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A produção independente e a rede pública de rádio e TV (1)

CARLOS LOPES

A maior dificuldade que assalta a música brasileira é que a produção de qualidade, através da qual no século passado ela se afirmou como a mais expressiva manifestação da cultura nacional e ganhou renome internacional, não toca no rádio nem aparece na televisão.

Hoje, sem exagero se pode afirmar que 99% das gravações de boa música brasileira são realizadas pelas independentes. São essas gravadoras nacionais de pequeno porte  – cerca de duzentas -  que têm mantido viva a produção musical nacional.

As multinacionais (Universal, Sony-BMG, Warner, Emi) há anos vêm se especializando na exploração de outro tipo de produto: a música estrangeira ou a música brasileira ruim. A Sony engoliu a BMG. A Emi anunciou o encerramento de suas gravações no Brasil. Universal e Warner mantêm uma produção meramente simbólica. Apesar disso elas seguem monopolizando o mercado de execução pública, através do jabá pago às emissoras de rádio e televisão para que toquem as suas gravações.

O jabá, tolerado e até estimulado por autoridades públicas como o atual ministro da Cultura, é a razão pela qual a música brasileira de qualidade não entra na programação da rede privada de rádio e televisão. O velho suborno guindado à categoria de irresistível fenômeno do marketing moderno cumpre ali a finalidade de manter as portas fechadas à execução das músicas gravadas pelas independentes.

Na rede pública deveria ser diferente. Mas em essência não é.  A produção das independentes só entra por descuido. O que se toca de música brasileira de qualidade é via de regra a produção que vai até a época em que os artistas expulsos das multinacionais integravam ainda os seus casts.

De Chico Buarque, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Beth Carvalho, Bethânia, Edu Lobo, Djavan, só para citar alguns, o que se toca são as gravações antigas. As novas, ou seja, as que eles produziram nas gravadoras independentes, não são executadas. E quanto aos artistas que já iniciaram suas carreiras gravando fora das multis, nem pensar.

Desse modo as rádios públicas condenam os criadores à morte em vida, e as televisões públicas conseguem a espetacular façanha de ficar, num país como o Brasil, sem programação musical.

O fato é que durante os anos de neoliberalismo a rede pública de rádio e televisão foi massacrada. O que sobreviveu é um simulacro de rede pública, que para voltar a ser pública precisa passar por uma completa reciclagem.

E na área musical não há como se fazer nada que preste ignorando a produção realizada nos últimos 15 anos pelas gravadoras independentes.
 

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13/06/2007
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