Por que a Globo é golpista
No artigo abaixo, publicado
originalmente pela Agência Carta Maior, o professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, Gilson Caroni Filho, alerta
que a mesma Rede Globo que vaticina hipocritamente contra uma suposta “censura”
do presidente Hugo Chávez contra a RCTV, ignora solenemente o papel da emissora
quando o líder venezuelano foi deposto pelo golpe patrocinado pela CIA em abril
de 2002.
GILSON CARONI Fº
Seria pueril, se não fosse ameaçador. Seria mais
um inusitado registro do teatro do absurdo, com sua habitual ironia, se não se
tratasse de texto jornalístico sobre uma emissora que teve papel central na
história recente da Venezuela. Mas Déborah Thomé, interina da coluna “Panorama
Econômico”, do Globo, foi de um didatismo exemplar na edição de terça-feira,
7/5.
Para ela, “Chávez acusa o canal de ter
participado da tentativa de golpe em 2002 - acusação, aliás, verdadeira, mas que
não justifica tal medida censora”. Ao que parece, uma emissora televisiva não só
se autonomiza do poder concedente como a ele se sobrepõe. Esse é o pilar da
democracia admitida pela família Marinho.
Melhor, impossível. Mais que um deslize de
estilo, estamos diante da reiteração de política editorial. A jornalista mostra
que aprendeu o receituário da corporação que lhe paga o salário. Um arrazoado
onde os princípios democráticos (igualdade, diversidade e participação), por não
serem compatíveis com organizações monopolísticas e a otimização de seus ganhos,
devem ser relativizados, a ponto de um golpe de Estado ser um pecado menor.
A decisão do presidente Hugo Chávez de não
renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RTVC) é respaldada por
preceitos constitucionais e os procedimentos administrativos realizados, em
momento algum, feriram os princípios básicos do Estado Democrático de Direito.
Mas a doxa midiática é samba de uma nota só: a cada movimento, segundo
articulistas e editores, o presidente venezuelano se afasta da democracia. Será
mesmo? Não é o caso de questionarmos a narrativa dominante com fatos históricos
recentes? E à luz dos cenários que se abrem, indagar: quem são, efetivamente, os
golpistas da América Latina?
Nesse quadro cabe, também, perguntar aos altos
cargos das Organizações Globo: o Brasil, no campo jornalístico, seria
substancialmente distinto da Venezuela? Em um país onde a imprensa sempre
endossa retrocessos políticos, o que esperar dos barões da mídia em caso de
mudanças efetivas? Abririam mão do projeto autoritário de serem a únicas
instâncias de intermediação entre Estado e sociedade? Aboliriam a semântica que
define como populista quem não se submete aos ditames do mercado? Deixariam de
condenar qualquer tentativa de comunicação direta com as massas? Ao fazê-lo,
removeriam a confusão deliberada entre manifestação carismática e demagogia de
algibeira?
Ora, não há inocentes: a mídia, tal como
estruturada hoje, é incompatível com uma institucionalidade que não seja moldada
aos seus interesses político-empresariais. A lógica, repetimos, que maximiza
seus lucros não sobrevive sem déficit democrático. O espetáculo abomina a
práxis. E a Globo tem horror à democracia.
Muitas similitudes
A manutenção do sistema de alianças que assegura
a ordem vigente é a principal tarefa do sistema comunicacional. Em caso de crise
aguda, a “nossa Venezuela” aflora rapidamente. Ou alguém acha que a ação da
mídia venezuelana na tentativa de deposição de Hugo Chávez, em abril de 2002, é
algo restrito à fragilidade institucional daquele país?
Quem assistir ao documentário A Revolução não
Será Televisionada, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Bonnacha
O’Brien, verá que há mais similitudes entre Caracas e Brasília do que imagina um
editorialista da Globo. As cruzadas das emissoras Venevisión, Globovisión e RCTV
são assustadoramente familiares.
As imagens, usadas como justificativa para o
golpe, de um grupo de militantes chavistas supostamente atirando em
manifestantes numa ponte, são emblemáticas. A edição ampliada mostra o oposto:
os apoiadores do presidente respondem ao fogo de franco-atiradores que
disparavam contra a multidão. Mantidas as proporções, não há como não lembrar
das trucagens empregadas pela TV Globo, após o atentado ao Riocentro, em 1981.
No Jornal Nacional, uma das bombas mostradas no carro dos militares no
telejornal da tarde sumiu. E, até hoje, ninguém sabe, ninguém viu.
Quando as multidões foram às ruas exigir o
retorno de Chávez ao poder, as empresas golpistas ignoraram as manifestações.
Quem viveu a ditadura militar sabe da capacidade da emissora monopolista de
promover extermínios imagéticos de grande escala. Claro que, ao contrário de
vários articulistas, não confundo formações sociais distintas.
Brasil e Venezuela têm conjuntos históricos
intransferíveis, relações de poder matizadas por clivagens completamente
diferentes, mas em três coisas se assemelham: no grau de exclusão, na
truculência de suas classes dominantes e na capacidade de prestidigitação de
seus aparelhos ideológicos. Os franco-atiradores antidemocráticos são os
agendáveis dos conceituados colunistas tanto aqui como lá
Mas quem pensa que a solidariedade se esgota
aqui, está redondamente enganado. Se voltarmos no tempo, veremos que a Globo
comemorou a tentativa de deposição de Chávez. Não houve análise, houve regozijo.
Para os que suspeitam que fazemos ilações quando falamos da vocação golpista do
canal cevado na ditadura militar, reproduziremos, tal como fizemos há 5 anos, o
que disseram três profissionais da emissora, no dia 12/4/2002. Quem assistiu aos
telejornais da Globo teve uma bela aula do papel da mídia como “ alicerce da
democracia”. Os que não assistiram terão as evidências empíricas que tanto
reclamam.
Hugo Chávez havia sido deposto e o poder entregue
ao empresário Pedro Carmona, presidente da entidade patronal Fedecámaras. Era o
suposto fim de mais um governo que fez da soberania nacional seu projeto. Da
América Latina, sua prioridade. E que, encarnando aquilo que Gramsci chamaria de
“cesarismo progressivo”, pôs no lixo da história as agremiações tradicionais
(Ação Democrática e Copei) e as oligarquias que se refestelaram de petrodólares ,
sem reinvestir no país um centavo sequer.
O Jornal Nacional, naquela ocasião, não era
econômico em seu entusiasmo: “‘Num pedaço do mundo onde a democracia ainda é uma
experiência recente, Hugo Chávez e Fernando de La Rúa frustraram milhões de
eleitores em seus países com promessas que não poderiam cumprir. Que sirva de
alerta aos brasileiros neste ano de eleição’, recomenda o cientista político
Fernando Abrúcio, em São Paulo. ‘É bom lembrar que é preciso colocar a
democracia no lugar do salvacionismo. Mas tem que resolver a questão econômica e
social, talvez com mais paciência e menos demagogia. O terreno é fértil para um
discurso de salvação fácil. Mas é preciso evitar esse discurso, porque a
resposta do salvacionismo não leva a uma melhor situação no Brasil, na Argentina
ou na Venezuela’”.
Lembremos que Abrúcio (um dos analistas diletos
da emissora) alertava contra a candidatura Lula. Um golpe pegava carona no
outro. Tudo como manda a democracia da tela, feita para ser vista, jamais para
ser vivida.
O
bufão
Arnaldo Jabor, definido magistralmente pelo
cartunista Jaguar como o “único rebelde a favor que se tem notícia”,
compareceria com sua bufonaria habitual: “Eu ia dizer que a América Latina
estava se ‘rebananizando’, com o Hugo Chávez no seu delírio fidelista, com a
Colômbia misturando guerrilha e pó, abrindo a Amazônia para ações militares
americanas e com a Argentina legitimando o preconceito de que latino não
consegue se organizar. Os norte-americanos não conseguem nos achar sérios e
democratas. É mais fácil nos rotular de incompetentes e ditatoriais. Mas aí,
hoje, o Chávez caiu. Só que os militares entregaram o governo a um civil
democrata. Talvez a América Latina tenha entendido que a idéia de romper com
tudo, do autoritarismo machista, só dá em bananada. Temos que nos defender, sim,
da atual arrogância imperial americana. Mas a única maneira será pela democracia
radical. Por isso acho boa notícia a queda do Chávez. Acordamos mais fortes hoje
e eu já posso ‘desbananizar’ a América Latina. Para termos respeito da América e
do mundo temos de ser democráticos. Tendo moral pra dizer não”
Ignoramos o que houve com a banana de Jabor após
o retorno de Chávez. Ao contrário do monolitismo do discurso autoritário, são
diversos os usos que se pode fazer da fruta.
Quer dizer que os militares haviam entregado o
governo a um civil democrata? O empresário Pedro Carmona dissolveu o Congresso,
destituiu todos os integrantes da Suprema Corte e ganhou mecanismos para
dissolver os poderes constituídos em todos os níveis. Mas a desfaçatez do
jornalismo global não tem limites como revela o diálogo entre a então
apresentadora Ana Paula Padrão e o jornalista William Waack, no Jornal da Globo,
o mesmo que aparece hoje sempre com expressão contrafeita ao comentar qualquer
fato envolvendo o atual governo:
“- William, Chávez deu muito trabalho aos Estados
Unidos. Bush deve estar comemorando, não?
- Ana Paula, as posições do ex-presidente
venezuelano de fato irritaram os americanos. Há insistentes comentários de que
Chávez gostava de se meter na política dos países vizinhos. E parece que além de
apoio político, nada discreto, Chávez teria dado facilidades militares aos
guerrilheiros colombianos das Farc, que escaparam de alguns cercos do exército
colombiano fugindo pela fronteira da Venezuela.
- William, para o restante da América Latina, que
significado tem a queda de Chávez?
- Ana Paula, o estilo mandão de Chávez prova que
a era do populismo não funciona, e olhe que ele tinha um formidável caixa para
distribuir, devido ao fato de a Venezuela ser um grande produtor de petróleo. Na
verdade, Chávez prova uma lição que o restante da América do Sul aprendeu já há
algum tempo: quem trata a democracia como ele tratou, desrespeitando
instituições e preferindo mandar com a bota em vez de dialogar, não deve ficar
espantado ao ser varrido do poder.”
Em suma, nunca a Globo se mostrou tão venezuelana
como naquela noite. Nunca interpretou tão bem seu papel de protagonista da
globalização neoliberal na periferia. Poucas vezes foi tão explícita em esmagar
a cidadania usando seu poder de mídia. Desde aquele 12 de abril, golpismo deixou
de ser um termo genérico. Na TV Globo, como vimos, tem nomes, sobrenomes e
profissões conhecidas.
O que nos resta, como democratas, ante a nova
ofensiva midiática contra o presidente venezuelano? Juntarmo-nos aos que lutam
por uma nova ordem informativa e prestar incondicional solidariedade a Hugo
Chávez. Isso é o mínimo.