Solução energética para o futuro da Humanidade (Parte II)
Criação da Empresa
Brasileira de Agroenergia - EBA
Bautista Vidal destaca que “é essencial” a existência de
empresa estatal “para promover ações necessárias ao bom uso de nossa grande
vocação”, em artigo cuja primeira parte foi publicada no número anterior
J. W. BAUTISTA VIDAL*
Uma segunda estratégia seria dar condições para que os produtores de óleos vegetais possam utilizar o óleo produzido “in”
natura, sem custos adicionais devido à produção do biodiesel usando para isto
motores apropriados que já existem ou utilizando “kits” de adaptação nos
motores atuais os quais não queimam o óleo “in” natura, e que exigem assim a
conversão do óleo vegetal em biodiesel, com a retirada da glicerina. Os óleo
vegetais são excepcionais combustíveis, fáceis de serem obtidos e mais baratos
que o biodiesel ou o óleo diesel do petróleo.
Os motores “Elsbett” são possíveis de serem produzidos
localmente em qualquer dos países integrantes do programa. Eles disporão de
excepcional mercado garantido pelos equipamentos e veículos dos produtores de
óleo. Os “kits” já são produzidos na região, ainda em pequena escala por falta
de demanda, o que seria superado com a criação da EBA que torna possível o
surgimento de milhões de pequenos produtores de óleos vegetais, de carne e
leite, de adubo orgânico, de aguardente, de açúcar mascavo, de lenha e carvão
vegetal e de álcool etílico, este para o mercado interno e o externo, de
grandes dimensões, em substituição aos derivados do petróleo.
SUCESSO
Essas estratégias provocarão redução de 30% nos custos
dos combustíveis tanto para o produtor do óleo como para o consumidor final,
razão de sucesso para a produção desses combustíveis renováveis por dezenas de
milhares, até milhões de pequenos produtores associados em pólos de
desenvolvimento energético protegidos pela Empresa Brasileira de Agroenergias
– EBA, que os agrega regionalmente. Cada um desses pólos seriam promovidos
inicialmente por Prefeituras, associação de produtores e movimentos sociais e
suas unidades, especialmente o seu conjunto, apoiadas pelo Estado brasileiro
por meio da EBA.
O capital da Empresa seria formado por participação de
entidades públicas indicadas pelo governo. Entidades estrangeiras poderão se
associarem ao empreendimento sem prejudicar o seu controle pelos nacionais.
Trata-se de contribuição estratégica para a almejada integração da região em
termos efetivos e práticos. A forma de participação estrangeira no capital da
Empresa deverá ser cuidadosamente estudada para manter a liderança desejada
sem parcerias espúrias que visam ao controle do programa diretamente ligado ao
futuro energético do mundo. A Empresa seria responsável pela coordenação das
exportações, permitindo-lhe processo de capitalização a ser aplicado com
prioridade em sistema de logística e distribuição, especialmente nas áreas
externas.
A imensa potencialidade de produção de energias
renováveis e limpas, dá à Empresa condições naturais e tecnológicas de
liderança, poderá permitir o suprimento mundial dessas energias, em vantajosa
substituição aos combustíveis e matérias primas fósseis e à integração do
continente latino americano, no momento em que a demanda de petróleo tende a
superar a oferta, provocando colapso econômico. Esta circunstância está
levando à guerra em expansão, ainda confinada ao Oriente Médio, mas com risco
de tornar-se global, apocalíptica, pelo aumento das tensões que motivam as
nações hegemônicas à invasão. Os grandes blocos consumidores de petróleo temem
a guerra já em andamento e apóiam esta iniciativa latino americana e
brasileira na direção da paz e da prosperidade mundial, por longo prazo, em
sistema sustentável e pacífico.
RESERVAS
Este programa visa também a garantir a aqueles países que
detêm grandes reservas de petróleo prolongar no tempo suas reservas pois as
alternativas vindas da biomassa tendem a reduzir suas demandas e ainda evitar
justificativas para potências militares invadirem seus territórios. Com a
produção de derivados da biomassa proposta neste programa não haverão
carências mundiais de combustíveis líquidos no mundo, pois os combustíveis
fósseis poderão ser substituídos por combustíveis renováveis, derivados da
biomassa, com vantagens comprovadas, produzidos nas regiões tropicais.
Tudo isto exige que o assunto seja tratado com
eficiência, competência e o realismo da sua verdadeira dimensão. Por isso, os
países de maior consumo, especialmente aqueles que não detêm grandes reservas
residuais de petróleo, cobram posicionamento dos países latino americanos para
ocuparem suas vocações naturais, especialmente do Brasil, resultante de
excepcionais vantagens comparativas na produção de combustíveis líquidos
tropicais, renováveis e limpos.
A Venezuela goza da privilegiada posição por ocupar a
Secretaria da OPEP, o que possibilita trazer aos demais países membros ao
apoio a este programa e por isso dar continuidade em paz ao processo de
fornecimento de petróleo sem colapsos econômicos, aquecimento global e
injustas invasões, nesta fase de transição.
O Brasil foi o único País que teve sucesso na montagem e
operação de eficiente programa nacional de substituição, com total êxito, de
derivado do petróleo por combustível renovável de origem vegetal e solar. Ele
é o único continente tropical, portanto com máxima potencialidade de energia
solar; dispondo da maior proporção de água doce entre os países tropicais.
Ademais com uma grande fronteira agrícola de terras férteis profundas
disponíveis. Detém consagrada experiência tecnológica, com centenas de
produtores de álcool em plena produção e também o melhor Centro Tecnológico
Agro-Industrial em operação do mundo, em Piracicaba,SP, financiado pelos
produtores de álcool e açúcar.
Na produção de óleos vegetais substitutos do óleo diesel
de petróleo, se seguirá o mesmo modelo do uso do pequeno produtor agregado em
pólos de produção com dezenas de milhares de produtores, visando a totalizar
um milhão de micro empreendimentos. Nada impede, quando as circunstancias
favoreçam, que se montem empreendimentos de maior porte, evitando sempre a
concentração de renda e de poder em determinados grupos. Haverá sempre a
alternativa da subsidiaria, autônoma e de objetivos bem definidos ou quando
haja a exigência de maior porte econômico ou de independência nas ações.
Um outro conjunto empresarial é o dos fazendeiros
florestais que produzem lenha e carvão vegetal para alimentar termoelétricas,
siderúrgicas, produtores de ferro gusas, de ferro-ligas e metalúrgicas em
geral. Estas unidades são muito necessárias em milhares de localidades onde
não existem linhas de transmissão elétrica ou abaixadoras dessas linhas e que
necessitam eletricidade de médio e pequeno portes. Extensas áreas do
território nacional passam assim a ter a possibilidade de transformar-se em
pólos de desenvolvimento auto-sustentáveis desde que contem com vasta
disponibilidade de termoelétricas alimentadas a lenha, carvão vegetal ou mesmo
óleos vegetais “in” natura. Quanto ao seu número há necessidade de estudos
mais detalhados para avaliar suas dimensões.
ÓLEOS VEGETAIS
Existem fundamentadas críticas ao programa de biodiesel.
Ele resulta da alteração da composição dos óleos vegetais ao retirar-lhes a
molécula de glicerina para satisfazer às exigências dos motores ciclo diesel
de baixa temperatura, tecnologia inadequada para a queima dos óleos vegetais
“in natura” devido à presença da glicerina nesses óleos. Este fato impede ao
pequeno produtor o uso direto nesses motores dos óleos que produzem. Existem
porém motores que queimam óleos vegetais “in natura”, são os motores Elsbett,
ciclo diesel de altas temperaturas, aos quais podem ser convertidos a partir
daqueles de baixa temperatura com o uso de “kits” já disponíveis. Portanto,
convém o uso do “kit” ou do próprio motor Elsbett que teria desde já o mercado
dos produtores de óleos vegetais e de pequenas e médias termelétricas onde não
existem linhas de transmissão ou abaixadoras. A estratégia seria que todo
produtor de óleo vegetal usasse motores com a tecnologia adequada que reduz
custos em relação ao biodiesel.
Enquanto a formação do petróleo, a partir da energia
solar, depende de centenas de milhões de anos de fossili-zação, sendo portanto
não renovável, o óleo de girassol, tendo também como origem a energia solar,
leva apenas cerca de dois meses para se formar desde o plantio. O mesmo tempo
reduzido ocorre com os demais óleos. As energias líquidas vegetais,
abundantes nos trópicos, representam portanto uma antecipação de centenas de
milhões de anos de uso de combustíveis de origem solar em relação aos
derivados do petróleo, garantindo sua continuidade, enquanto houver sol. O Sol
levará ainda uma dezena de bilhões de anos fornecendo energia até alcançar o
nível máximo de entropia quando se apagará. É esta base científica que
fundamenta a natureza sustentável da energia da biomassa, conceito ainda pouco
compreendido e que garante o entendimento da imensa dificuldade de existir
sistemas energéticos sustentáveis abundantes fora das regiões tropicais.
Seriam necessários a mudança dos princípios da termodinâmica e a possibilidade
do deslocamento da radiação solar dos trópicos para as regiões temperadas e
frias do planeta para que a afirmação acima perdesse consistência científica.
A incidência de energia solar por dia sobre o hemisfério
da Terra, situado a 150 milhões de kilômetros do Sol, equivale à energia de
todas as reservas de petróleo descobertas e inferidas. Ou à energia produzida
em 24 horas por 360 mil usinas hidrelétrica de Itaipu. Essa energia
concentra-se nas regiões tropicas e se tornam cada vez mais escassas a medida
que se aproximam dos pólos. A civilização do petróleo equivale portanto a um
dia da civilização possível nos trópicos.
Não basta porém a abundância de sol, é preciso também a
água doce abundante para permitir a conversão da energia eletromagnética do
sol em energia química de fácil produção e uso. Esta conversão é feita pela
fotossíntese das plantas em reação química endotérmica natural, sem custos
adicionais, com a captação do CO2 do ar e de água doce. Formam-se então os
hidratos de carbono e os óleos vegetais, a biomassa, base dos combustíveis
vegetais renováveis. Cada conversor- planta - tem o seu grau de eficiência que
varia por espécie vegetal. A cana de açúcar é um excelente conversor. Ela
somente cresce de modo adequado dentro de determinada faixa tropical de
latitudes.
FOTOSSÍNTESE
Há grande dificuldade técnica e de custos energéticos no
aproveitamento da energia diretamente do sol. Não existem tecnologias eficazes
de captação e armazenamento da energia eletromagnética do sol. Esta situação
ficou superada com o uso do processo de fotossíntese das plantas que converte
essa energia solar em energia química de fácil produção e que resulta em
combustíveis vantajosos substitutos dos derivados do petróleo. Na realidade,
esses combustíveis antecipam em centenas de milhões de anos os combustíveis
derivados do petróleo, tornando desnecessário o longo período de fossilização
que transformam os hidratos de carbono em hidrocarbonetos pela perda do
oxigênio e evita a contaminação química de fósforo, enxofre e outros
ingredientes retirados dos meios em que o petróleo se forma. Entre outras
inúmeras vantagens socioeconômicas e a não contribuição para o aumento de CO2
no ar, razão do efeito estufa, a ausência de produção da chuva ácida, a sua
natureza essencialmente renovável, compõem um conjunto amplo de
características que permitem pensar-se em um novo caminho para o processo de
evolução da humanidade que depende sempre de energia superando a guerra por
motivos energéticos e permitindo um longo período de crescente bem estar:
“nada se move ou se transforma no universo físico sem energia”, diz o 1º
Principio da termodinâmica. Este é um novo processo que permite a civilização
avançar com energia “plantada”. Já recebeu a feliz designação de Civilização
da Fotossíntese sustentável enquanto existir radiação solar.
BRASIL
O Sol é a estrela que compõe o sistema planetário da
Terra. Seu núcleo está a dezenas de milhões de graus de temperatura o que
permite reações de fusão nuclear, transformando matéria (H2) em energia pela
fórmula de Einstein : E=m.c2, sendo c a velocidade da luz no vácuo (300.000
km/seg) e m a massa de hidrogênio do sol. Isto permite a produção de uma
quantidade descomunal de energia eletromagnética tendo origem no sol, que se
espalha pelo universo, como ocorre com as demais estrelas. Na realidade o sol
é o único reator a fusão nuclear do sistema planetário da Terra, natural como
em todas as estrelas.
A Civilização da Fotossíntese torna-se possível tendo
por base o território tropical de parte importante da América Latina e permite
construir um novo processo evolutivo auto-sustentado, sem colapsos econômicos,
graves mudanças climáticas ou aquecimento global.
Os dirigentes que liderarem a criação dos instrumentos
institucionais essenciais à execução desses objetivos na América Latina,
especialmente no Brasil, conquistarão para sempre o respeito e a admiração dos
povos. É uma promessa e uma esperança que depende da criação desse instrumento
institucional que em termos práticos permite a ação para tornar efetivo os
objetivos possíveis nos trópicos da América do Sul como a região do planeta
capaz de abrigar a primeira civilização da fotossíntese. Seus dirigentes têm a
perspectiva única de transformar em realidade esse extenso painel de
benefícios para o seu povo.
O veículo deste novo modelo
econômico são os pequenos produtores rurais e o suporte físico indiscutível
são os excepcionais patrimônios naturais desta privilegiada região, aliados à
operosidade e inteligência de seu povo e a uma natureza esplendorosa. O
essencial para o uso dessas condições especiais é a existência de instrumento
operativo eficaz, uma empresa de economia mista para promover as ações
necessárias ao bom uso de nossa grande vocação de único continente tropical do
planeta.