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Os fundamentos da máquina de matar (I)

Em seu artigo, que tem por título “A tirania mundial”,  cuja primeira parte publicamos, o dirigente cubano denuncia as tentativas da CIA de assassiná-lo

Fidel Castro

Aqueles que constituíram a nação norte-americana jamais imaginaram que o que então proclamavam levava consigo, como qualquer outra sociedade histórica, os germes de sua própria transformação.

Na atrativa Declaração de Independência de 1776, que na quarta-feira passada fez 231 anos, afirmava-se algo que de uma maneira ou outra cativou muitos de nós: “Sustentamos como verdades evidentes que todos os homens nascem iguais; que a todos confere seu Criador certos direitos inalienáveis entre os quais se contam a vida, a liberdade e a consecução da felicidade; que para garantir estes direitos são instituídos entre os homens governos cujos justos poderes derivam do consentimento dos governados; que sempre que uma forma de governo tenda a destruir estes objetivos, o povo tem direito a reformá-la ou aboli-la, e instituir um novo governo que seja fundado sob esses princípios e organize seus poderes na forma que a seu juízo garanta melhor sua segurança e sua felicidade.”     

Era o fruto da influência dos melhores pensadores e filósofos de uma Europa abatida pelo feudalismo, pelos privilégios da aristocracia e pelas monarquias absolutas.

Jean-Jacques Rousseau afirmou em seu famoso Contrato Social: “O mais forte jamais é o suficientemente forte para ser o amo, se não transforma a força em direito e a obediência em dever.” [...] “A força é um poder físico; não vejo que moralidade possa se derivar de seus efeitos. Ceder à força é um ato de necessidade, não de vontade.”   [...] “Renunciar à liberdade é renunciar à qualidade do homem, aos direitos da Humanidade, inclusive a seus deveres. Não há recompensa possível para aquele que renuncia a tudo.” 

ESCRAVIDÃO 

Nas 13 colônias independentizadas existiam adicionalmente formas de escravidão tão atrozes como nos tempos antigos. Homens e mulheres eram vendidos em leilão público. A emergente nação surgia com religião e cultura próprias. Os impostos sobre o chá foram a faísca que desatou a rebelião.

Naquelas infinitas terras os escravos mantiveram sua condição durante mais de 100 anos, e depois de dois séculos seus descendentes sofrem as seqüelas. Existiam comunidades indígenas que eram os legítimos habitantes naturais, florestas, água, lagos, rebanhos de milhões de bisões, espécies naturais de animais e plantas, abundantes e variados alimentos. Não se conheciam os hidrocarbonetos nem os enormes esbanjamentos energéticos da sociedade atual. A mesma declaração de princípios, se tivesse sido proclamada nos países que abrange o Deserto do Saara, não criaria um paraíso de imigrantes europeus.  Hoje teríamos que falar dos imigrantes dos países pobres, que aos milhões atravessam ou tentam atravessar as fronteiras dos Estados Unidos cada ano em busca de trabalho e não têm direito nem à paternidade de seus filhos se nascem em território norte-americano.

A Declaração de Filadélfia é redigida numa época em que só existiam pequenas tipografias e as cartas demoravam meses a chegarem de um país para o outro. Podiam ser contados um a um os poucos que sabiam ler e escrever. Hoje a imagem, a palavra, as idéias chegam em frações de segundo de um canto a outro do planeta globalizado. Criam-se reflexos condicionados nas mentes. Não se pode falar do direito ao uso, mas sim ao abuso da livre expressão e da alienação  em massa. Ao mesmo tempo, com um pequeno equipamento eletrônico qualquer pessoa, em época de paz, pode fazer chegar ao mundo suas idéias sem que o autorize nenhuma Constituição. A luta seria de idéias, em todo caso massa de verdades contra massa de mentiras. As verdades não precisam da publicidade comercial. Ninguém poderia estar em desacordo com a Declaração de Filadélfia e com o Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau. Em ambos os documentos sustenta-se o direito a lutar contra a tirania mundial estabelecida. 

CARNIFICINA 

Podemos ignorar as guerras de saque e as carnificinas impostas aos povos pobres, que constituem as três quartas partes do planeta? Não! São muito próprias do mundo atual e de um sistema que não pode sustentar-se de outra forma. A um custo político, econômico e científico enorme, a espécie humana é conduzida à  beira  do abismo.

Meu objetivo não é reiterar conceitos mencionados noutras reflexões. Partindo de fatos simples, meu propósito é demonstrar o imenso grau de hipocrisia e a ausência total de ética que caracterizam as ações, caóticas por natureza, do governo dos Estados Unidos.

Em “A máquina de matar”, publicada no domingo passado, eu disse que a tentativa de me envenenar através de um funcionário do governo cubano que tinha acesso ao meu escritório, foi conhecida por nós por um dos últimos documentos desclassificados da CIA. Era uma pessoa sobre a qual devia procurar informação, pois não possuía os elementos de juízo necessários. De fato pedia desculpas caso ferisse os sentimentos de algum descendente, fosse ou não culpada a pessoa mencionada. Depois continuei analisando outros temas importantes das revelações da CIA.

Nos primeiros tempos da Revolução eu visitava quase todos os dias o recém-criado Instituto Nacional da Reforma Agrária, que ocupava o prédio onde se encontra hoje o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias. Ainda não se podia contar com o Palácio da Revolução, onde se encontrava naquela época o Palácio da Justiça. Sua construção foi um suculento negócio do regime derrocado. O principal lucro consistia no aumento do valor das terras, das quais foram desalojados milhares de pessoas às quais eu, como advogado recém-formado, defendi gratuitamente durante meses antes do golpe de Estado de Batista. O mesmo acontecia com outras edificações luxuosas que em muitos casos estavam em obras.

Dos escritórios do INRA escutei, no dia 4 de março de 1960, a estrondosa explosão do navio La Coubre e observei a escura coluna de fumaça que emergia do porto de Havana. Veio rápido a minha mente a idéia do navio carregado de granadas antitanques e anti-pessoais que podiam ser lançadas por fuzis FAL adquiridos na Bélgica, país nada suspeito de comunismo. Imediatamente desci para me dirigir a esse lugar. Durante o trajeto, pelo barulho e pelo trepidar do trânsito, não percebi a segunda explosão que aconteceu. Mais de 100 pessoas morreram e dezenas ficaram mutiladas. No funeral das vítimas nasceu, espontaneamente, o grito de Pátria ou Morte.

Sabe-se que tudo foi programado minuciosamente desde o porto de embarque pela Agência Central de Inteligência. O navio tinha transitado pelos portos de Le Havre, Hamburgo e Antuérpia. Neste último, da Bélgica, carregaram-se as granadas. Nas explosões do navio morreram também vários tripulantes franceses.

Por que, em nome da liberdade de informação, não se desclassifica um só documento que nos diga como a CIA há já quase meio século fez com que estourasse o vapor “La Coubre” e se interrompesse o fornecimento de armas belgas, que a própria agência admitiu, em 14 de junho de 1960, era uma preocupação muito importante dos Estados Unidos?

A que dedicava eu meu tempo nos dias febris que precederam o ataque pela Baía dos Porcos?

A primeira grande limpeza realizada no Escambray teve lugar durante os últimos meses de 1960 e no começo de 1961. Nela participaram mais de 50 mil homens, quase todos provenientes das antigas províncias de Havana e Las Villas.

Um rio de armas chegava em navios da URSS que não estouravam quando chegavam aos portos. Foi inútil tentar comprá-las de outra procedência e desta maneira evitar os pretextos que os Estados Unidos utilizaram para agredir Guatemala, o que custou a esse país no decurso do tempo, mais de cem mil vidas entre mortos e desaparecidos.

Na Tchecoslováquia adquirimos as armas leves e um número de antiaéreas de 20 milímetros e canhão duplo. Os tanques com canhões de 85 milímetros, artilharia blindada de 100, canhões antitanques de 75, morteiros, obuses e canhões de grosso calibre, até os de 122 milímetros, e antiaéreas leves e pesadas, vinham diretamente da URSS.

Pelo menos um ano teria demorado a formação do pessoal necessário para utilizar aquelas armas seguindo os métodos tradicionais. Foi levada a cabo em poucas semanas. A essa tarefa fundamental dedicávamos praticamente cem por cento de nosso tempo durante dois anos após o triunfo da Revolução.

VIGÍLIA 

Sabíamos da iminência do ataque, mas não quando nem como aconteceria. Todos os possíveis pontos de acesso estavam defendidos ou vigiados. Os chefes, em seus lugares: Raúl em Oriente, Almeida no centro e o Che em Pinar del Rio. Meu posto de comando estava na capital: uma antiga casa burguesa adaptada para isso na margem direita mais alta do rio Almendares, próximo ao ponto onde desemboca para o mar.

Já tinha amanhecido, era o dia 15 de abril de 1961, e desde as primeiras horas da madrugada ali estava eu recebendo notícias da província de Oriente, aonde chegou procedente do sul dos Estados Unidos, um navio comandando por Nino Díaz, com um grupo de contra-revolucionários a bordo vestidos com uniforme de cor verde-oliva similar ao das nossas tropas, para desembarcar pela zona de Baracoa. Faziam-no como manobra de engano a respeito do lugar exato da direção principal, para criar a maior confusão possível. O navio estava já na mira dos canhões antitanques, à espera do desembarque, que finalmente não aconteceu.

Também informavam que no dia 14 à noite tinha explodido, em vôo de exploração sobre a zona do possível desembarque, um dos nossos três aviões a jato, de treino, mas capazes de combater, sem dúvida uma ação ianque vinda da base naval de Guantânamo ou de qualquer outro ponto do mar ou do ar. Não havia radares para determinar com exatidão o que tinha acontecido. Foi assim que morreu o valioso piloto revolucionário Orestes Acosta.

Do posto de comando mencionado pude ver os B-26 que voavam quase rasantes sobre o lugar e, poucos segundos depois, escutar os primeiros foguetes lançados de surpresa contra nossos jovens artilheiros, que em grande número treinavam na base aérea de Ciudad Libertad. A resposta daqueles valentes foi quase instantânea.

Não tenho, por outra parte, nenhuma dúvida de que Juan Orta foi um traidor. Os dados pertinentes sobre sua vida e conduta estão onde devem estar: nos arquivos do Departamento da Segurança do Estado, que nasceu por esses anos sob o fogo do inimigo. Os homens de maior consciência política foram responsabilizados por essa atividade. 

VENENO 

Orta recebeu os comprimidos envenenados que propuseram Giancana e Santos Trafficante a Maheu. A conversa deste último com Roselli, que desempenharia o papel de contacto com o crime organizado, teve lugar em 14 de setembro de 1960, meses antes da eleição e da tomada de posse de Kennedy.

O traidor Orta não tinha méritos especiais. Mantive correspondência com ele quando procurávamos o apoio de emigrantes e exilados nos Estados Unidos. Era reconhecido por sua aparente preparação e sua atitude solícita.  Para isso tinha especial habilidade. Depois do triunfo da Revolução, num importante período teve com freqüência acesso a mim. Partindo das possibilidades que então teve, acreditaram que podia introduzir o veneno num refrigerante ou num suco de laranja.

Tinha recebido dinheiro do crime organizado por ajudar supostamente a reabrir as casas de jogo. Nada teve a ver com essas medidas. Fomos nós os que decidimos isso. A ordem inconsulta e não colegiada de Urrutia de fechá-los criava caos e promovia os protestos de milhares de trabalhadores do setor turístico e comercial, quando o desemprego era muito alto.

Transcorrido algum tempo, os cassinos foram fechados definitivamente pela Revolução.

Quando lhe entregam o veneno, ao contrário do que acontecia nos primeiros tempos, eram muito poucas as possibilidades de que Orta se encontrasse comigo. Eu estava completamente ocupado nas atividades referidas anteriormente.

Sem dizer uma palavra a ninguém sobre os planos inimigos, em 13 de abril de 1961, dois dias antes do ataque às nossas bases aéreas, Orta se asilou na embaixada da Venezuela, que Rômulo Betancourt pôs ao serviço incondicional de Washington. Aos inúmeros contra-revolucionários asilados ali não lhes foi concedida autorização de saída até que diminuíram as brutais agressões armadas dos Estados Unidos contra Cuba.

Já tínhamos lidado no México com a traição de Rafael del Pino Siero, que depois de desertar quando apenas restavam dias para nossa saída rumo a Cuba, data que ele ignorava,  vendeu a Batista por US$ 30 mil importantes segredos relacionados com uma parte das armas e com a embarcação que nos transportaria até Cuba. Com refinada astúcia dividiu a informação para ganhar confiança e garantir o cumprimento de cada parte. Primeiro receberia alguns milhares de dólares pela entrega de dois depósitos das armas que conhecia. Uma semana depois entregaria o mais importante: a embarcação que nos traria para Cuba e o lugar de embarque. Todos podíamos ser capturados junto com o resto das armas, mas antes deviam entregar-lhe a totalidade do dinheiro. Certamente recebeu assessoria de algum especialista ianque.  

SIERRA MAESTRA 

Apesar de sua traição, saímos do México no iate “Granma” na data marcada. Algumas pessoas que nos apoiavam achavam que Pino jamais trairia, que sua deserção se devia a seu descontentamento pela disciplina e o treinamento que lhe exigi. Não direi como soube da operação urdida entre ele e Batista, mas recebi a informação precisa e adotamos as medidas pertinentes para proteger o pessoal e as armas durante o trajeto  para Tuxpan, ponto de partida. Aquela valiosa informação não custou nem um tostão.

Quando finalizou a última ofensiva da tirania na Sierra Maestra, tivemos que lidar igualmente com os truques temerários de Evaristo Venereo, um agente do regime que, disfarçado de revolucionário, tentou se infiltrar no México.

Era o enlace com a policia secreta daquele país, órgão muito repressivo ao qual ofereceu assessoria no interrogatório de Cándido González, a quem colocaram nesse momento uma venda nos olhos.  Foi um dos poucos companheiros que conduzia o automóvel em que eu me movimentava, militante heróico assassinado depois do desembarque.

Evaristo regressou depois a Cuba. Tinham-no encargo de assassinar-me quando nossas forças avançavam já para Santiago de Cuba, Holguín, Las Villas e o Ocidente de nosso país. Soubemos disso detalhada-mente quando foram ocupados os arquivos do Serviço da Inteligência Militar. Está documentado.

Tenho sobrevivido a inúmeros planos de assassinato. Só o acaso e o hábito de observar cuidadosamente cada detalhe permitiram-nos sobreviver aos ardis de Eutimio Guerra, nos dias iniciais e mais dramáticos da Sierra Maestra, todos os que depois foram conhecidos como chefes da Revolução triunfante: Camilo, Che, Raúl, Almeida, Guillermo. Teríamos morrido possivelmente quando quase conseguem exterminar-nos com um ridículo cerco de nosso desprevenido acampamento, guiados pelo traidor. No breve choque que teve lugar, tivemos uma baixa muito dolorosa, a de um operário açucareiro negro, maravilhoso e ativo combatente, Julio Zenón Acosta, que se adiantou uns passos e tombou ao meu lado. Outros sobreviveram ao mortal perigo, e tombaram combatendo posteriormente, como Ciro Frías, excelente companheiro e promissor chefe, em Imías, na Segunda Frente; Ciro Redondo, que combatia tenazmente o inimigo com forças da coluna do Che, em Marverde, e Julito Díaz que, disparando sem cessar sua metralhadora calibre 30, morreu muito perto de nosso posto de comando no ataque a El Uvero.

EMBOSCADA 

Estávamos emboscados num lugar bem escolhido, à espera do inimigo, porque conhecíamos os movimentos que ia fazer esse dia.  Descuidamos nossa atenção por uns minutos quando chegaram dois homens do grupo, que tínhamos enviado como exploradores horas antes de tomar a decisão de movimentar-nos, e regressaram sem informação alguma.

Eutimio guiava o inimigo com camisa guaiabera branca, o único que se via na floresta do Alto de Espinosa, onde estávamos à espera. Batista tinha preparada a notícia da eliminação do grupo, que era segura, e convocado a imprensa. Por excesso de confiança, tínhamos subestimado realmente o inimigo, que se apoiava nas debilidades humanas. Nesse momento éramos por volta de 22 homens bem curtidos e escolhidos. Ramiro, com uma perna lesionada, recuperava-se longe de nós.

De grande golpe, devido ao movimento que fizemos num último momento,  se livrou esse dia a coluna de mais de 300 soldados que avançavam em fila indiana pelo escarpado e florestado cenário.     

Como funcionou aquela máquina  perante a Revolução em Cuba?

Bem pouco após ter triunfado a Revolução, em abril de 1959, visitei os Estados Unidos convidado pelo Clube de Imprensa de Washington. Nixon dignou-se a me receber em seu escritório particular. Depois afirmou que eu era um ignorante em matéria de economia.

Eu estava tão ciente dessa ignorância, que me matriculei em três cursos universitários para obter uma bolsa que me permitisse estudar Economia em Harvard. Já tinha vencido e examinado todas as disciplinas da carreira de Direito, Direito Diplomático e Ciências Sociais. Apenas restavam por examinar: História das Doutrinas Sociais e História das Doutrinas Políticas.  Tinha-as estudado minuciosamente. Nesse ano nenhum outro aluno fez o esforço. Estava livre o caminho, mas os acontecimentos precipitavam-se em Cuba e compreendi que não era o momento de receber uma bolsa e estudar Economia.

Fui a Harvard de visita no fim 1948. De regresso a Nova York, adquiri uma edição de El Capital  em inglês para estudar a obra insigne de Marx e também, aprofundar no domínio desse idioma. Não era um militante clandestino do Partido Comunista como Nixon, com seu olhar ardiloso e esquadrinhador, pensou. Se algo posso assegurar, e o descobri na Universidade, é que fui primeiro comunista utópico e depois um socialista radical em virtude de minhas próprias análises e estudos, e disposto a lutar com estratégia e tática adequadas.

(Continua na próxima edição)
 

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11/07/2007
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