O caráter antidemocrático dos monopólios de informação
(I)
Vice-presidente da TeleSul,
Yuri Pimentel, denuncia: “cartel transnacional que controla os meios de
comunicação no planeta converteu a mídia em seu laboratório de opinião”
Neste importante
pronunciamento realizado durante as jornadas internacionais “O direito do
cidadão a informar e estar informado”, seminário realizado em Caracas de 18 a
20 de maio, o vice-presidente da TeleSul, Yuri Pimentel, faz contundente
denúncia contra a manipulação dos grandes meios de comunicação.
Com riqueza de dados e
citações, Yuri Pimentel demonstra como o imperialismo norte-americano vem se
utilizando, ao longo dos anos, do controle da força oligopólica da mídia para
tentar legitimar a sua dominação e pilhagem, que ultrapassa o terreno político
e econômico, contaminando lamentavelmente a arte e a cultura, e se convertendo
em instrumento de subordinação ideológica de governos e povos.
Para superar o caráter
perversamente antidemocrático da mídia, particularmente na América Latina, vem
se colocando em xeque tal dominação por meio do estabelecimento de critérios
para a renovação de concessões, tidas até então como vitalícias.
Não poderia haver
melhor momento para o HP brindar seus leitores com esta reflexão sobre a
necessidade do aprofundamento da democracia e da construção de uma nova ordem
da comunicação e da informação, como propõe Yuri.
Nos últimos dias, povo
e governo se unem na Venezuela e retomam a concessão da RCTV, emissora
golpista que, irrigada com dólares norte-americanos, continuava em campanha
contra o processo democrático, violentando a auto-estima, a capacidade
criativa e a própria Constituição da Pátria de Simón Bolívar.
Saudando estes novos e
promissores tempos, publicamos abaixo a primeira parte do elucidativo
pronunciamento.
Boa leitura!
Leonardo Severo
Yuri Pimentel
Há menos de uma semana, a editora canadense Thomson Corp. acertou a
aquisição da Reuters por 17 bilhões e 200 milhões de dólares, com o que está
criando o maior grupo de notícias e dados financeiros do mundo. Com 34% do
mercado de informação financeira, superará a Bloomberg LP, que tem 33%,
segundo a Inside Market Data, publicação do setor.
Tom Glocer,
presidente executivo da Reuters, que liderará o grupo, disse que
Thomson-Reuters terá ingressos superiores a 11 bilhões de dólares, sendo que
60% de seu negócio de informação financeira e de notícias se chamará Reuters e
40% de seus mercados legais, tributários e científicos, se chamará
Thomson-Reuters Professional.
Este é apenas o
mais recente episódio do processo de monopolização dos meios de comunicação e
informação, quase sempre invisível aos olhos do público. Se em vez da grande
variedade de cores e formatos que vemos nas bancas de jornais e revistas, nas
livrarias ou nos canais de televisão a cabo, assim como filmes e gravações
musicais em dezenas de linguagens, pudéssemos ver em seus lugar as assinaturas
corporativas de seus donos, a paisagem mudaria radicalmente com os nomes de
umas poucas empresas multinacionais (às vezes uns sobrenomes) que agora
dominam este campo.
FUSÕES
No ano 2000, eram
oito as corporações transnacionais que controlavam a mídia no mundo, entre
apenas 50 que chegam a participar no mercado global. Todas realizaram alguma
fusão, sendo as principais as seguintes:
·
1989 Time Inc. /
Warner Communications
·
1993 Viacom Inc. / Paramount Communications
·
1995 Walt Disney Co. / Capital Cities / ABC
·
1996 Time Warner / Turner Broadcasting
·
Viacom Inc. / Blockbuster Entertainment
·
1998 MCI / World Com Sprint
·
1998 SBC / Communications Ameritech Corp.
·
1999 ATT / Media One Group
·
1999 ATT / TCI Tele-Communications Inc.
·
1999 Viacom Inc. / CBS Corp.
·
2000 AOL / Time Warner
·
2000 Vivendi S.A. / Seagram S.A.
Também devemos
ressaltar que não se trata de galáxias solitárias no espaço da comunicação,
mas de todo um cartel. Cada uma destas oito megacorporações tem ações ou
acordos com pelo menos seis das outras. Quer dizer, na realidade, não são
concorrentes: ganhe quem ganhe, todas ganham.
Na lista das 50
grandes transnacionais da comunicação e informação, de duvidosa honra para
seus integrantes, aparecem quatro grupos latino-americanos: Clarín -
Argentina; Cisneros – Venezuela; Globo – Brasil; e Televisa – México
Vejamos um único
caso, como exemplo do controle oligopólico que exercem estas empresas: Logo de
sua fusão, Time Warner e AOL controlam 28 editoras de livros, 38 canais de
Televisão (entre estes HBO, Cinemax, CNN, Cartoon Network e TNT), 15 empresas
de produção e distribuição de televisão, 79 Revistas, além de diversos sítios
de Internet (como AOL, Cumpuserve e Netscape), 170 lojas de produtos Warner em
30 países, parques recreativos, duas produtoras cinematográficas, e serviços
telefônicos e de segurança residencial e comercial por monitoramento.
Esquemas similares
se impõem em cada um dos países latino-americanos, onde uns poucos grupos
dominam totalmente o âmbito comunicacional.
De qual democracia,
de qual diversidade de pensamento se pode falar ante semelhante panorama? O
que impera hoje no mundo é uma feroz ditadura midiática, a principal e mais
contundente ferramenta na guerra imperialista pelo controle e o domínio de
nossas mentes, nossos desejos e nossos valores. Disse o grande lutador
sul-africano Steve Biko, que “A arma mais potente nas mãos do opressor é a
mente do oprimido”.
É por isso que
todas estas corporações mundiais ambicionam controlar cada passo do processo
informativo, desde a criação do “produto” até os distintos meios através dos
quais a tecnologia faz chegar as mensagens ao auditório. “O produto”, sãos as
notícias, a informação, as idéias, o entretenimento e a cultura popular; o
auditório é o mundo inteiro.
Podemos dizer,
então, que a realidade posta em evidência em 1980 pelo Informe McBride, que
desmontou a falácia da liberdade de expressão e a mostrou como uma instituição
de controle da ditadura midiática das corporações, é agora muito mais grave e
de maior alcance: números na mão, podemos constatar que, hoje, 85% dos
conteúdos aos que têm acesso a população do planeta está nas mãos do complexo
financeiro dos EUA. E a maioria dos produtos nacionais repetem as mesmas
fórmulas, amplificam os valores capitalistas e consumistas e repetem suas
posições ideológicas.
Vejamos alguns
outros dados contundentes:
· Os 8 maiores
estúdios cinematográficos de Hollywood controlam 85% do mercado mundial de
cinema (respondem por 98% do “mercado” na América Latina).
· 4 corporações
estadunidenses dividem entre si 85% do mercado fonográfico mundial.
· Dos 10 escritores
mais traduzidos no mundo, 9 são de fala inglesa.
· Ao mesmo tempo,
os EUA possuem um sofisticado sistema de proteção em matéria cultural: apenas
importa neste setor 2% de seu consumo total.
Já o Informe
McBride assinalava que “a indústria da comunicação está dominada por um número
relativamente pequeno de empresas que englobam todos os aspectos da produção e
da distribuição, estando situadas nos principais países desenvolvidos e suas
atividades são transnacionais”. Nada mudou desde então.
DENÚNCIA
É plenamente
vigente a denúncia realizada em Argel, em 1973, pelo Movimento de Países Não
Alinhados, quando sublinhava que “A ação do imperialismo não tem se limitado
aos domínios político e econômico, senão que compreende igualmente os domínios
cultural e social, impondo assim uma dominação ideológica estranha aos povos
em vias de desenvolvimento”.
Para transformar
esta situação, McBride propunha uma Nova Ordem Mundial da Informação e da
Comunicação, que acabasse com as assimetrias no fluxo informativo entre o
primeiro e o terceiro mundo e no interior das nações, e que garantisse a
igualdade no acesso e difusão da informação e o compromisso dos países mais
poderosos para reverter esta situação de iniqüidade na comunicação. Esta Nova
Ordem, baseada na igualdade de condições, deveria contribuir para o
desenvolvimento das nações e povos.
Ainda que
concordemos com o objetivo, nos parece inviável o método de mudanças
jurídicas que propõe o Informe McBride para tal fim: os monopólios
comunicacionais são produto, em primeiro lugar, da própria dinâmica
capitalista, que inevitavelmente conduz à concentração de capital em poucas
mãos, como já o explicaram Marx, Lênin e Rosa Luxemburgo. Em segundo lugar,
porque estes monopólios comunicacionais são ferramentas indispensáveis para a
dominação imperialista e, evidentemente, o império não renunciará a elas
pacificamente.
Como disse Emir
Sader: “A ordem capitalista requer o silêncio dos discursos alternativos,
requer que todos os que se manifestem, o façam dentro do universo de seus
discursos, em seus termos e suas alternativas, quer dizer, dentro do sistema
de poder que dirigem.”
Além disso, estas
grandes corporações midiáticas não são independentes: operam politicamente a
serviço dos interesses dos grandes grupos econômicos que os controlam. Não há
liberdade de expressão da sociedade, mas liberdade de manipulação para os
proprietários dos meios, que atuam em razão dos interesses das corporações que
os dirigem.
Por isso, é
insuficiente analisar o monopólio de meios somente a partir da perspectiva da
concentração midiática e de seu impacto sobre o acesso à informação. Quando
se luta contra a concentração de meios não se está somente se opondo ao
conglomerado de canais, à radiodifusão e à imprensa escrita, mas à corporação
industrial e financeira que sustenta e defende o monopólio e o conjunto de
interesses. Se confronta às grandes potências.
Os monopólios da
comunicação são estratégias complementares orientadas a garantir o controle
dos mercados, porém também das sociedades, os processos sociais, políticos,
econômicos, os governos, as mentalidades.
Com muita clareza,
assinalou Alfredo Jalife-Rahme que “Uma televisão é um projeto político da
mais alta hierarquia, no qual se jogam os destinos das nações.”
Os meios
hegemônicos desinformam e desativam a capacidade de interpretação crítica da
realidade. Decompõem culturas e identidades, porque promovem valores alheios
às culturas próprias, reproduzem valores e modelos dos países hegemônicos,
buscam converter o espectador em mero consumidor. Desarticulam, separando os
interesses dos trabalhadores, dos povos e dos movimentos sociais.
É por isso que
consideramos essencial entender que estamos imersos em uma Guerra, uma guerra
de libertação ante o projeto hegemônico imperialista, na qual a comunicação é
um dos principais campos de batalha.
No estágio atual da
globalização, a estratégia comercial é a guerra, as tropas imperiais são o
quadro funcional da empresa, a direção é o governo imperial tomado pelas
corporações. O objetivo é mobilizar o aparato bélico, cuja meta é a dominação
do território e seus habitantes, o controle dos recursos.
Para isso, precisa
ser garantido o controle da informação. Quando o imperialismo toma a decisão
de aniquilar a soberania dos povos, também aniquila seus meios de comunicação,
ou os meios independentes. Durante a Guerra contra a Iugoslávia, bombardearam
a TV da Sérvia; no Iraque, assassinaram os jornalistas e expulsaram através do
governo de ocupação a Al Jazeera; no Líbano, bombardearam a sede da TV Al
Manar.
Como vêm
denunciando há mais de 20 anos diversos estudiosos, como Noam Chomsky e Howard
Zinn, a estratégia estadunidense de agressão aos países que não cumprem seus
desígnios se constrói necessariamente a partir do controle da opinião dos
cidadãos deste país.
Para os Estados
Unidos, a primeira ação de qualquer guerra se inicia em seus laboratórios de
controle da opinião. Isso já sabiam desde o século XIX, quando invadiram Cuba,
e, até o Vietnã, nunca foram derrotados em seu controle das mentes dos
próprios cidadãos estadunidenses.
PROPAGANDA
Os EUA sempre
preparam suas invasões com uma feroz campanha de propaganda, enfocada em
alguma idéia-força que, após uma longa reiteração, produza as condições
necessárias para controlar as mentes e vontades de seus cidadãos.
Esta estratégia foi
utilizada em várias ocasiões para justificar a intervenção norte-americana:
Invasão a Cuba no século XIX, sob a justificativa da barbárie espanhola contra
mulheres indefesas que chegavam a Nova Iorque denunciando tal barbárie, ainda
que para declarar a guerra tivessem que provocar ou aproveitar a explosão e
afundamento do Maine, responsabilizando aos espanhóis. Durante a Primeira
Guerra Mundial, os Estados Unidos mobilizou seus recursos propagandísticos
para poder justificar diante do seu povo sua participação na guerra, assim
que, imediatamente, começaram a chegar informações com fotografias de crianças
belgas maltratadas pelos “malvados alemães”. No Vietnã, fingiram o ataque a um
de seus barcos. À Democracia Popular no Chile, do companheiro-presidente
Allende, a submeteram a uma brutal e aberta campanha de destruição informativa
e guerra suja que abonou o “estado de ânimo” da opinião pública chilena e
mundial para o golpe fascista de Pinochet, e em dita estratégia se exploraram
habilmente os sentimentos conservadores de um setor da classe média e dos
empresários chilenos. À Nicarágua sandinista a submeteram a um assédio
constante, enquanto a propaganda assinalava que este país era um perigo para a
Segurança Nacional dos EUA. Em Granada, a propaganda focou em um aeroporto
civil necessário para incrementar as demandas do turismo, como efetivamente
hoje o faz; esta obra, que construíam trabalhadores cubanos e era financiada
por vários países europeus, alguns deles aliados dos EUA, foi a desculpa
perfeita para atacar a esta pequena ilha que, segundo a propaganda
imperialista, atentava contra a Segurança Nacional dos EUA.
Continua na próxima edição