Promover a
inclusão e superar o mito do déficit
previdenciário
ASSUNTA DI DEA
BERGAMASCO *
As discussões no
âmbito do Fórum Nacional da Previdência Social somente terão algum sentido e
evoluirão para algo positivo caso os antigos e arraigados mitos sobre a
questão previdenciária brasileira sejam decididamente esclarecidos para a
opinião pública, algo que depende apenas da análise imparcial de números por
demais conhecidos, mas que ainda assim – invariavelmente – são substituídos
por discursos destinados à defesa de interesses que se situam fora do alcance
de qualquer solução adequada à realidade brasileira.
Uma das mais
renitentes bandeiras dos setores que objetivam apenas o lucro fácil consiste
na defesa da substituição do atual sistema de solidariedade pelo de
capitalização, a exemplo do que ocorreu no Chile, uma experiência que – à
custa do sofrimento do povo – acabou por evidenciar o óbvio: a absoluta
incapacidade de um contingente expressivo de pessoas de participar de um
modelo que pressupõe capacidade de investimento, do que resulta o agravamento
da exclusão social, deixando ao desamparo milhões de pessoas.
Efetivamente, no
Brasil, uma das soluções para o maior equilíbrio financeiro da Previdência
seria a criação de estímulos ao ingresso de contingentes que hoje estão fora
do sistema, algo que seria simples, não fosse a expressiva parcela de
brasileiros que simplesmente não contam com a menor capacidade contributiva.
Dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio) de 2005 demonstram
que, dos mais de 87 milhões de brasileiros ocupados em qualquer trabalho,
cerca de 52,6%, ou seja, 45,8 milhões, não contribuem para o regime
previdenciário.
Os dados referentes
a 2006 ainda não foram computados, mas as evidências apontam para uma
baixíssima possibilidade de melhora desse quadro, se não de piora, de onde
fica fácil concluir que somente regras diferenciadas possibilitarão o
ingresso, no sistema, de pessoas cuja renda inviabiliza qualquer vislumbre de
contribuição espontânea, uma realidade que se torna ainda mais grave
levando-se em conta o alto índice de informalização da mão de obra no atual
mercado de trabalho.
Os números
divulgados pelo IBGE em relação a 2005 não deixam margem para qualquer dúvida:
na faixa de mais de meio a um salário mínimo, o índice de contribuintes é de
14,17 por cento, contra 25,94% de não-contribuintes. Fica difícil vislumbrar –
para citar apenas um aspecto da questão – que pessoas que se situam nessa
faixa de renda (se é que assim se pode chamar) se disponham a abrir mão de
parcela mínima que seja, de forma espontânea, para incluir-se no sistema, algo
que efetivamente ocorre somente nos casos dos trabalhadores de carteira
assinada, cujo desconto previdenciário é compulsório.
É forçoso reconhecer
que nem todos os que se incluem no grupo de mais de 40 milhões de pessoas que
não contribuem estão impossibilitadas de fazê-lo. No entanto, da mesma forma,
é inevitável admitir que boa parte desse contingente o fará com muito
sacrifício, levando-se em conta, por exemplo, que na faixa de um a dois
salários mínimos, segundo o mesmo levantamento do IBGE, estão mais de 15
milhões de pessoas. Isso significa que os incentivos à inclusão previdenciária
terão que, inapelavelmente, levar em conta o baixíssimo nível de renda do
trabalhador brasileiro, que por si só torna imoral e desumana qualquer
proposta de modelo de capitalização.
Essa é apenas uma
parte mínima das realidades com as quais terão que se defrontar aqueles que
atualmente discutem as fórmulas para uma reforma da Previdência cuja
justificativa, por sua vez, também se sustenta em outros mitos, como o do
déficit previdenciário e o da suposta “generosidade” (absolutamente
inexistente) das regras para aposentadoria no Brasil. Chega a ser comicamente
trágico, por exemplo, argumentar-se que no Brasil prevalece ainda o sistema de
aposentadoria “por tempo de contribuição”, enquanto na gritante maioria dos
países implantou-se o limite mínimo de idade. Fazer esse tipo de alusão sem
levar em conta que o poder aquisitivo do trabalhador brasileiro acima de
determinada faixa salarial cai vertiginosamente após a aposentadoria, e que
esse quadro se agravou de forma aviltante com o fator previdenciário, é uma
das formas de querer fazer prevalecer o discurso enganoso sobre uma realidade
social perversa, que vem historicamente se agravando em razão precisamente da
prevalência dos mitos sobre as verdades, num país injusto e desigual, cujo
destino é teimosamente traçado pelos que sempre dão as costas a essa
vergonhosa realidade.
* Presidente da
ANFIP – Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil