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Spis: “Somamos força para romper as amarras impostas pelos juros altos”

Membro da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), o líder petroleiro Antonio Carlos Spis destaca a necessidade de “cortar o nó das amarras impostas pelo capital financeiro” e avalia o papel da mobilização popular para “a construção de um processo de efetiva libertação nacional”. 

 Qual a sua avaliação sobre o segundo mandato do presidente Lula?  

Como o povo brasileiro tão bem demonstrou nas ruas e nas urnas, particularmente durante o segundo turno das eleições presidenciais, há um clamor generalizado para que o processo de transformações iniciado no primeiro mandato ganhe agora maior contundência, profundidade e consistência. Temos a convicção de que o Estado precisa usar suas políticas para, em nome da sociedade, combater a pobreza, a desigualdade social e o desemprego, as três maiores chagas sociais que atingem o nosso povo. 

E o papel dos movimentos sociais neste processo... 

Nosso papel é de apoio crítico e entendemos que o governo deve se sustentar na mobilização popular. O que os movimentos sociais têm a oferecer é isso: um poderoso instrumento de sustentação e mobilização para avançar, com serenidade e firmeza, na construção de um processo de efetiva libertação nacional, deixando para trás a lógica excludente imposta pelos círculos financeiros internacionais, que historicamente têm se locupletado com o parasitismo das imensas potencialidades e riquezas do nosso país e do nosso povo. As reservas de petróleo são patrimônio do povo brasileiro e não podem ser leiloadas para exploração de empresas estrangeiras. Estaremos mobilizados para que a decisão judicial de anular o leilão da Companhia Vale do Rio Doce seja cumprido, pois a Vale  não pode mais seguir sendo uma máquina de espoliação dos nossos recursos naturais em prol de meia dúzia, sendo que 48% de suas ações já estão sob controle de estrangeiros. 

É preciso mudar... 

As inúmeras plenárias e avaliações realizadas recentemente pelos movimentos sindical e social em todo o Brasil apontam uma convergência sobre a necessidade da mudança de rumos na política macroeconômica, rompendo as amarras impostas pelo capital financeiro que, feito bola de neve, cresce sustentado nos juros altos, no elevado superávit primário destinado ao pagamento da dívida interna e no câmbio sobrevalorizado. 

Este é o nó que precisa ser cortado... 

Evidentemente, pois sem cortar esse nó não conseguiremos desatar o desenvolvimento e elevá-lo ao patamar necessário, superior aos 6%, como bem tem defendido o presidente da República. É nossa compreensão que a prioridade do uso dos recursos públicos deve ser dada para alcançar o crescimento econômico com distribuição de renda, ampliando os investimentos governamentais na geração de empregos, no fortalecimento do poder de compra dos salários, na consolidação de uma ampla e justa reforma agrária, em uma reforma urbana que enfrente a especulação imobiliária, na construção de casas populares de forma massiva e na plena universalização do acesso à saúde e à educação. 

Para avançar, a saída passa por diálogo e pressão? 

Certo. Para nós da CUT, a negociação política e a mobilização da vontade popular são duas faces inseparáveis da mesma moeda. Assim como são necessárias as alianças partidárias, com cunho programático, para garantir e consolidar a aprovação das medidas populares no Parlamento, temos a convicção, que é imprescindível para o êxito desta empreitada a ação e reflexão militantes dos movimentos sociais. Na reunião realizada com o presidente Lula e os movimentos sociais, em meados de dezembro, expressamos o significado desta unidade, construída a partir da base das forças sociais, para a recente derrota da direita. No nosso entender, é preciso valorizar o espírito dessa comunhão de forças, tão fundamental para que o governo tenha pernas para acelerar na caminhada, braços para gesticular e cabeça para pensar.  

E a mídia? 

Ficou evidente, pela forma despudorada com que agiu nas últimas eleições, que a mídia necessita ser democratizada. É inadmissível continuarmos mantendo o povo brasileiro sobre o tacão do poder oligopólico e manipulador dos meios de comunicação. Sua democratização é fundamental para o avanço da democracia na sociedade brasileira. Diante disso, a CMS defende que o governo crie mecanismos de apoio e estímulo à instalação de rádios e televisões comunitárias, crie uma potente rede pública de tv, redistribua com justiça as verbas públicas de publicidade e se some à iniciativa da Telesur, filiando a Radiobrás. São medidas que apontam para avanços importantes, que levam em conta uma melhor formação política e cultural do nosso povo, com a informação deixando de ser uma mercadoria, um produto de manipulação e achincalhamento da verdade.   

É um momento único para o Brasil e para a América Latina. 

Temos a convicção de que neste momento ímpar pelo qual passam o Brasil e América Latina, particularmente com as vitórias no Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, aceleramos o passo rumo a uma integração efetiva, solidária e complementar. Entrelaçando passado, presente e futuro numa comunhão integracionista pela soberania e pela justiça social, às entidades representativas do povo brasileiro caberá um papel protagonista para a conquista da verdadeira e definitiva independência.

LEONARDO SEVERO 

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