Com Sadam, Brasil e Iraque
desenvolveram a mais ampla parceria
A parceria econômica, política e militar entre o Brasil e
o governo do Iraque, liderado por Sadam Hussein, foi intensa e decisiva para o
desenvolvimento dos dois países.
Nos anos 70 e 80, na época em que o Brasil ainda não era
auto-suficiente na produção de petróleo, e corria o risco de ser forçado a
aplicar o racionamento de combustíveis, Sadam forneceu milhões de barris em
condições especialmente favoráveis ao país. Para o pagamento não eram exigidos
dólares ou outras divisas que o Brasil não tinha. Nada além do compromisso de
vender ao Iraque produtos que ele precisava, o que para a nossa economia era
um incentivo ao crescimento: alimentos, serviços de engenharia, tecnologia,
automóveis e equipamentos militares.
AMIGO DO BRASIL
“Hoje estima-se que a Petrobrás tenha economizado pelo
menos 32 bilhões de dólares nos seus negócios com Bagdá”, apontou o jornalista
Leonardo Attuch, autor do livro “Sadam, o amigo do Brasil”.
Depois da chamada crise do petróleo (1973) e da crise da
dívida externa também sofrida nesse período, o Brasil não tinha crédito com as
multinacionais do óleo. “O petróleo subiu de dois dólares para 30 dólares. Ele
representava sete, oito por cento do perfil de importações brasileiras em
termos de gastos e passou, a certa altura, a ser 50%”, relatou Armando Guedes,
presidente da Petrobrás até 1990, mostrando a importância de um intercâmbio
justo.
PETRÓLEO
“Sadam era o único que topava garantir o fornecimento de
petróleo ao Brasil. Ele não pedia carta de crédito. O fornecimento do Iraque
era da ordem de 400 mil barris/dia, mais de 70% da importação em um
determinado período. Era a melhor alternativa possível”, assinalou Delfim
Netto, na época ministro da Fazenda.
Na entrevista publicada no livro, Attuch lembrou que
alguns setores ponderavam que teria sido melhor apertar o cinto e reduzir as
importações de petróleo. “Essa é a história mais estúpida e imbecil que já
escutei. Se tivéssemos agido assim, seguindo o conselho dos ignorantes, hoje o
Brasil não seria o Brasil, seria Bangladesh... sem o Iraque é que nós íamos
ver com quantos paus se faz uma canoa”, respondeu Delfim.
O Brasil também contribuiu de forma substancial para o
crescimento do país árabe. Na década de 70, a Petrobrás descobriu o segundo
maior campo petrolífero do mundo no Iraque, o Poço de Majnoom, com reservas de
10 bilhões de barris.
O relacionamento entre o governo iraquiano, liderado por
Sadam, e o Brasil não se limitou às questões econômicas. “O Brasil foi um dos
primeiros países a se solidarizar com Sadam após a nacionalização da produção
iraquiana de petróleo, num momento em que as grandes potências internacionais
ameaçavam o Iraque com um embargo econômico”, sublinhou Attuch.
INTERCÂMBIO CIENTÍFICO
O papel de Sadam foi decisivo na nacionalização das
jazidas de petróleo (entre 1972-1975), quando era vice-presidente do governo
de Ahmad al Baker. A revolução iraquiana, porém, se aprofundou a partir de
1979, quando ele assumiu a presidência.
A parceria entre o Brasil e Iraque abrangeu a área
científica, através da troca de informações para o desenvolvimento de novas
tecnologias, inclusive a nuclear. O Centro de Tecnologia Aeroespacial de São
José dos Campos coordenou o intercambio entre os centros de pesquisa e as
fábricas. A indústria bélica brasileira, através da Avibrás, vendeu um grande
lote de lançadores de mísseis montados em caminhões blindados, necessários
para uma eficiente defesa do país, além de munições e armas leves.
FERROVIA BAGDÁ-AKASHAT
Em 1978, a empresa brasileira Mendes Junior iniciou a
construção da ferrovia Bagdá – Akashat, que se transformou na principal obra
de engenharia realizada por uma empresa do país. A ferrovia tinha finalidade
industrial, prevista para uma velocidade de 150 quilômetros por hora, na época
um desafio tecnológico.
Ainda apontando os principais acordos, numa operação de
1,7 bilhões de dólares, a Volkswagen de São Bernardo do Campo fechou o maior
contrato de exportação de veículos da indústria automobilística mundial.
Foram 170 mil Passats, de uma só vez, vendidos ao Iraque. A operação incluía o
transporte de petróleo do Iraque à Jordânia, onde o óleo era embarcado para o
Brasil. A parceria cada vez mais produtiva e importante para os dois países
foi interrompida pelas agressões e retaliações ao Iraque.
O criminoso embargo imposto
pelos EUA a partir de 1991 impediu a continuidade do vantajoso intercâmbio.
SUSANA SANTOS