RCTV era um atentado à liberdade de imprensa
Alguns senadores
queixaram-se do presidente venezuelano Hugo Chávez, que manifestou
“condolências” por ver a nossa augusta Câmara Alta transformada numa
assembléia de “papagaios do que dizem em Washington”. Chávez falava,
especificamente, da resolução sobre a RCTV, na qual o Senado brasileiro afirma
que “entendemos ser de fundamental importância para a manutenção das
relações democráticas do povo venezuelano que (....) tenha garantidas a
liberdade de escolha e expressão através da mídia televisiva privada
representada pela RCTV”. Evidentemente, quem pode e tem o direito de
julgar o que é de “fundamental importância” para as “relações democráticas” na
Venezuela é o povo venezuelano. Que, aliás, elegeu 4 vezes o presidente Chávez
por maioria absoluta, fez com que seus partidários triunfassem em 5 eleições
municipais ou parlamentares, e, de quebra, em um plebiscito que poderia
revogar o mandato do presidente. Melhor demonstração do que o povo venezuelano
considera fundamental para suas relações democráticas é impossível.
A RCTV foi promotora do
golpe de estado de 12 de abril de 2002, que, durante breve interregno, depôs o
presidente eleito, fechou o Congresso, aboliu a Justiça, rasgou a
Constituição, revogou as leis aprovadas pelo parlamento e tentou instaurar um
Estado policial. A mesma emissora, além de pregar o assassinato do presidente,
falsificar notícias (ver a página 7 desta edição), caluniar e difamar até
mesmo a idosa mãe de Chávez, cometeu crimes de sonegação de impostos, evasão
de divisas, lavagem de dinheiro, propaganda da prostituição, divulgação de
pornografia, e se apropriou das contribuições previdenciárias de seus
funcionários.
Convenhamos que não fica
bem para o nosso Senado, além de se imiscuir em assuntos de outro país contra
a vontade de seu povo, declarar que esse valhacouto é de “fundamental
importância” para a democracia e a “liberdade de escolha e expressão”. Além
disso, a resolução de autoria do senador Azeredo é uma macaqueação da que foi
votada pelo senado dos EUA, que, como se sabe, adora meter o nariz em país
alheio. O nosso Senado não é o senado dos EUA, assim como não é o senado
romano, do qual aquele é sucessor. Mas entende-se porque o presidente Chávez
disse que o Senado brasileiro agiu como “papagaio” de Washington.
Na verdade, a momentânea
submissão aos monopólios de mídia levou o nosso Senado a uma situação
constrangedora. Mas não deixa de ser interessante que esses mesmos monopólios
– e os senadores que os ecoaram - reclamem que Chávez interferiu em nossos
assuntos, quando apenas se defendeu de uma interferência desabrida nos
assuntos venezuelanos.
O fato é que, por
desavisado, o Senado acabou aprovando uma resolução que vai contra as leis do
nosso próprio país. O jornalista Jânio de Freitas, do Conselho Editorial da
“Folha de S. Paulo”, jornal insuspeito de simpatias pelo presidente Chávez,
sintetizou bem a questão: “Canais de rádio e TV são propriedades das
respectivas nações. Sua exploração por particulares é feita pelo regime de
concessão. Não sendo resultado de compra ou doação recebida, a concessão está
sujeita, mundo afora, às renovações. É o que a Constituição brasileira
determina nos cinco artigos do seu quinto capítulo (rádios a cada dez anos,
tevês a cada 15). A necessidade de renovação contém, implicitamente, a
possibilidade da não renovação. Mas os princípios constitucionais brasileiros
não só a mencionam com explicitude, como vão mais longe: estabelecem a
possibilidade de cancelamento, de cassação do canal sem depender de negar
renovação. O ato administrativo praticado na Venezuela está de acordo,
portanto, com o fixado pela própria Constituição brasileira. As razões de Hugo
Chávez contra uma TV documentadamente comprometida com um golpe de estado
compõem outra ordem de discussão, política e ideológica, mas não a de agressão
ou violação da democracia. O funcionamento de tevês não atesta, por si, a
existência de democracia, assim como a liberdade de expressão não lhes dá o
direito de fazerem do canal, concedido em nome do público, o uso que quiserem.
O uso político/ideológico de um canal de propriedade da nação, embora de
exploração particular, não será legítimo quando se volte contra as aspirações
de uma parte significativa dos proprietários públicos do canal”.
O que os monopólios de
mídia postulam com a atual campanha é que as concessões públicas sejam
irrevogáveis e eternas, ou seja, que não sejam propriedade do povo e do país,
mas deles, para que possam delas dispor como bem entenderem, mesmo que seja
contra a Nação, contra o Povo e contra as Leis, a começar pela Constituição. É
evidente que não é para dizer a verdade nem para respeitar o direito dos
cidadãos que eles querem tal poder. Se fosse para isso, não seria necessário
esse poder totalitário para fazer qualquer coisa, divulgar qualquer difamação,
promover qualquer golpe, em suma, estar acima das leis, do povo e das
instituições, inclusive acima do governo e do Senado.
Se essa pretensão
prosperasse, não haveria mais necessidade de Estado, governo, Senado, Câmara
ou qualquer outra instituição nacional. Ou seja, essas instituições só
existiriam como farsa, pois não teriam outro papel senão o de ser, realmente,
meros papagaios da mídia. Não há nada mais antidemocrático do que essa
ditadura dos monopólios de mídia. Certamente o nosso Senado não quer ficar à
mercê dessa pandilha, mas é exatamente a ditadura dela que a resolução de
Azeredo, o democrata do valerioduto, defende. Queremos crer que a maioria dos
senadores não percebeu o que estava votando – e não há vergonha nisso;
vergonha está em ser fascista ou liberticida. Mas a questão é exatamente essa:
os monopólios de mídia são a negação da democracia, e, de resto, da verdade –
existe mentira pior do que pretender o poder totalitário sobre os cidadãos e
as instituições em nome da “liberdade de expressão” ou “liberdade de
imprensa”? Recentemente, o presidente do Senado foi vítima dessa “liberdade de
expressão”, que se constitui apenas na liberdade de enlamear a honra alheia e
patrocinar golpes de Estado.
Por último, apresentar a
RCTV como sinônimo de “mídia televisiva privada” da Venezuela é uma fraude.
Todos os outros canais de TV privados da Venezuela tiveram suas concessões
renovadas. Inclusive a poderosa Venevisión, de Gustavo Cisneros, que está
longe de ser um paladino do progresso. Quanto à RCTV, a rigor nem mesmo faz
parte da “mídia televisiva privada”. Documentos que o governo dos EUA liberou
por decisão judicial provaram que ela recebia estipêndios em dólares do
Departamento de Estado daquele país. Ou seja, era uma fachada do governo
americano.
Que os monopólios de mídia
daqui, até por identidade, se envolvam com esses marginais, é fácil de
entender. Mas não é bom para a imagem altaneira e impoluta do nosso Senado
secundá-los, promovendo um punhado de gangsters a democratas.
CARLOS LOPES