1 2 3 4 5 6 7 8|Índice| Biblioteca|Assinatura|Expediente|Cartas|Não tropece na Língua
Envie sua carta: horadopovo@horadopovo.com.br | hp@webcable.com.br


BC insiste em reduzir meta de crescimento de 5% para 3,5%

“Mercado” pesquisado pelo BC não tem ninguém do setor produtivo. Só do sistema financeiro, o único beneficiado com as altas taxas de juros

Analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central estimam para este ano um crescimento econômico de 3,5%, segundo o boletim Focus, divulgado semanalmente. É a chamada pesquisa de “mercado”, instrumento recorrente de Meirelles e demais diretores do BC para, entre outras coisas, definir a taxa básica de juros. Os números da “pesquisa” apontam para um desfecho da economia baseado na política de favorecimento ao cartel financeiro que vem sendo conduzida pelo BC, e o fato de continuar servindo de parâmetro só revela qual a política que continua vigente na instituição.

ESPECULADORES

Tanto é assim que os especuladores projetam uma redução mínima da taxa Selic dos atuais 13,25% ao ano para 11,75%. Para a inflação, a estimativa é de o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechar em 4%. Assim, com juros neste patamar fica inviabilizado qualquer crescimento acima de 3,5%, isto é, não se atinge a expansão de 5% do PIB que vem sendo defendido pelo presidente Lula, para o qual está previsto inclusive o lançamento ainda este mês do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Como diz a professora Maryse Farhi, do Instituto de Economia da Unicamp, “o BCB utiliza uma pesquisa de opinião junto a analistas de bancos, que são quem tem mais a ganhar com  taxas de juros elevadas, para apurar as expectativas de inflação dos ‘agentes racionais’, o que introduz um viés altista em suas decisões”.

Significativo é que no “mercado” pesquisado pelo BC não tem ninguém do setor produtivo. Nem empresário, nem trabalhador, nem empresa estatal. Só do sistema financeiro. Aliás, não só o “mercado” da pesquisa do boletim Focus, mas a diretoria do BC é um exemplo claro do entrelaçamento entre a autoridade monetária e o sistema financeiro privado. Dos oito integrantes da Diretoria Colegiada do BC, pelo menos seis saíram das hostes dos bancos. Henrique Meirelles (BankBoston), Paulo Cunha (HSBC), Rodrigo Azevedo (Credit Suisse First Boston), Mário Mesquita (ABN Amro), sendo que Afonso Beviláqua e Alexandre Tombini passaram pelo cartel dos bancos privados, o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Só há um probleminha nos números do mercado financeiro e do BC: o Brasil e o presidente Lula já se definiram pelo crescimento inicial de 5% em 2007. As medidas contidas no PAC certamente terão papel importante nesse sentido. No entanto, isso só se viabilizará na medida em que houver uma signficativa e acelerada redução das taxas de juros reais que continuam nas estrelas - e que Meirelles, o mercado financeiro e especuladores em geral querem perpetuar.

A experiência recente no Brasil já demonstrou que a redução da taxa de juros é decisiva. Lula recebeu dos tucanos a economia em frangalhos, que começou a ter um início de recuperação a partir do segundo semestre de 2003, mantendo um crescimento até o terceiro trimestre de 2004, quando o BC elevou a Selic em setembro após cinco meses congelada. Isso teve efeitos não apenas sobre os investimentos, mas também sobre o câmbio. A partir de então a desaceleração econômica ficou evidente, refletida na expansão de apenas 2,3% do PIB em 2005 e em torno de 3% em 2006.

É bom registrar que a taxa de juros reais chegou a cair a 4,2% em setembro e 4,4% em outubro de 2003. Obviamente, a redução dos juros reais, ao lado do desempenho das exportações, foi o que propiciou o crescimento de 4,9% do PIB no ano seguinte.

Ou seja, o Brasil tinha todas as condições de entrar na rota do crescimento sustentado já no primeiro governo Lula. O crescimento foi abortado por uma ação deliberada de Meirelles, quando elevou a taxa de juros.

VALDO ALBUQUERQUE

Voltar

Paginas: 1 2  3  4  5  6  7  8