Racismo e hipocrisia
Somente na semana
passada, “Veja” descobriu que não existem raças na espécie humana. A revista
dos Civita, além de reacionária, é retardada - coisa que já desconfiávamos. Há
décadas se sabe que as diferenças biológicas entre os indivíduos de uma
determinada etnia são maiores do que aquelas existentes entre indivíduos de
etnias diferentes. De Franz Boas, no final do século XIX, até Stephen Jay
Gould, falecido em 2002, passando por outros cientistas, esta se tornou uma
verdade corriqueira.
Porém, só agora
“Veja” a descobriu. Tal retardo intelectual não é por acaso, assim como não é
acaso que o Civita tenha arrumado como financiador, quer dizer, “sócio”, o
grupo sul-africano Naspers, mídia do Partido Nacional, o partido do apartheid
na África do Sul.
Há quase 100 anos
que somente os racistas têm sustentado – ou, melhor, expectorado – a
existência de raças na espécie humana, e, claro, a superioridade da “sua raça”
sobre “outras raças”. Os colonialistas do século XIX, Hitler, os racistas da
África do Sul e os sionistas mais histéricos, todos estribaram sua exploração
e genocídio sobre determinados grupos humanos em uma suposta inferioridade
racial desses grupos. A demonstração científica de que o racismo é uma
sandice, um preconceito estúpido e tresloucado, não os comoveu. Que o digam os
negros, judeus, eslavos e árabes.
Mas era esperar
demais que “Veja” reconhecesse seu atraso na matéria e se penitenciasse de seu
passado racista. Segundo a revista, o fato de não existir raças prova que o
racismo não existe. Ou, mais precisamente, prova que o racismo real não
existe, pois “Veja” também descobriu que racista mesmo é quem acha que o
racismo existe. Como poderia existir o racismo, se as raças não existem? Só
racistas, certamente, poderiam denunciar racistas por racismo.
Se o leitor sentiu
uma pequena sensação de tontura com esse contorcionismo, não se preocupe. É
normal. O velho Einstein tinha razão: além do universo, só a estupidez de
certos elementos é infinita. Do fato biológico de que não existem raças na
espécie humana, não se depreende que não haja o fato social (ou anti-social)
do racismo. Confundir uma coisa com a outra só é possível a patifes, canalhas,
e, de forma geral, a débeis mentais. Pelo contrário, exatamente por não
existirem raças, é mais escandaloso o caráter anti-humano do racismo e seu
papel de instrumento bestial dos imperialistas, colonialistas, nazistas e
outros gangsters. É um acaso que só exista hoje um país no mundo onde o
conceito de “raça” ainda é levado oficialmente a sério, e este país seja,
exatamente, os EUA?
Tudo isso vem a
propósito do sistema de cotas para o ingresso nas universidades públicas.
Segundo a revista, dois gêmeos idênticos reivindicaram sua inclusão nas cotas
da UnB, mas somente um conseguiu que sua solicitação fosse deferida, apesar do
patrimônio genético idêntico. Na linguagem porno-nazista de “Veja”, um foi
considerado negro e o outro branco. Mas o que tem esse erro - aliás, logo
corrigido pela universidade - com a justeza ou não do sistema de cotas?
Rigorosamente nada, assim como o erro de um mesário em dia de eleição não
invalida o sistema democrático.
Sem dúvida, as cotas
não são a panacéia universal. Mas qualquer um sabe que os negros, depois de
séculos de escravidão, ao conquistar sua liberdade, foram marginalizados: a
própria indústria existente no país entre 1888 e 1930, preferia trabalhadores
imigrantes a trabalhadores oriundos da Abolição e seus descendentes, como
Celso Furtado ressaltou em seu clássico “Formação Econômica do Brasil”.
Com a Revolução de
30, muito se fez para remediar essa situação, a começar pela lei que
determinava que dois terços dos trabalhadores nas empresas fossem brasileiros.
Com isso, Getúlio incorporou os negros ao processo produtivo moderno. Também
legalizou o ensino da capoeira e promoveu o samba como expressão musical do
país.
No entanto, apesar
desses avanços, é evidente que os negros ainda são discriminados no país, é
evidente que a parcela deles com formação universitária é inferior a de outros
segmentos da população, e é evidente que o Estado necessita combater essa
desigualdade, promovendo os descendentes daqueles que, segundo Nabuco,
construíram a Nação. Não há nada mais injusto do que tratar realidades
desiguais como se fossem iguais. Tal farisaísmo somente serve para perpetuar a
injustiça - e requentar o caldo de cultura dos racistas que atribuem
inferioridade biológica àqueles que são apenas discriminados socialmente.
É exatamente aí que
“Veja” quer chegar – e chega – com sua suposta descoberta de que não há raças
na espécie humana. Se não é necessária nenhuma política para compensar os
séculos de discriminação e marginalização, se os que estão em desigualdade,
isto é, as camadas menos favorecidas, não precisam de atenção alguma para que
superem a sua situação atual, então só há uma explicação para sua posição
inferior na sociedade: elas estão em situação social inferior porque são
inferiores. A afirmação de que não existem raças humanas, para esse tipo de
hipócrita, de cretino a la Civita, é, portanto, mera presepada.
Se dúvida pudesse
haver, bastaria lembrar a promoção feita por “Veja” quando dois racistas de
Harvard publicaram “A Curva do Sino”, charlatanice que propugnava a menor
inteligência dos negros. A prova, além de alguns testes de Q.I. já
desmascarados por Gould (cf. seu brilhante “A Falsa Medida do Homem”), era a
própria situação social dos negros. Ou seja, a discriminação social era
travestida de inferioridade biológica.
“Veja” continua a
mesma. Mas, talvez, isso não seja acurado: está mais cínica - e mais racista.
Até o pessoal do apartheid virou seu proprietário.
CARLOS LOPES