Os tucanos e a hipocrisia
ALESSANDRO RODRIGUES
“Faça o que digo, não faça o
que eu faço”. Esse ditado popular, que procura definir a postura de um
hipócrita, cai como uma luva para alguns tucanos. Isso não é difícil de se
observar nas ações do PSDB em São Paulo e nos discursos dos integrantes do
mesmo partido em Brasília. Apoiados pela mídia, eles cobram na capital federal
investigações sobre qualquer pedra fora do lugar, mesmo que as tenham tirado.
Afinal, seus folhetins colocarão a culpa em Lula. Mas, em São Paulo, fazem o
inimaginável para impedir qualquer apuração, vide a protelação da CPI para
investigar o líder do PSDB na Assembléia, Mauro Bragato.
Essa conduta já era mais do
que clara na gestão de Alckmin. Enquanto tucanos “cobravam”
cinematograficamente CPI pra cá, CPI pra lá, “compra de votos”, “Correios”,
“bingos”, “sanguessugas”, e agora “Infraero”, etc, Alckmin impedia a
instalação de 70 CPIs em São Paulo. Mais do que isso: 1432 processos julgados
irregulares pelo TCE eram engavetados na Assembléia para impedir que chegassem
as mãos do Ministério Público, que teria a incumbência de dar prosseguimento
às investigações, abrir inquérito e punir os culpados. O resultado dessa
obscenidade, segundo denunciou o promotor Antônio Celso Faria, é que os crimes
de improbidade administrativa prescreveram e os delinqüentes andam soltos. Por
outro lado, a única opção que restou ao MP foi dar seguimento às ações pelo
ressarcimento dos cofres públicos dos prejuízos causados pela corrupção
tucana, que só em 102 contratos somaram cerca de R$ 1 bilhão.
PUPILO
Porém, Alckmin não foi o
primeiro tucano e não será o último. O professor foi Fernando Henrique e o
aluno é José Serra. FHC também já foi muito conhecido por impedir a abertura
de investigações. Ficou mais famoso ainda pelos crimes. Somente para lembrar
alguns casos, até 1999, o governo FHC distribuiu “favores” para evitar a
instalação da CPI do sistema financeiro, em 1996; a da compra de votos para
aprovar a emenda da reeleição, em 1997; a que investigaria o grampo no BNDES,
em 1999; e a do caso EJ, em 2001. CPI era, no vocabulário tucano e nos manuais
de redação de alguns órgãos de mídia, termo nefasto e sinistro.
Nessa época, figuras como
Arthur Virgílio, líder do governo no Congresso, somente para citar o mais
entusiasmado, andava às turras para operar os abafas, chegando a ameaçar
qualquer um que assinasse uma CPI. Em entrevista à “Folha de São Paulo”, em
2001, Virgílio fez chegar ao Congresso uma mensagem de FHC de que demitiria
ministros que tivessem ligações com parlamentares que assinassem a CPI para
investigar EJ. “O presidente vai dar lealdade e respeito aos aliados e quer
reciprocidade. Acabou a prática de ficar assinando pedido de CPI e depois
retirar o nome. Tem de haver lealdade”, afirmou.
A ameaça foi para impedir a
instalação de uma CPI, pois “não havia nada para investigar, a oposição só
queria palanque”. Agora vejam o Virgílio de 2004, três anos depois: “O PT
precisa derrubar essas falácias segundo as quais as galáxias irão se chocar e
o universo acabar se houver investigações sobre corrupção dentro de seu
governo. Se nada houver, ótimo, as acusações caem. Se houver, os responsáveis
devem ser responsabilizados e o governo deve continuar a governar”. Têm
coisas que é difícil explicar. Deixemos tais estudos para alienistas e ou para
criminalistas...
Voltemos para o dito
popular. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis aponta que a “franqueza
é a primeira virtude de um defunto”, pois na vida “o contraste dos
interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos”.
Ele narra este trecho da confissão de seu personagem dizendo que “a
hipocrisia é um vício hediondo”. Seria demasiado fazer uma analogia entre
dois casos, mas tal definição é elucidativa.
É claro que se alguém
perguntar para Virgílio se é contraditório a sua postura anterior com a atual
ele dirá que não e encontrará uma explicação mirabolante para tal. Mas o
importante seria se a última declaração do líder tucano no Senado chegasse aos
ouvidos do governador José Serra, que está seguindo o caminho de seu
antecessor e poderá pagar caro por isso, não só por acobertar os ilícitos, mas
também por carregar nas costas a responsabilidade de ter abafado as
investigações e de ter dado mais liberdade para que continuem roubando os
cofres de São Paulo.
Serra tem o controle sobre a
maioria da Assembléia. Portanto, qualquer colegial sabe que a manobra
vergonhosa para impedir a instalação da CPI da CDHU e do inquérito no Conselho
de Ética para investigar Mauro Bragato tiveram o seu aval. É preciso
investigar, “se nada houver, ótimo, as acusações caem. Se houver, os
responsáveis devem ser responsabilizados e o governo deve continuar a
governar...”.