Carta ao presidente Lula
defende “uma legítima e democrática Conferência Nacional de Comunicações”
Publicamos abaixo a íntegra da Carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, aprovado por aclamação no encontro:
“É notória a importância da comunicação na formação de valores e opiniões, no
fomento e na produção das culturas e nas relações de poder. Por isso, a
compreensão da comunicação como um direito humano é condição fundamental para
que este processo social seja voltado à promoção da emancipação de homens e
mulheres, na consolidação de uma efetiva democracia e na construção de um País
justo e soberano.
No Brasil, ainda há um grande caminho a percorrer para que a comunicação
cumpra este papel. O modelo vigente é marcado pela concentração e a
hipertrofia dos meios em poucos grupos comerciais, cujas outorgas são obtidas
e renovadas sem controle da sociedade e sem critérios transparentes. O
predomínio da mídia comercial marca também a fragilidade dos sistemas público
e estatal, que só agora estão entrando na pauta de preocupação de Estado com o
debate sobre a criação de uma rede pública de televisão. Este quadro vem sendo
mantido pela ausência do debate e pela exclusão do interesse público na
elaboração e aprovação das políticas públicas e de regulação que organizam a
área. Historicamente, as decisões relativas à comunicação no Brasil têm sido
tomadas à revelia dos legítimos interesses sociais, quase sempre apoiadas em
medidas administrativas e criando situações de fato que terminam por se
cristalizarem em situações definitivas.
A
necessidade de corrigir tais distorções históricas emerge justamente na hora
em que a convergência digital torna cada vez mais complexo o processo de
produção, difusão e consumo das informações. Frente a isso torna-se urgente a
redefinição de um novo e legítimo marco institucional para as comunicações,
haja vista que a legislação para as comunicações carecem de revisão seja pela
necessidade de sua atualização, seja por falta de regulamentação específica
dos princípios constitucionais ou, ainda, por sua inadequação à noção da
comunicação como direito humano e social.
Isso inclui o debate sobre a comunicação em toda a sua complexidade,
envolvendo todos seus setores, bem como a interface destas áreas com a
cultura, a educação, a saúde, as tecnologias e a cidadania. Ressaltamos aqui
que não se trata apenas da reflexão sobre os meios, a cadeia produtiva e os
sistemas, mas sim, das diversas formas pelas quais o conteúdo, enquanto
conhecimento, cultura, lazer e informação - inclusive comercial -, são
produzidos, difundidos, assimilados e usufruídos pela população.
Diante de todos estes pontos, nós, parlamentares, pesquisadores, trabalhadores
e representantes dos movimentos sociais e de entidades voltadas à
democratização da comunicação, presentes ao Encontro Nacional de Comunicação,
convocado pelas comissões de Ciência Tecnologia, Comunicação e Informática e
de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, vemos na realização da
Conferência Nacional de Comunicações - legítima e democrática - a oportunidade
concreta para enfrentarmos este debate.
A
Conferência Nacional de Comunicações pode constituir um marco histórico de
mudança da relação passiva da população com a mídia, significando uma inflexão
no histórico de baixa abertura do Estado brasileiro à participação social na
elaboração, acompanhamento e avaliação das políticas públicas para o setor.
Para que a Conferência cumpra este papel, é fundamental que ela se constitua
como processo e inclua, entre outras coisas:
-
A sua incorporação como compromisso dos poderes da República, especialmente do
Executivo Federal com todos seus órgãos relacionados ao setor; bem como o
Congresso Nacional, o Judiciário e o Ministério Público;
-
A adoção do princípio da ampla e democrática participação como forma de trazer
as contribuições das mais várias representações da sociedade organizada para o
debate da Conferência;
-
O mais amplo envolvimento da população através da realização de etapas
estaduais e regionais antes da etapa nacional;
-
A inclusão da sociedade civil no processo de organização da Conferência,
garantindo inclusive meios materiais para esta participação; e
-
O compromisso de, a partir do debate com métodos democráticos, construir
linhas gerais para um novo momento nas políticas públicas para as
comunicações; entendendo que qualquer mudança substancial nas políticas
vigentes deva ser feita somente a partir das deliberações da Conferência.
Tais preceitos não são uma novidade resultante de elaboração deste Encontro
Nacional de Comunicação, mas a reafirmação de formatos de construção que vêm
marcando a realização das conferências promovidas por este governo. Já no caso
da comunicação, estranhamos o anúncio do Ministério das Comunicações sobre a
realização de um evento que está sendo chamado de “conferência nacional” já
para o mês de agosto de 2007. O caráter sinalizado pelo Minicom contrasta com
os procedimentos adotados por este governo em outras conferências, pois
inviabiliza a construção democrática e a organização de etapas prévias
estaduais e regionais preparatórias que garantam a legitimidade da Conferência
Nacional de Comunicações.
Esperamos que a coerência e o respeito às experiências relativas às
conferências sejam a tônica da construção deste processo no setor da
comunicação. Do contrário, este governo corre o risco de promover aparentes
processos democráticos enquanto perpetua o alijamento dos cidadãos brasileiros
da definição sobre os rumos deste instrumento fundamental à democracia em
nosso País.
Encontro Nacional de Comunicação: na luta por democracia e direitos humanos
Brasília, 22 de junho
de 2007