Sadam dedicou sua vida à
libertação do povo iraquiano e árabe
“Na véspera, veio ao meu gabinete o presidente da Shell. Ele pedia para que o
petróleo não fosse nacionalizado”, relata Sadam ao falar do dia em que a nação
iraquiana, sob o seu comando, assumia o controle da maior das suas riquezas.
“Quase implorava”, descreve Sadam, “e, por um momento, minha atenção foi
desviada do que ele dizia interminavelmente. Passou então pela minha mente uma
reminiscência de infância: as mães iraquianas rondando o lixo das vilas onde
moravam os estrangeiros das empresas de petróleo e procurando alguma coisa
para alimentar seus filhos. Eu interrompi aquele holandês de pele avermelhada
e disse: ‘está decidido, o petróleo será nacionalizado! Por favor, transmita
meus cumprimentos à rainha da Holan-da’. No dia seguinte, ao ver o povo nas
ruas, comemorando a nacionalização, senti algo como pássaros feridos, pensando
em quantos sacrifícios seriam necessários para que mantivessem sua conquista.
Quantos daqueles homens e mulheres sabiam disso e quanto estariam dispostos a
tal?”
Era 1º de junho de 1972, Sadam Hussein, à frente do Partido Baas, dava o passo
decisivo na consolidação da Revolução de 17 de julho de 1968 e previa a
magnitude da luta que a libertação do Iraque demandaria. Até aquela data, o
maior dos líderes revolucionários árabes já havia percorrido um longo caminho
desde a sua infância, nascido em uma família de camponeses pobres num povoado
próximo à cidade de Tikrit (que tem esse nome devido a sua proximidade ao rio
Tigre, um dos braços do berço da civilização, a Mesopotâmia).
Órfão de pai, Sadam passou os seus primeiros dez anos aos cuidados do seu tio
paterno, Al Hajj Ibrahim, de mentalidade retrógrada que negou-se a atender
seus insistentes pedidos de se matricular numa escola. Aos dez anos ele foge
de casa e chega à casa de seu tio por parte de mãe, que o acolhe e permite a
sua matrícula.
Passam-se outros dez anos e Sadam, com 21 anos de idade é – junto com toda a
juventude árabe – sacudido pela solidariedade ao primeiro ato realmente
libertador da região diante das potências coloniais: em 1956 Gamal Abdel
Nasser nacionaliza o canal de Suez. As ruas de Bagdá se enchem de jovens
pedindo a libertação do Iraque e a energia que varre o mundo árabe gera a
primeira Revolução Iraquiana cujo líder, Abdul Qasim, se deixa corromper e
comprometer com os interesses coloniais instalados no Iraque e a transforma
num regime ditatorial e antipopular.
O partido Baas, Partido do Renascimento Socialista Árabe, idealizado e fundado
em 1947 pelo sírio Michel Aflek, havia encontrado eco na juventude e entre os
jovens oficiais iraquianos e participado da Frente Nacional que promoveu a
revolução, cujos princípios já delineavam os caminhos que o Iraque trilharia
sob o comando de Sadam. “O governo deve seguir uma política nacionalista e
satisfazer as reivindicações do povo no sentido de libertar-se política e
economicamente da colonização”, afirma o programa da Frente Nacional.
Sadam, desde a primeira fase da revolução, em 1958, já se tornara um dos
militantes mais destacados do partido e daí por diante atua com uma coragem e
determinação singulares até assumir o comando do partido e do país cuja
profunda transformação se iniciava.