Universidades estaduais
ampliam paralisação contra decretos de Serra
que sabotam autonomia
A greve contra os
decretos do governador José Serra (PSDB), que uniu estudantes, professores e
funcionários das três universidades estaduais paulistas – USP, Unesp e Unicamp
– iniciada há duas semanas, segue forte. No campus Butantã da USP, até
quinta-feira (31), a paralisação atingia 80%, e no campus Leste a adesão
estava perto dos 100% . Diversas atividades, como atos públicos, debates,
panfletagens e outras manifestações se espalharam por todo o Estado ao longo
da semana, aumentando o número de adesões.
O movimento é
conseqüência das medidas do governador que acaba com a autonomia
universitária. Depois de assinar decretos que fraciona a educação no Estado,
transferindo as Universidades para uma secretaria recém-criada, outro decreto
de Serra, assinado no dia 9 de março, gerou o repúdio das universidades: o
decreto 51.636, que obriga as universidades a integrarem o Siafem (Sistema
Integrado de Administração Financeira). Nele, o artigo 14 diz que “a
celebração, a alteração e a prorrogação de convênios, acordos, ajustes,
contratos e de outros instrumentos congêneres, relativos a serviços e a obras,
bem como a compra de material permanente e equipamentos, com valor superior a
cinco milhões de reais, dependerão de prévia manifestação do Secretário de
Economia e Planejamento quanto aos aspectos orçamentários e do Secretário da
Fazenda quanto aos aspectos financeiros”. No artigo seguinte, o documento
afirma que as normas estabelecidas no decreto aplicam-se, entre outros, às
Universidades.
Ao ser questionado
pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), o
Secretário da Fazenda do Estado, Mauro Ricardo Machado Costa, confirmou a
intervenção velada: “reafirmo, outro sim, a decisão do Governo de definir, em
entendimento com os reitores, um regime adequado de remanejamento de dotações
orçamentárias”. Ou seja, “em entendimento” significa que os remanejamentos do
orçamento das universidades só poderão mesmo ser feitos se autorizados pelo
governo. Para o jurista Dalmo de Abreu Dallari, o decreto é inconstitucional.
Ele afirma que “a autonomia compreende, necessariamente, a autonomia
financeira, que, por sua vez, garante o direito de receber recursos
financeiros do Estado e de lhes dar destinação, pelo modo e no momento que a
Universidade, por seus órgãos internos próprios, julgar adequados”.
Segundo Leide Maia,
diretora do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da USP “o decreto abre
espaço para que o governador intervenha na autonomia das universidades até com
a possibilidade de contingenciamento de verbas e também com a criação de
empecilhos aos remanejamentos de seus orçamentos”.
Outra manobra do
governador, denunciada pela Associação dos Docentes da USP (Adusp), é que o
governo não tem publicado o total arrecadado do ICMS. Com isso, não se sabe
quanto representam os 9,57% do total arrecadado, e que são destinados por lei
às universidades.
Além da autonomia,
a greve acontece por conta das reivindicações da campanha salarial dos
servidores das três instituições. Outra reivindicação é a melhoria da
assistência estudantil, com a criação de moradias e de restaurantes
universitários nos
campi.
J. SOUSA / J.CRUZ