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Lula: “nenhum país cresce se o custo do capital for alto”

No discurso de posse, além da redução dos juros, presidente ainda defendeu o crescimento econômico acelerado do país nos próximos anos

Fui reconduzido à Presidência da República pela vontade majoritária do povo brasileiro”, afirmou o presidente Lula, no discurso de posse feito em sessão solene do Congresso Nacional, no último dia 1º de janeiro (ver matéria sobre a festa da posse na página 8). “Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de ‘distribuição de migalhas’. Os que assim pensam não conhecem e não entendem este país. Desconhecem o que é um povo sem feitores, capaz de expressar-se livremente”, destacou. “O que distribuímos, e mais do que isso, socializamos, foi cidadania. Este povo constitui a verdadeira opinião pública do país que alguns pretenderam monopolizar”, completou o presidente.

MUDANÇAS

“Ouço as vozes das cidades, das ruas e dos campos e escuto, muito perto, a voz da minha consciência. Ela me diz que não fui reeleito para ouvir a velha e conformista ladainha segundo a qual tudo é muito difícil, quase impossível, que só pode ser conquistado numa lentidão secular”. “Quatro anos atrás eu disse que o verbo mudar iria reger o nosso governo. E o Brasil mudou. Hoje, digo que os verbos acelerar, crescer e incluir vão reger o Brasil nestes próximos quatro anos”, frisou Lula. “Os efeitos das mudanças têm que ser sentidos rápida e amplamente. Vamos destravar o Brasil para crescer e incluir de forma mais acelerada”, prosseguiu.

“Sei que, a partir de hoje, cabe-me corrigir o que deve ser corrigido e avançar com maior determinação no que está dando certo, para consolidar as conquistas populares”, garantiu. Ele defendeu a continuidade da queda dos juros como forma de garantir o crescimento. “Tenho claro”, disse o presidente, “que nenhum país consegue firmar uma política sólida de crescimento se o custo do capital, ou seja, o juro, for mais alto do que a taxa média de retorno dos negócios”.

“O Brasil”, assinalou Lula, “não pode continuar como uma fera presa numa rede de aço invisível, debatendo-se, exaurindo-se, sem enxergar a teia que o aprisiona”. “É preciso desatar alguns nós decisivos para que o país possa usar a força que tem e avançar com toda velocidade”. “Precisamos de firmeza e ousadia para mudar as regras necessárias e avançar. Não podemos desperdiçar energias, talentos, esperanças”, ressaltou.

“É necessário que este crescimento esteja inserido em uma visão estratégica de desenvolvimento que nosso país há muito tempo havia perdido”, disse. “Temos de desobstruir os gargalos e romper as amarras que travam o país”. “Isso significa ampliar e agilizar o investimento público, desonerar e incentivar o investimento privado”. “Estaremos lançando, já neste primeiro mês de governo, um conjunto de medidas, englobadas no Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC”, anunciou.

“Vamos realinhar prioridades; otimizar recursos; aumentar fontes de financiamento; expandir projetos de infra-estrutura”, afirmou. “O fornecimento de energia nos próximos dez anos está garantido pelos projetos em andamento e pelos novos e ambiciosos projetos que serão licitados em 2007”, informou.

“Vamos estabelecer, com o BNDES, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, a Embrapa, o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio, e o Ministério da Ciência e Tecnologia, um amplo programa de incentivo à produtividade das empresas brasileiras”, prosseguiu.

A ampliação do crédito também foi uma das metas apontadas por Lula. “É necessária uma expansão planejada do crédito. Nossa meta é criar condições para que sua expansão, até 2010, chegue a 50% do PIB, especialmente para o investimento, a infra-estrutura, a agricultura, a habitação e o consumo”, garantiu.

“Durante a campanha afirmei que meu segundo governo será o governo do desenvolvimento, com distribuição de renda e educação de qualidade. Disse que, para termos um crescimento acelerado, duradouro e justo, devemos articular cada vez melhor a política macroeconômica com uma política social capaz de distribuir renda, gerar emprego e inclusão”, afirmou.

Criticando os setores que combatem os programas sociais, ele disse que “o Bolsa Família, principal instrumento do Fome Zero, saudado pelas comunidades pobres e criticado por alguns setores privilegiados, teve duplo efeito. Por um lado, retirou da miséria milhões de homens e mulheres. Por outro, contribuiu para dinamizar a economia de forma mais equânime”, argumentou.

Lula reiterou que a educação de qualidade será sua prioridade. Comemorando a aprovação do FUNDEB, o presidente disse que com ele poderá “aumentar dez vezes o investimento nas áreas mais carentes do ensino, e 60% destes recursos serão aplicados na melhoria de salários e na formação do professor”. “Nesta luta pela qualidade, vamos também ampliar a renovação tecnológica do ensino, informatizando todas as escolas públicas”.

Lula disse que quer transformar o Brasil no país mais democrático do mundo no acesso à universidade. “Para isso contribuirão as novas universidades e extensões universitárias e as escolas técnicas em todas as cidades-pólo do país. Para isso contribuirá também a expansão das bolsas do ProUni”, assinalou. “O Brasil”, disse o presidente, “assistirá dentro de dez ou quinze anos o surgimento de uma nova geração de intelectuais, cientistas, técnicos e artistas originários das camadas pobres da população”.

Ele defendeu a reforma política e disse que o país precisa “de um sistema político capaz de dar conta da rica diversidade de nossa vida social”. “A reforma política deve ser prioritária no Brasil”, disse Lula, convidando todos o início do debate. “Nossas instituições têm de ser mais permeáveis à voz das ruas”, disse.

DESTINO

Sobre a política externa, Lula disse que ela “foi motivo de orgulho e foi marcada por uma clara opção pelo multilateralismo, necessário para lograr um mundo de paz e de solidariedade”. “Essa opção nos permitiu manter excelentes relações políticas, econômicas e comerciais com as grandes potências mundiais e, ao mesmo tempo, priorizar os laços com o Sul do mundo. Estamos mais próximos da África, um dos berços da civilização brasileira. Fizemos do entorno sul-americano o centro de nossa política externa”, afirmou Lula. “O Brasil associa seu destino econômico, político e social ao do continente, ao Mercosul e à Comunidade Sul-Americana de Nações”, acrescentou. 
 

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