O caráter antidemocrático dos monopólios de informação (II)
“A
soberana decisão da Venezuela de não renovar a concessão da RCTV golpista” é
um dos temas abordados pelo vice-presidente da TeleSul, Yuri Pimentel, na
continuação de sua intervenção em seminário realizado em Caracas
Publicamos abaixo a
segunda parte da intervenção do vice-presidente da TeleSul, Yuri Pimentel, no
Seminário “O direito do cidadão a informar e estar informado”, realizado em
Caracas de 18 a 20 de maio, onde alerta para a “feroz campanha satanizadora”
movida a nível nacional e internacional pelos grandes meios de comunicação,
como resposta “à soberana decisão do Estado venezuelano de não renovar a
concessão da RCTV golpista”. Conforme Yuri, os donos desses meios alegam a
defesa da “liberdade de expressão”, quando na verdade estão defendendo o seu
direito à propriedade privada, à usurpação eterna de uma concessão pública,
que não mais seria temporal, mas vitalícia, em aberta afronta à democracia e à
própria Constituição.
Em contraposição ao uso
da comunicação como negócio para “caluniar, mentir e criar reflexos
condicionados” na população, constituindo-se como força política e ideológica
de oposição e sabotagem contra os avanços sociais, o vice-presidente da
TeleSUL defende que para combater a alienação, é preciso avançar na
democratização da mídia. Assim, destaca, “é fundamental dispor dos
instrumentos, dos meios e da plataforma tecnológica própria que nos outorgue
real independência” do monopólio da tecnologia e do saber, e também construir
“novos códigos, novas linguagens que nos permitam romper com os paradigmas
midiáticos construídos de acordo com os interesses da fragmentação e
desinformação, quer dizer, formas que ocultam e redesenham a realidade,
descontextu- alizando-a”.
Lançado o desafio, Yuri
demonstra como o governo bolivariano tem investido na TeleSul, “como meio
alternativo à mensagem hegemônica do Norte, indispensável para a integração
latino-americana”, e contribuído na construção de redes de rádio e televisão
pública e comunitária em toda a Venezuela, estimulando também o florescimento
das mais variadas publicações e sites alternativos, com a força militante e o
protagonismo dos movimentos sociais, para enfrentar o obscurantismo e a
manipulação da mídia prostituída a soldo dos cartéis transnacionais e do
imperialismo norte-americano.
Leonardo Severo
YURI PIMENTEL
Hoje é a mesma
estratégia aplicada contra a Venezuela, junto a seus lacaios locais, até o
ponto de tratar de justificar o golpe de abril 2002, a sabotagem petroleira
2002-03, as badernas e todo tipo de agressão ao governo revolucionário. Agora
mesmo, frente à soberana decisão do Estado venezuelano de não renovar a
concessão a uma televisão que somente serviu aos interesses do mais desumano
capitalismo, aos interesses das transnacionais e seus sócios locais da
oligarquia crioula, a Venezuela enfrenta uma feroz campanha satanizadora nos
meios de comunicação massiva nacionais e internacionais.
O que fazer frente a isto?
Retomando uma idéia expressa anteriormente, confrontemos esta problemática em
termos de uma guerra de libertação, na qual devemos colocar todos nossos
esforços e capacidades.
Nas palavras de Michell
Collon: “É necessário organizar uma frente antiimperialista para defender a
soberania dos povos e organizar uma rede internacional de contra-informação
para desbaratar as mentiras montadas pelo império”. Mais ainda, subscrevemos o
chamado de Fernando Buen Abad de gerar uma Nova Ordem Socialista Mundial da
Informação e da Comunicação, de acordo com os desafios políticos, econômicos e
ideológicos que vêm sendo traçados – em primeira instância - pelos povos de
boa parte de América Latina e do Caribe.
Dita frente supõe dois
aspectos complementares, sem os quais não podemos avançar: por um lado, os
instrumentos, os meios e a plataforma tecnológica própria que nos outorgue
real independência (redes de transmissores, satélites, etc.), porque o
dispositivo de dominação do capitalismo se garante também pelo monopólio da
tecnologia e do saber. Por outro lado, novos códigos, novas linguagens que nos
permitam romper com os paradigmas midiáticos construídos de acordo com os
interesses da fragmentação e desinformação, quer dizer, formas que ocultam e
redesenham a realidade, descontextualizando-a.
Sob esta orientação
conceitual, vêm se desenvolvendo na Venezuela diversas iniciativas, desde as
menores a aquelas de dimensão global. Assim, no Governo Revolucionário tem se
impulsionado a Comunicação Alternativa e Comunitária, como uma resposta do
nosso povo ao férreo monopólio e controle da informação que exerciam (e em
parte seguem exercendo) os grandes meios de comunicação privados.
Contamos hoje com 193
meios de comunicação comunitários, habilitados pela Comissão Nacional de
Telecomunicações (Conatel), órgão competente em matéria de habilitações e
administração do espectro radioelétrico, e de cujos informes tomamos os
seguintes dados:
· 167 Habilitações
correspondem a rádios comunitárias;
· 26 Habilitações
correspondem a televisões comunitárias;
· A área de cobertura dos
193 meios comunitários habilitados é de 241 bairros, situados em 116 dos 335
municípios que têm o país;
· A população com acesso a
estes meios é de 11.962.227 habitantes, o que representa 46,08% do total
nacional e,
· Os meios habilitados
cobrem uma superfície potencial de 175.889 Km2,
o que representa 19,19% da superfície nacional.
Igual dinamismo e
crescimento se apresenta no setor de meios impressos e digitais. Centenas de
jornais, boletins, páginas Web, blogs e listas de correios, surgem e
desaparecem no contexto nacional, regional e local. São múltiplos os perfis
destes meios: jornais dedicados ao tema da mulher, indígena, político,
cultural, operário, camponês. Atualmente, se editam periodicamente 164 meios
impressos e estão ativos 117 meios digitais.
Estudiosos e pesquisadores
têm qualificado esta proliferação de meios populares na Venezuela de fenômeno
inédito. Tal como explica o professor Earle Herrera, “os meios alternativos e
comunitários têm brotado como flores silvestres por todo o país”.
Desde o Estado, se tem
modernizado a plataforma tecnológica do principal canal (VTV), que nos
governos anteriores foi levado a uma total destruição com vistas à sua
privatização. Se criou há três anos uma televisão cultural-participativa de
novo tipo, VIVE, e atualmente se está trabalhando no lançamento de um novo
canal sob o conceito de serviço público, TVES.
Esforços similares se
aplicaram em matéria radiofônica, com RNV, que logo lançará um novo projeto
continental, RádioSUL.
Paralelamente, junto a
outros países de Nossa América, especialmente Cuba, se impulsionou em 2005 a
criação da TeleSUL, iniciativa de alcance mundial da qual formam parte, por
enquanto, além da Venezuela e Cuba, Argentina, Bolívia e - a recentemente
incorporada - Nicarágua, com a finalidade de reivindicar o protagonismo dos
povos do Sul no panorama informativo dominado pelo Norte.
Após um ano e meio de
operações a TeleSUL, com doze sucursais no continente, colocando em marcha o
sinal para a Europa - previsto para os próximos meses -, já começou a romper o
monopólio informativo do Norte, construído durante décadas. Hoje, TeleSUL é,
precisamente, a demonstração da possibilidade de um meio alternativo à
mensagem hegemônica do Norte. Um meio massivo e não marginal.
Nos próximos dias,
impulsionada pelo recém criado Ministério do Poder Popular para as
Telecomunicações e a Informática, estará no ar o sinal de ALBA TV, um canal
alternativo de alcance latino-americano. Se trata de uma rede internacional de
televisões comunitárias e movimentos sociais, indispensável para o êxito da
integração latino-americana.
Em uma primeira etapa irão
ao ar através do sinal de VIVE TV, e para setembro esta televisão comunitária
latino-americana poderá ser captada diretamente via satélite.
Porém isto não é
suficiente, nem nacional nem internacionalmente. Do ponto de vista interno,
seguiremos aprofundando a democratização do espectro radioeléctrico, na
transferência do poder comunicacional às comunidades e na geração de meios do
Estado com novos códigos e novas linguagens.
Com a certeza de que a
grande maioria dos meios privados – tal como tem demonstrado reiteradamente -
seguirão sabotando a gestão revolucionária, para servir à oligarquia e aos
interesses imperiais, avancemos então à sua nacionalização progressiva –
quando se vençam suas concessões ou antes, se a situação o justifica – e
entrega dos mesmos aos conselhos comunais, conselhos operários, comitês de
usuários e produtores independentes.
Não nos enganemos:
enfrentamos meios que, como inclusive reconheceu um organismo nada
progressista como o Conselho de Assuntos Hemisféricos, “são um fechado
monopólio no que os donos conservadores… decidem o que pode ser discutido e o
que será ignorado nas autoritárias estações de televisão e rádio... Para
dizê-lo simplesmente, se trate do que se trate, tudo o que Chávez faz está
sempre mal”.
Já o disse o comandante
Fidel Castro em sua entrevista a Ramonet: “Se você chama liberdade de imprensa
ao direito da contra-revolução e dos inimigos de Cuba a falar e a escrever
livremente contra o socialismo e contra a Revolução, caluniar, mentir e criar
reflexos condicionados, eu lhe diria que não estamos a favor desta
“liberdade”. (…) Nestes meios “livres”, quem fala? De que se fala? Quem
escreve? Se fala o que querem os donos dos jornais ou das emissoras de
televisão. E escreve quem eles decidem. Você o sabe bem. Se fala de “liberdade
de expressão”, porém, na realidade o que se defende fundamentalmente é o
direito de propriedade privada dos meios de divulgação massiva”.
Isto não devemos perdê-lo
de vista precisamente agora, quando nosso povo optou claramente pelo caminho
do socialismo, tal como se viu expresso no resultado eleitoral do passado 3 de
dezembro. Se até agora as tentativas de desestabilização foram da magnitude
que todos conhecemos, não esperemos menos no futuro: nem o império nem o
capitalismo se suicidam nem sobem tranqüilamente ao cadafalso.
Em matéria internacional,
além de seguir avançando com o já existente, devemos construir novos
mecanismos, novos instrumentos, tais como uma ou várias agências de notícias
do Sul, entrelaçadas, a sua vez, com as iniciativas contra-hegemônicas
existentes, como Al Jazira e Prensa Latina. Temos que construir e pôr em
funcionamento satélites próprios (a Venezuela lançará o satélite Simón Bolívar
em 2008, porém é insuficiente), gerar plataformas tecnológicas de Internet que
nos dêem real autonomia.
Concretamente, tal como
sugeriu Buen Abad, fazemos um chamado a que deste evento nasça uma Corrente
Internacional da Comunicação até o Socialismo, que convoque as centenas de
milhares de comunicadores do nosso continente e do mundo, para gerar uma
verdadeira e gigantesca articulação entre os distintos espaços e expressões
comunicacionais anti-imperialistas.
As condições estão
maduras, devemos atuar antes que apodreçam. O que nos falta é ousar.