“A
militância dos jornalões a favor de uma candidatura só não detectou quem não
quis”, afirma Requião
Em sua posse, o governador
Roberto Requião (PMDB-PR) fez uma análise sobre o papel da mídia monopolista
no processo eleitoral e sobre a afirmação da “comunicação de interesse
público”, que destacamos a seguir.
“O debate sobre o papel da
imprensa no processo eleitoral ganhou o país. Pela primeira vez, em tantas
décadas, a mídia foi colocada sob suspeita. E criticada, coisa que ela detesta
mais que o satanás da água benta.
A militância dos jornalões a
favor de uma candidatura só não detectou quem não quis. Caso de má-fé cínica
ou de ignorância córnea? Optaram sim por um lado, torceram e distorceram por
ele e quando isso foi identificado e denunciado reagiram dizendo que se
ameaçava a liberdade de imprensa. Não tiveram a coragem, o desassombro de
assumir em editoriais a opção feita, mesmo que a não disfarçassem, mesmo que
isso fosse refletido escandalosamente no tom reservado à cobertura de cada um
dos candidatos.
Quando falamos em exclusão
social e econômica, quando falamos sobre as desigualdades, os desequilíbrios,
os privilégios nunca, ou quase nunca, fazemos referência ao monopólio da
informação. Nunca mencionamos o domínio da mídia por determinados interesses
e, por conseqüência, o afastamento de suas páginas, de seu vídeo e áudio dos
interesses dos dominados, dos apartados, dos segregados, dos discriminados,
dos trabalhadores, do povo, enfim.
Que liberdade de imprensa é esta
que acolhe sempre a voz dominante, a voz do mercado, dos poderosos? Que
liberdade de imprensa é esta que restringe o acesso do povo e de suas
manifestações? Que trata e maltrata os trabalhadores, quase sempre com desdém,
com o corte da visão de classe senhorial?
Que liberdade de imprensa é essa
que, quando critica, quando acusa, mesmo que distorcendo os fatos, concede à
parte ofendida, quando muito, uma misericordiosa meia linha, para que “o outro
lado” se manifeste? É o acepipe cinicamente ofertado antes da execução. Não
tenhamos ilusões, não sejamos ingênuos, não esperemos muito da grande mídia.
Ela tem um lado, nós é que não aprendemos isso ainda e ficamos insistindo em
um diálogo de surdos.
Hoje, apenas seis redes privadas
controlam 667 veículos – emissoras de TV, de rádio e jornais diários –
atingindo 87 por cento dos domicílios, em 98 por cento dos municípios
brasileiros. Há ainda quem ouse dizer que isso não é o monopólio da
informação, que isso não é o controle da opinião pública, que isso não é uma
verdadeira ditadura do pensamento dominante?
É salutar que finalmente o poder
da grande mídia comece a ser colocado em xeque e a sua credibilidade como
agente formador da opinião pública seja questionada.
Mas que comunicação queremos?
Queremos uma comunicação de interesse público. Que estimule o debate. Que
tenha compromisso com a formação, a educação e a construção da cidadania. Que
democratize e produza instrumentos de socialização da informação. Que crie,
utilize e valorize espaços de mídia alternativos, como as rádios comunitárias,
a internet, os eventos públicos.
Queremos uma comunicação que
resista à hegemonia dos meios de comunicação de massa e crie referências
críticas ao que eles veiculam, que não engulam tudo que os jornais nacionais,
que as novelas buscam empurrar goela abaixo do povo.”