Raça não existe. E daí?
*NEI LOPES
Numa chanchada da
Atlântida nos anos 50, quando todos os telefones eram pretos, numa cena
realmente engraçada, de repente um personagem - vivido talvez pelo cômico
Ankito - vendo o braço nu do saudoso Grande Otelo apoiado no balcão de um
botequim, pega-o sem cerimônia, leva o cotovelo à boca e diz: - Alô!
Era o tempo em que
os artistas do palco e do gramado chamavam-se Blecaute, Chocolate, Escurinho,
Gasolina, Jaburu, Jamelão, Noite Ilustrada, Veludo, etc. Quando as letras dos
sambas e marchas cantavam sem problemas a “nega do cabelo duro”, a “nega
maluca”; e até o “crioulo doido” e a “nega luxuosa que se fosse cor de rosa
era estrela de balé” (estes um pouquinho depois). E em que poderosos jornais,
acusavam, até em editoriais, as comunidades religiosas afro-brasileiras como
“focos de ignorância e desequilíbrio mental”.
Dá até saudade desse
velho e ingênuo racismo! Porque hoje, com a precisão científica de uma guerra
bacteriológica, o neo-racismo brasileiro usa principalmente a estratégia de
negar sua própria existência, para assim neutralizar as iniciativas que visam
efetiva e maciçamente incluir na sociedade abrangente, tirando da “periferia”
para o centro das decisões, o segmento afro da população brasileira.
Cada vez mais
inteligente e sofisticado, o novo racismo brasileiro aceitou a divisão dos
afrodescendentes em “pretos e pardos” (já que nunca se pensou em segmentar os
não-negros em “louros e morenos”) até o momento em que os “pardos” começaram a
se ver negros e a pesar na balança. Antes, esse neo-racismo já havia negado as
peculiaridades culturais e psíquicas formadoras do nosso temperamento e da
nossa espiritualidade afro-originados.
Ao mesmo tempo que,
no campo da cultura e do entretenimento, argumentando que o fazer dos
afro-brasileiros é apenas brasileiro e não afro, pôs-se a utilizar-se dele, em
proveito próprio, no balcão de trocas da indústria cultural. No cinema,
especificamente, passou a preferir os filmes de ação ambientados em favelas,
talvez para sublinhar uma suposta violência do povo negro; e na televisão,
privilegiando montagens de época exibidas em horários vespertinos, o faz
talvez para perpetuar o estereótipo do negro subalterno, escravo, embora às
vezes revoltado.
Assim age o novo
racismo na mesma medida que nega a legitimidade de um pensamento
afro-brasileiro autônomo, para continuar mantendo a hegemonia do segmento
dominante, o euro-ocidental, no campo do saber letrado. Daí, quando um de nós
afro-descendentes consegue externar seu pensamento através de uma grande mídia
e com alguma repercussão, somos logo arrogantemente agredidos, acusados de
xenófobos e reacionários, ao mesmo tempo que vemos lançada a culpa da
escravidão africana sobre os próprios nativos do continente. Daí também o
sofisma segundo o qual com uma boa educação de base (em quanto tempo?) todo o
problema etnosocial no Brasil se resolverá.
Até então, tudo isso
vinha meramente especulado, sob a alegação de que o Brasil é um país mestiço,
onde “não se pode comprovar quem efetivamente são os negros” - embora essa
mestiçagem nunca se tenha visto na fenotipia do Poder, como agora já se
observa na Bolívia e na Venezuela e não se nota no México, por exemplo. Até
então, era assim. Mas agora, finalmente, o racismo chega ao DNA. Para provar o
óbvio: que boa parte dos afro-brasileiros tem sangue europeu; e que esse
sangue vem predominantemente pelo lado materno - ao que perguntamos: por força
do amor ou do estupro?
Brandindo
estatísticas ou testes de DNA e provando sempre o óbvio, o novo racismo
brasileiro o que deseja é mostrar que “raça não existe” e que está tudo bem,
desde que “pretos e pardos” reconheçam seu lugar, o qual não é o mesmo dos
“louros e morenos”.
Hoje, qualquer
estudante bem informado sabe que os seres humanos têm uma origem comum, num
mesmo grupo saído da África há muitos milhões de anos. Que as diferenças
físicas deveram-se à adaptação aos novos e diversos ambientes encontrados na
longa caminhada. E que o ultrapassado conceito de “raça” foi há muito
substituído pelos de cultura e etnia.
Mas, convenhamos:
pra quê serve isso tudo? Vá essa Ciência dizer ao porteiro do prédio “bacana”
que os de pele escura também têm direito ao elevador social. Vá ela dizer ao
policial truculento que o jovem de cabelo carapinha também pode ser dono de um
carro do ano. Vá explicar ao gerente do banco que o jovem negro candidato a
bancário pode ser também honesto, inteligente e capaz. Vá dizer ao mercado que
a trabalho igual tem que corresponder remuneração igual. Vá explicar para a
negra do campo que não foi por ela ter “barriga limpa”, como lhe ensinaram,
que seu filho nasceu com pele clara. Vá, enfim, a Ciência reler para o Estado
brasileiro os capítulos I e II da Constituição Federal!
Sabe o que eles vão
pensar ou responder? “Raça não existe!”. Mas se ainda houvesse telefone preto,
certamente, pelo menos um deles diria “alô” no cotovelo do “crioulo” no
balcão.
(*) Texto
reproduzido de “Meu Lote” (www.neilopes.blogger.com.br)