Comandante afirma na CPI: “não houve falhas no equipamentos”
“Podemos afirmar que o sistema
funcionava normalmente. O problema é que o Legacy não poderia estar a 37 mil
pés”, completou o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Saito
Em depoimento na CPI do tráfego
aéreo no Senado Federal, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar
Juniti Saito, descartou a existência de pontos cegos no sistema aéreo brasileiro
e disse que “esta afirmação é maldosa”. Ele reiterou que as investigações não
apontaram problemas de comunicação entre o controle aéreo e os pilotos do Legacy
durante o vôo que resultou na morte das 154 pessoas à bordo do Boeing da Gol, em
29 de setembro do ano passado.
“Não houve falha nos equipamentos.
Com os dados de que dispomos até agora, podemos afirmar que o sistema funcionava
normalmente”, afirmou o comandante, que conduz uma investigação interna para
determinar as responsabilidades na tragédia. De acordo com o brigadeiro Saito,
“o problema é que o Legacy não poderia estar a 37 mil pés”.
O comandante ressaltou que o
sistema de controle do tráfego aéreo brasileiro “é seguro e está entre os mais
elogiados do mundo”. “Nosso conceito no Índice de Segurança no Vôo é o mais alto
possível”, disse.
“Quando aconteceu a tragédia do 11
de setembro, a Força Aérea dos EUA levou mais de 20 minutos para reagir. Aqui no
Brasil, com certeza, em cinco minutos teríamos reagido”, disse Saito,
respondendo ao relator da CPI, que lhe perguntou se a solução para o sistema não
poderia ser a desmilitarização do controle aéreo. Nos Estados Unidos, civis
controlam o tráfego comercial e militares cuidam apenas dos vôos das Forças
Armadas.
DESMILITARIZAÇÃO
O brigadeiro afirmou à CPI que a
desmilitarização está fora do debate para melhorar o sistema de proteção aos
vôos. Segundo Saito, o movimento pela desmilitarização “atrapalhou muito a
condução da crise aérea”. Ele frisou que o sistema continuará sob coordenação da
Força Aérea Brasileira (FAB) e compartilhado, isto é, servindo às aeronaves
civis e militares e com controladores igualmente civis e militares. “A decisão
do presidente Lula ao dizer que não quer tratar da desmilitarização me deu
autoridade para tratar desse processo”, disse, relembrando conversa que teve com
Lula em momento crítico da crise que atingiu o setor.
O comandante anunciou outras
medidas para aprimorar a proteção do tráfego aéreo, mas alertou que a
necessidade dessas medidas não pode abrir espaço para insubordinação. Saito
advertiu que controladores militares com apenas um ano e meio de serviço “não
têm capacidade e nem conhecimento” para defender a desmilitarização. “Se ele não
quiser ser militar, que peça demissão, mas não comece a influenciar os outros
companheiros”. “Quando formamos um militar, não é só colocar farda. É a
consciência da cabeça aos pés. Se não formos rigorosos com a hierarquia e a
disciplina, não vai haver Forças Armadas”, disse Saito.
“Separar o sistema integrado leva
tempo, custa caro e além do mais não se deve tratar de assunto como esse em
momento de crise”, disse aos senadores. “Uma coisa é o acidente, a crise e a
falta de controladores. Outra coisa é a desmilitarização”.
Segundo Saito, até 2001, a aviação
civil crescia entre 6% e 7% ao ano. Já em 2003, esse percentual de crescimento
pulou para 15%. Hoje demora de três a quatro anos para se formar um controlador
de vôo, e isso gerou uma diferença entre o crescimento do setor e a quantidade
de controladores.
Entre as medidas anunciadas pelo
comandante, está a de elevar à patente de capitão os sargentos que hoje são
controladores de vôo. Com isso, explicou, o salário aumentaria e isso evitaria
que eles fossem buscar outras atividades na área militar. Ele destacou ainda a
importância do reaparelhamento da Força Aérea.
MARIANA MOURA