Putin: “Plano antimíssil dos EUA é pretexto para ameaçar a Rússia”
Em entrevista publicada na
revista Der Spiegel, o presidente russo destacou que sistema antimíssil dos
EUA é para “defesa contra algo que não existe” e que, de fato, se trata de
ameaça nuclear que agride a segurança russa e mundial
Vladimir Putin, em entrevista
publicada na
revista alemã Der Spiegel esclareceu que o sistema que os EUA estão
implantando em torno da Rússia, “é
claro que não é em si simplesmente um sistema de defesa contra mísseis. Quando
estiver criado e instalado, funcionará no modo automático, conjugado a todo o
potencial nuclear dos Estados Unidos.
Haverá na Europa elementos
do potencial nuclear dos Estados Unidos, o que modifica completamente toda a
configuração da segurança internacional”.
Putin contestou os pretextos usados por Bush
para instalar o sistema conectado a seus armamentos em países que circundam a
Federação Russa: “Eles dizem que o sistema é necessário para a proteção contra
os mísseis iranianos. Mas não existem tais mísseis. O Irã não possui mísseis
com um alcance de 5.000 a 8.000 quilômetros. Estão nos dizendo que o sistema
de defesa antimíssil está sendo instalado para a proteção contra algo que não
existe. Assim sendo, acredito que não há motivos nem fundamentos para se
montar um sistema antimísseis na Europa Oriental e é claro que teremos que
responder a isso”.
Ele alertou ainda: “Não excluímos a
possibilidade de os nossos parceiros norte-americanos reavaliarem a sua
decisão. Creio que todo mundo possui bom senso. Mas caso isso não aconteça,
ninguém poderá nos responsabilizar pelas nossas medidas recíprocas. Isso
porque não fomos nós que iniciamos a corrida armamentista que está pendendo
sobre a Europa”.
“Tampouco permitiremos que nos culpem caso
neste momento aprimorarmos o nosso sistema de armas nucleares estratégicas.
Esse sistema de defesa antimíssil cria a ilusão de que se está protegido, mas
na verdade ele aumenta a possibilidade de que ocorra um conflito nuclear”.
“Não queremos uma confrontação, queremos
cooperação”, enfatizou, “se estamos expressando a nossa oposição de maneira
aberta e justa, isso não significa que estejamos procurando uma confrontação.
A maior complexidade atual é o fato de alguns dos que participam do diálogo
internacional acreditarem que as suas idéias são a verdade absoluta. Isso não
facilita a criação de um clima de confiança”.
EUROPA
Putin destacou a trajetória de seu país em
favor do desarmamento da Europa: “O que fizemos não foi apenas afirmar que
estávamos preparados para acatar esse tratado - nós na realidade o
implementa-mos. Transferimos todos os nossos armamentos pesados para além dos
Montes Urais, reduzimos o nosso efetivo militar em 300 mil soldados e tomamos
outras medidas”.
“Mas o que recebemos em troca? Estamos vendo a
Europa Oriental ser abarrotada de novos equipamentos, com novas forças
armadas, na Romênia e na Bulgária, assim como a instalação de radares na
República Tcheca e sistemas de mísseis na Polônia”.
“O fato”, ressaltou, “é
que existe o desarmamento unilateral da Rússia. E esperaríamos que houvesse
disposição dos nossos parceiros na Europa para fazer o mesmo, mas em vez disso
há uma injeção de novos sistemas bélicos na Europa Oriental”.
Na entrevista, Putin relembrou a posição russa
contra a agressão ao Iraque puxada pelos EUA. “Algumas crises com as quais a
comunidade internacional teve que se deparar não teriam sido possíveis em tal
caso, e elas não teriam sido prejudiciais à situação política interna de
alguns países. Até mesmo os acontecimentos no Iraque não teriam dado motivo
para tamanha dor de cabeça para os Estados Unidos. Vocês se lembram que nós
nos opusemos às ações militares no Iraque”.
O presidente russo também respondeu ao repórter
da Der Spiegel sobre as medidas que foram tomadas com relação à petroleira
Shell. “Você leu o contrato da Shell? Era um acordo colonial que não tinha
nada a ver com os interesses da Federação Russa. Só posso lamentar que no
início da década de 1990, autoridades russas tenham feito algo desse tipo,
algo pelo qual essas pessoas deveriam ter sido mandadas para a prisão. A
implementação desse acordo resultou na permissão para que outros países
explorassem as nossas reservas naturais por um período prolongado sem que
obtivéssemos nada como retorno”.
Além disso, esclareceu, “foi culpa deles ter
violado a nossa legislação ambiental. Esse foi um fato confirmado por dados
objetivos, e os nossos parceiros sequer negam isso”.
Sobre as tentativas de afastar o incômodo das
posições russas através do seu afastamento do G8 ele destacou que, ao
contrário, o fórum deve ser ampliado “isso é outra coisa sem sentido. A nossa
importância econômica está crescendo e continuará crescendo. Temos as
terceiras maiores reservas do mundo de moeda estrangeira e ouro. No ano
passado nos tornamos o primeiro produtor de petróleo do mundo e há muito tempo
somos o maior produtor de gás natural. Somos uma potência nuclear e um membro
do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.
“Não dá para resolver os problemas da
humanidade convertendo o G8 em um clube exclusivo. Ao contrário, houve uma
certa reflexão no sentido de expandir o G8 para que o grupo incluísse, por
exemplo, China, Índia, Brasil, México e África do Sul”.
DEMOCRACIA
Sobre os esforços do governo atual da Rússia em
favor da democratização do país ele ressaltou: “Claro que sou um democrata
absolutamente verdadeiro”. Já “os norte-americanos torturam em Guantánamo, e
na Europa a polícia utiliza gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Às vezes
até manifestantes são mortos nas ruas. Por falar nisso, instituímos uma
moratória da pena de morte, que é muitas vezes adotada em certos países do
G8”.
“Não sejamos hipócritas no que diz respeito às
liberdades e aos direitos humanos. Eu acabei de ler o último relatório da
Anistia Internacional, no qual os Estados Unidos, a França, a Inglaterra e a
Alemanha são também criticados. Mas não nos esqueçamos de que outros membros
do G8 não passaram por transformações tão drásticas quanto as experimentadas
pela Rússia”.
“Os historiadores serão os juízes daquilo que
meu povo e eu realizamos em oito anos”, disse ainda em suas declarações aos
jornalistas, “restabelecemos a integridade territorial da Rússia, fortalecemos
o Estado, nos movemos na direção de um sistema multipartidário e recuperamos o
potencial das nossas forças armadas”.
“A nossa economia cresceu 7,7% no primeiro
trimestre deste ano. Quando me tornei presidente, 30% dos russos viviam abaixo
da linha de pobreza. Atualmente esse número caiu para 15%. Quitamos a nossa
dívida externa, que era muito elevada. Durante um longo tempo tivemos fugas de
capital da ordem de US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões ao ano. No ano passado,
pela primeira vez, houve maior entrada do que saída de capital na Rússia - um
total de US$ 41 bilhões”.
“Isso nos permite enfrentar problemas sociais
existentes e reduzir a desigualdade econômica entre os muito ricos e os muito
pobres”.
Questionado sobre a possibilidade de extraditar
para a Inglaterra Andrei Lugovoy, suspeito pela morte de Litvinenko, Putin
disse que isso demandaria mudanças na Constituição que proíbe extradição de
cidadãos russos e “para isso seriam necessários embasamentos muito
importantes” e “tal justificativa não foi apresentada pelo lado britânico”.
Ele concluiu que “as autoridades britânicas permitiram que muitos ladrões e
terroristas vivessem no Reino Unido, e é precisamente este o real perigo para
os cidadãos ingleses”.