola, Bill
Quigley. “4600 apartamentos subsidiados serão postos abaixo e apenas 744
serão substituídos por unidades similarmente subsidiadas - uma redução de
82%” – de acordo com o plano do Departamento de Habitação e Desenvolvimento
Urbano, HUD, na sigla em língua inglesa. Enquanto desaloja os pobres, isto
é, os negros, já que se trata de Nova Orleans, o mesmo plano pretende
erguer, a ‘taxas de mercado’ e preço de “US$ 400.000 cada!” – o espanto é de
Quigley-, 1000 apartamentos novos.
DEMOLIÇÃO
O plano de demolição foi aprovado pelo HUD em
dois dias, à revelia da população de Nova Orleans, apesar de compromisso
anterior de submetê-lo a um escrutínio de 100 dias. Uma corte federal
recusou-se a mandar parar as demolições programadas por Washington, sob a
alegação de que, caso as demolições sejam ilegais, os moradores sempre
poderão pedir indenização depois. Quigley tornou-se conhecido no país
inteiro durante a tragédia do Katrina, ao ter divulgado, do inundado
Memorial Hospital, um dos poucos ainda em funcionamento em Nova Orleans,
aonde fora ajudar no socorro às vítimas, e aonde se encontrava ilhado, junto
com 1.300 pessoas, seu dramático apelo: “Não há água, nem aquecimento,
doentes por todo lado, peçam a ajuda de todos”. Mais que um apelo, um
retrato da cidade abandonada por W. Bush à própria sorte.
A demolição desses milhares de aparta mentos
subsidiados, junto com outras medidas em curso, significa uma mal disfarçada
campanha de limpeza étnica em Nova Orleans, ao impedir que milhares e
milhares de famílias negras pobres, sabidamente desalojadas pelo furacão e
pela incúria de Bush, possam ter casas para as quais voltar, já que as suas
foram destruídas total ou parcialmente, mas não foram reconstruídas nem
reparadas. Uma das entidades formadas para lutar contra o plano, a “Coalizão
Parem as Demolições”, afirmou que “sem acesso à moradia disponível, milhares
de trabalhadores de Nova Orleans terão negado seu direito humano de
retornar”. Os moradores dos conjuntos habitacionais de Nova Orleans prometem
resistir à limpeza étnica. “Se tentarem passar o buldôzer por cima dos
nossos lares, vamos lutar”, afirmou o morador Sharon Jasper. “Vai haver uma
guerra em Nova Orleans”.
CRISE DE
MORADIA
Como enfatizou Quigley, a crise de moradia na
costa do Golfo “é a mais grave desde a Guerra Civil”. “Mais de 50.000
famílias que ainda vivem em minúsculos trailers estão sendo sistematicamente
arrancados”, denunciou. Outros “90.000 proprietários de casas na Louisiana”
continuam, dois anos após a catástrofe, “esperando receber os fundos
federais de reparação do programa ‘Road Home’”. O advogado acrescentou que
na cidade “centenas dos estimados 12000 sem-teto improvisaram moradia em
pequenas tendas entre a Prefeitura e a rua I-10”.
“O que está em jogo, com a demolição das
moradias subsidiadas para pessoas de baixa renda, é mais que a perda de u nidades
residenciais: destrói qualquer possibilidade de acesso a moradia em Nova
Orleans no futuro previsível”, afirmou Kali Akuno, dirigente da “Parem as
Demolições”. “Nenhuma crise é mais urgente que essa”, acrescentou, por
ameaçar que Nova Orleans seja uma cidade mais justa e igualitária, e “não
apenas mais convidativa para as elites”. Lei aprovada na Câmara dos
Deputados dos EUA, que estabelece que para cada moradia derrubada em Nova
Orleans será construída uma nova para substituí-la, vem sendo mantida na
geladeira, no Senado, por articulação dos republicanos.
Naturalmente, a turma de Bush não confessa sua
limpeza étnica, nem seus desinteressados vínculos com especuladores
imobiliários, empreendedores do ‘ramo dos cassinos’, seguradoras,
‘contratistas’ e toda sorte de espertalhões dispostos a fazer dinheiro por
cima das ruínas de Nova Orleans. Menos ainda sua falta de interesse na volta
em massa dos eleitores negros democratas. Como lembrou Quigley, logo após a
devastação do Katrina, um analista político comentou que “a margem de
vitória democrata na Louisiana está dormindo no Astródomo de Houston” (o
estádio do Texas que serviu de refúgio para uma multidão de retirantes de
Nova Orleans).
BLACKWATER
Assim, com a desfaçatez que lhes é peculiar,
atribuem as demolições ao “esforço” para “diminuir a cri-minalidade” em Nova
Orleans – aliás, um esforço iniciado pelos esquadrões da Blackwater quando
os moradores ainda estavam nos telhados das casas inundadas. Os mais cínicos
apontam outra vantagem: reduzir a “discriminação”, criando “áreas mistas”.
Tipo as ‘1000 unidades’ classe A de US$ 400.000 dólares e os 774
apartamentos subsidiados. À custa de deixar sem habitação “80% dos antigos
moradores” das moradias subsidiadas, que o advogado descreveu como “famílias
afro-americanas, a maioria chefiada pela mãe ou pela avó, de baixa renda ou
vivendo da aposentadoria, e com milhares de crianças nas redondezas”.
EMBUSTE
Outro embuste é pretender que a demolição se
explica por ser um método “mais econômico” de recuperar a cidade. Modalidade
de “recuperação” que evita a recuperação dos seus antigos moradores. Há,
como registrou o advogado, casos de prédios que, “apesar de estarem
estruturalmente indenes”, e cuja reparação custaria “bem menos” do que será
gasto “para sua demolição, e posterior reconstrução de uma ‘pequena fração’
dos apartamentos anteriores”, estão “na lista dos buldôzers”. Quigley também
denunciou o papel do homem de Bush no HUD, o secretário Alphon-so Jackson,
nas pressões para seguir em frente com as demolições. Jackson aprovou planos
de doar grandes extensões de terra pública a “empreendedores” privados,
disfarçados de arrendamento por 99 anos, com centenas de milhões de dólares
de subvenções diretas e de crédito subsidiado. O que um dos felizes
contemplados descreveu como “o maior brinde em anos”.
ANTONIO
PIMENTA
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