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Os fundamentos da máquina de matar (II)

Nesta segunda parte do artigo intitulado “A tirania mundial”, o líder cubano denuncia que as agressões contra Cuba “começaram com Eisenhower e Nixon”

FIDEL CASTRO

O único que me preocupava ao falar com Nixon era a repugnância em explicar com franqueza meu pensamento a um vice-presidente, e possível futuro presidente dos Estados Unidos, especialista em concepções econômicas e métodos imperiais de governo nos quais fazia um tempão que eu não acreditava.

Qual foi a essência daquela reunião que durou horas, segundo conta o autor do memorando desclassificado que faz referência a ela? Só disponho da lembrança do acontecido. Desse memorando selecionei os parágrafos que segundo a minha opinião explicam melhor as idéias de Nixon.

NIXON

“Castro estava particularmente preocupado se havia  irritado o senador Smathers pelos comentários que fez em relação a ele. No começo da conversa garanti-lhe que ‘Meet the Press’ era um dos programas mais difíceis no qual um funcionário público podia participar e que ele o tinha feito extremamente bem — particularmente tendo em conta o fato de que teve a coragem de falar inglês sem utilizar um tradutor.

“Também era  evidente que no concernente a sua visita aos Estados Unidos, seu interesse fundamental ‘não era conseguir uma mudança na quota açucareira nem obter um empréstimo do governo, mas sim ganhar o apoio da opinião pública estadunidense para sua política’.

“Foi sua  quase  subordinação escrava à opinião majoritária prevalecente — isto é, a voz da plebe — mais do que sua ingênua atitude para com o comunismo e sua óbvia falta de compreensão dos mais elementares princípios econômicos, o que mais me preocupou ao avaliar que classe de líder seria no futuro. Essa é a razão pela qual passei todo o tempo que pude tentando insistir em que se bem ele tinha o grande dom da liderança, a responsabilidade do líder era não acompanhar sempre a opinião pública, e sim ajudar a encaminhá-la pela via correta, não dar ao povo o que acha que quer num momento de tensão emocional, porém conseguir que o povo queira o que deve ter.

“Quando me correspondeu falar, tentei insistir no fato de que embora nós acreditamos no governo da maioria, inclusive a maioria pode ser tirânica e que há certos direitos individuais que a maioria jamais deveria ter o poder de destruir.

“Francamente acho que não causei muito efeito nele, mas sim me escutou e parecia receptivo. Tentei de lhe apresentar a idéia basicamente em termos de como seu lugar na história estaria determinado pela valentia e pela habilidade de estadista que demonstrasse nestes momentos. Insisti em que o mais fácil seria seguir a plebe, mas fazer o correto finalmente seria melhor para o povo e, logicamente, melhor para ele também. Como já disse, foi incrivelmente ingênuo com relação à ameaça comunista e parecia não ter medo de que os comunistas finalmente pudessem obter o poder em Cuba.

“Em nossas conversas sobre o comunismo, tentei novamente expor-lhe os argumentos à luz de seu próprio interesse e assinalar  que a revolução que ele tinha dirigido, poderia voltar-se contra ele e  contra o povo cubano a menos que mantivesse o controle da situação e garantisse que os comunistas não alcançassem as posições de poder e influência. Nesse sentido, não acredito ter conseguido muito.

“Insisti o máximo possível na necessidade de que delegasse responsabilidades, contudo, mais uma vez acho que não consegui me fazer entender.

“Era evidente que enquanto falava de questões como a liberdade de palavra, de imprensa e de religião, sua preocupação fundamental era desenvolver programas para o progresso econômico. Repetiu uma e outra vez que um homem que trabalhava nos canaviais apenas três meses e passava fome no resto do ano, queria um trabalho, qualquer coisa para comer, uma casa e algo de roupa.

BATISTA

“Salientou que era uma grande tolice que os Estados Unidos entregassem armas a Cuba ou a qualquer outro país do Caribe. Acrescentou: ‘todo mundo sabe que nossos países não vão poder participar na defesa deste hemisfério se estoura uma guerra mundial. As armas que obtém os governos neste hemisfério apenas são utilizadas para reprimir o povo, assim como o fez Batista para tentar acabar com a Revolução. Seria muito melhor que o dinheiro que vocês entregam aos países da América Latina para armas fosse destinado a investimentos de capital.’ Devo reconhecer que em seus argumentos apenas encontrei motivos para discrepar.

“Tivemos uma longa conversa sobre as vias que Cuba poderia utilizar para obter o capital de investimento necessário para seu desenvolvimento econômico. Insistiu em que basicamente o que Cuba necessitava e ele queria, não era capital privado, e sim capital do governo.”

Eu me referia a capital do governo de Cuba.

O próprio Nixon reconhece que jamais solicitei recursos ao governo dos Estados Unidos. Ele ficou um pouco atrapalhado e afirmou:

“... que o capital do governo estava limitado devido às muitas exigências e aos problemas orçamentários com os quais estávamos nos deparando.”

É evidente que o expliquei porque logo depois assinala em seu memorando:

“... que todos os países da América e do mundo pugnavam por obter capital e que o dinheiro não iria parar em um país sobre o qual existissem consideráveis temores de que se adotassem políticas que discriminassem as empresas privadas.

 “De novo, neste ponto, não acho ter conseguido grande coisa.

 “Tentei com muito cuidado insinuar a Castro que Muñoz Marin tinha feito um magnífico trabalho em Porto Rico no que se refere à atração do capital privado e de maneira geral, no aumento do nível de vida de seu povo, e que Castro muito bem podia enviar a Porto Rico um de seus principais assessores econômicos para ter uma conversa com Muñoz Marin. Esta sugestão não o entusiasmou muito e expressou que o povo cubano era ‘muito nacionalista’ e suspeitaria de qualquer programa iniciado num país considerado como ‘colônia’ dos Estados Unidos.

“Inclino-me a pensar que a verdadeira razão de sua atitude é simplesmente que não estava de acordo com a firme posição de Muñoz como advogado defensor da empresa privada e não queria conselhos que pudessem desviá-lo de seu objetivo de encaminhar Cuba para uma economia mais socialista.

“Nos Estados Unidos não deveria se falar tanto sobre seus temores do que poderiam fazer os comunistas em Cuba ou em algum outro país da América Latina, da Ásia ou da África.

“Também tentei colocar em contexto nossa atitude para com o comunismo ao assinalar que o comunismo era algo mais do que um simples conceito e que seus agentes eram perigosamente eficazes para tomar o poder e estabelecer ditaduras.

“É bom salientar que não fez nenhuma pergunta relacionada com a quota açucareira e nem sequer mencionou especificamente a ajuda econômica.

“Minha avaliação dele como homem, é de alguma maneira ambivalente. Do que sim podemos estar certos é de que possui essas qualidades indefiníveis que o convertem num líder de homens. Independentemente do que pensemos sobre dele, será um grande fator no desenvolvimento de Cuba e muito possivelmente nos assuntos da América Latina em geral. Parece ser sincero, mas ou é incrivelmente ingênuo a respeito do comunismo ou está sob a tutela comunista.

“Mas, como tem o dom da liderança ao qual me referi, o único que poderíamos fazer é, pelo menos, tentar orientá-lo pelo caminho correto.”

Desta maneira finaliza seu memorando confidencial à Casa Branca.

Quando Nixon começava  a falar, não havia quem o parasse. Tinha o costume de fazer sermões aos presidentes latino-americanos. Não levava anotações daquilo que pensava dizer, também não tomava nota do que dizia. Respondia perguntas que não lhe eram feitas. Incluía temas a partir só das opiniões prévias que tinha a respeito de seu interlocutor. Nem um aluno do ensino primário espera receber tantas aulas juntas sobre democracia, anticomunismo e outras matérias na arte de governar. Era fanático do capitalismo desenvolvido e de seu domínio do mundo por direito natural. Idealizava o sistema. Não concebia outra coisa, nem existia a mais mínima possibilidade de comunicar-se com ele.

MATANÇA

A matança começou com os governos de Eisenhower e Nixon. Não há forma de explicar por que Kissinger exclamou textualmente que “correria o sangue se soubéssemos, por exemplo, que Robert Kennedy, procurador-geral, dirigiu pessoalmente o assassinato de Fidel Castro”. O sangue já tinha corrido antes. O que fizeram as outras administrações, salvo exceções, foi continuar a mesma política.

Num memorando datado em 11 de dezembro de 1959, o chefe da Divisão do Hemisfério Ocidental da CIA, J-C. King, disse textualmente: “Analisar minuciosamente a possibilidade de eliminar Fidel Castro [...] Muitas pessoas bem informadas acham que a desaparição de Fidel apressaria enormemente a queda do governo...”

PLANOS DA CIA

Como foi reconhecido pela CIA e pelo Comitê Senatorial Church em 1975, os planos de assassinato surgiram em 1960, quando o propósito de destruir a Revolução cubana ficou registrado no programa presidencial de março desse ano. O memorando redigido por J. C. King em 11 de dezembro de 1959 foi enviado ao Diretor  Geral da Agência, Allen Dulles, com uma nota que solicitava expressamente a aprovação dessas e outras medidas. Todas foram aceitas e aprovadas com agrado, e de maneira especial a proposta de assassinato, como se reflete na seguinte nota ao docu-mento, assinada por Allen Dul-les e datada um dia depois, 12 de dezembro: “Aprova-se a recomen-dação que aparece no parágrafo 3.”

Num projeto de livro com análise detalhada dos documentos revelados, feito por Pedro Alvarez-Tabío, Diretor do Escritório de Assuntos Históricos do Conselho de Estado, informa-se que “até 1993 os órgãos da Segurança do estado tinham descoberto e neutralizado um total de 627 conspirações contra a vida do Comandante-em-chefe Fidel Castro. Esta cifra inclui tanto os planos que chegaram a alguma fase de execução concreta como aqueles que foram neutralizados numa etapa primária, assim como outras tentativas que por diferentes vias e razões foram reveladas publicamente nos próprios Estados Unidos. Não inclui uma quantidade de casos que não puderam ser verificados por apenas dispor da informação testemunhal de alguns dos participantes, nem logicamente, os planos posteriores a 1993.”

Anteriormente pudemos conhecer, através do relatório do coronel Jack Haw-kins, chefe paramilitar da CIA durante os preparativos da invasão pela Baia dos Porcos, que “o Estado Maior paramilitar estudou a possibilidade de organizar um grupo de assalto de maior envergadura que a pequena força de contingência planejada anteriormente.”

“Pensou-se que esta força desembarcaria em Cuba depois de realizada uma efetiva atividade de resistência, incluindo forças de guerrilhas ativas. É bom salientar que durante este período as forças guerrilheiras operavam com sucesso no Escambray. Pensava-se que o desembarque da força de assalto, após uma atividade de resistência generalizada, estimularia um levantamento geral e proliferariam as deserções entre as forças armadas de Castro o que contribuiria consideravelmente para sua derrubada.

ASSALTO

“O conceito para o emprego da força num assalto anfíbio/aerotransportado foi tema de análise em reuniões do Grupo Especial durante os meses de novembro e dezembro de 1960. Se bem que o grupo não adotou uma decisão definitiva a respeito do emprego dessa força também não se opôs a que continuasse desenvolvendo-se para seu possível uso. O presidente Eisenhower foi informado sobre esta idéia no fim de novembro desse ano através de representantes da CIA. O Presidente manifestou seu desejo de que continuassem energicamente todas as atividades que já realizavam os departamentos pertinentes.”

Foi o que informou Haw-kins sobre “os resultados do programa de operações encobertas contra Cuba de setembro de 1960 até abril de 1961”?

Nada menos que o seguinte:

“a. Introdução dos Agentes para-militares. Setenta agentes paramilitares treinados, incluídos dezenove operadores de radio, foram introduzidos no país objetivo. Dezessete operadores de rádio conseguiram estabelecer circuitos de comunicação com os escritórios centrais da CIA, embora alguns foram capturados mais tarde ou perderam seus equipamentos.

b. Operações de Fornecimento Aéreo.  Estas operações não tiveram sucesso. Das 27 tentativas apenas quatro alcançaram os resultados desejados. Os pilotos cubanos demonstraram rapidamente que não tinham as capacidades necessárias para este tipo de operação. O Grupo Especial negou a autorização para contratar pilotos estadunidenses para estas missões, embora fosse autorizada a contratação de pilotos para um uso eventual.

c. Operações de Fornecimento Marítimo. Estas operações alcançaram um sucesso considerável. As embarcações que prestavam serviço de Miami até Cuba entregaram mais de 40 toneladas de armas, explosivos e equipamentos militares, e infiltraram e desativaram um grande número de soldados. Algumas das armas entregues foram utilizadas para apetrechar parcialmente 400 guerrilheiros que operaram durante um tempo considerável no Escambray, na província de Las Villas. A maioria das sabotagens que tiveram lugar em Havana e noutros lugares foram realizadas com materiais fornecidos desta maneira.

d. Desenvolvimento da Atividade Guerrilheira.  Os agentes infiltrados conseguiram desenvolver uma ampla organização clandestina que se estendia de Havana até o resto das províncias. Contudo, só no Escambray houve uma atividade guerrilheira verdadeiramente efetiva, onde estima-se de 600 até mil soldados da guerrilha mal equipados, organizados em bandos de 50 até 200 homens, operaram com sucesso durante mais de seis meses. Um coordenador para a ação no Escambray treinado pela CIA entrou em Cuba clandestinamente e pôde chegar até a zona onde se encontrava a guerrilha, mas foi capturado em muito pouco tempo  e executado rapidamente. Outras pequenas unidades guerrilheiras operavam em algumas ocasiões nas províncias de Pinar del Rio e Oriente, não alcançando resultados significativos. Os agentes reportaram que existia grande quantidade de homens desarmados em todas as províncias dispostos a participar da atividade guerrilheira se contassem com  armas.

e. Sabotagem.

(1) De outubro de 1960 até 15 de abril de 1961 a atividade de sabotagem comportou-se da seguinte maneira:

(a) Foram destruídas aproximadamente 300 mil toneladas de cana-de-açúcar em 800 incêndios.

(b) Foram provocados aproximadamente 150 incêndios mais, entre outros, contra 42 casas de fumo, duas fábricas de papel, uma refinaria de açúcar, duas leiterias, quatro armazéns e 21 casas de comunistas.

(c) Realizaram-se em torno de 110 atentados a dinamite contra escritórios do Partido Comunista, a usina elétrica de Havana, dois armazéns, a estação ferroviária, a estação rodoviária, acampamentos das milícias e caminhos de ferro.

(d) Na província de Havana foram colocadas perto de 200 petardos.

(e) Fizeram com que descarrilassem seis trens, foram destruídos uma estação e os cabos de microonda e inúmeros transformadores de eletricidade.

(f) Um comando realizou um ataque inesperado desde o mar contra Santiago, que tornou inativa a refinaria durante quase uma semana”.

BOMBAS

Até aqui o que conhecemos graças à informação de Hawkins. Qualquer pessoa pode compreender que duzentas bombas na principal província de um país subdesenvolvido que vivia da monocultura da cana-de-açúcar, trabalho semi-escravo e da quota açucareira, ganha durante quase dois séculos como fornecedor seguro e cujas terras e fábricas de açúcar de maior capacidade de produção eram propriedade de grandes empresas norte-americanas, constituía um brutal ato tirânico contra o povo cubano. Somem-se a isto o resto das ações que realizaram.

Não digo mais nada. Chega por hoje.

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13/07/2007
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