“Bob Kennedy investigava a conspiração da CIA no
assassinato de JFK”, revela Talbot
Em seu livro “Brothers”, o escritor norte-americano David
Talbot relata investigações de Bob Kennedy sobre a participação da CIA junto
com o “submundo de Miami de espiões, gangsteres e militantes cubanos” no
assassinato de seu irmão. No artigo de Talbot, publicado no seu site salon.com,
o autor destaca: “crescentes evidências comprovam que ele estava na trilha
certa antes de também ser assassinado”
DAVID TALBOT
Um dos mais intrigantes mistérios sobre o assassinato de John F. Kennedy, o mais escuro dos labirintos americanos, é porque seu
irmão Robert F. Kennedy aparentemente não fez nada para investigar o crime. Bobby Kennedy era, afinal, não apenas o secretário de Justiça dos Estados
Unidos no momento do assassinato – ele era o parceiro mais devotado de seu
irmão, o homem que recebeu as incumbências mais duras do governo, dos direitos
civis ao crime organizado e Cuba, o mais quente ponto nevrálgico da Guerra
Fria de então. Mas depois que os tiros no centro de Dallas em 22 de novembro
de 1963 encerraram essa parceria única, Bobby Kennedy parecia perdido na
perplexidade e luto, recusando-se a discutir o assassinato com a Comissão
Warren e dizendo aos amigos que não tinha ânimo para uma investigação
agressiva. “Que diferença isso faz?”, ele dizia. “Isso não o trará de volta”.
Mas Bobby Kennedy
era um homem complexo, e seus anos em Washington o tinham ensinado a manter
seu próprio escrutínio e a proceder de um modo subterrâneo. O que ele disse em
público sobre Dallas não era a história completa. Privadamente, RFK – que
tinha construído sua reputação nos anos 50 como um incansável investigador dos
porões do poder americano – estava consumido pela necessidade de saber a
verdadeira história sobre o assassinato de seu irmão. Este fervor o tomou na
tarde de 22 de novembro, assim que o chefe do FBI J.Edgar Hoover, um
implacável inimigo político, lhe telefonou para dizer – quase com prazer,
pensou Bobby – que o presidente havia sido baleado. E a questão de quem matou
seu irmão continuou a perseguir Kennedy até o dia que também ele foi abatido a
tiros, em 5 de junho de 1968.
Por causa de seu
pendor para operar em segredo, RFK não deixou um registro documentado de suas
inquirições sobre o assassinato de seu irmão. Mas é possível retraçar sua
trilha investigativa, começando na tarde de 22 de novembro, quando ele
freneticamente fez telefonemas de Hickory Hill – sua mansão da era da guerra
civil em McLean, Virginia – e convocou assessores e autoridades do governo
para sua casa. Ligado pela claridade do choque e a eletricidade da adrenalina,
Bobby Kennedy reconstruiu as linhas mestras do crime nesse dia – um crime, ele
imediatamente concluiu, que ia muito além de Lee Harvey Oswald, o ex-marine de
24 anos preso pouco depois do assassinato. Robert Kennedy foi o primeiro
teórico da conspiração de assassinato [de JFK] da América.
As fontes da CIA
começaram a disseminar sua própria visão conspiratória do assassinato de
Kennedy horas após o crime, enfocando a defecção de Oswald para a União
Soviética e seu apoio público a Fidel Castro. Em Nova Orleans, uma organização
de notícias anti-Castro divulgou uma gravação de Oswald defendendo o ditador
barbudo. Em Miami, o Diretório dos Estudantes Cubanos – um grupo de exilados
financiado secretamente por um programa da CIA de codinome Amspell – disse a
repórteres sobre as conexões de Oswald com o Comitê por uma Relação Justa com
Cuba, pró-Castro. Mas Robert Kennedy nunca acreditou que o assassinato fosse
um complô comunista. Ao invés disso, ele olhou na direção oposta, focando suas
suspeitas nas operações ocultas da CIA anti-Castro, um submundo obscuro que
ele havia navegado como o ponta-de-lança de seu irmão quanto a Cuba.
Ironicamente, as suspeitas eram compartilhadas pelo próprio Castro, a quem ele
tinha buscado derrubar durante a presidência de Kennedy.
O que estava
determinado é que o secretário de Justiça estaria no comando da guerra
clandestina contra Castro – outra desgastante tarefa que JFK lhe deu, após a
desastrosa performan-ce da agência de espionagem na Baía dos Porcos em abril
de 1961. Mas conforme ele tentou estabelecer controle sobre as operações da
CIA e juntar os turbulentos grupos de exilados cubanos numa frente
progressista unificada, Bobby aprendeu que o mundo anti-Castro era um pântano
de intrigas. Trabalhando a partir de uma ampla estação da CIA em Miami de nome
em código de JM/WAVE, que era a segunda maior depois do QG em Langley na
Virgínia, a agência havia recrutado um exército ilegal de militantes cubanos
para lançar ataques contra a ilha e até mesmo contratou pistoleiros da Máfia
para assassinar Castro – inclusive chefões como Johny Rosseli, Santo
Trafficante e Sam Giancana, a quem, como chefe do Comitê do Senado sobre o
sindicalismo amarelo no final dos anos 50, tinha investigado. Era um
superaquecido ecossistema que estava unido não apenas por sua febril oposição
ao regime de Castro, mas também pelo seu ódio pelos Kennedys, que eram vistos
como traidores por falhar em usar o poderio militar total dos Estados Unidos
contra o posto avançado comunista no Caribe.
O submundo de Miami
É nesse submundo de
Miami de espiões, gângsteres e militantes cubanos que Robert Kennedy
imediatamente lança suas suspeitas em 22 de novembro. Nos anos que se seguiram
ao assassinato do próprio Robert Kennedy, um impressionante corpo de
evidências se acumulou que indica porque Kennedy se sentiu compelido a olhar
nessa direção. As evidências – testemunhos ao congresso, documentos
governamentais desclassificados, mesmo confissões veladas – continuam a
emergir até a data mais recente, embora largamente não noticiadas. A mais
recente revelação veio de um espião legendário, E. Howard Hunt, antes de sua
morte em janeiro. Hunt ofereceu o que pode ser o último testamento sobre o
assassinato de JFK por alguém com conhecimento direto do crime. Em suas
memórias póstumas publicadas recentemente, o espião americano Hunt especula
que a CIA poderia ter estado envolvida no assassinato de Kennedy. E em
anotações manuscritas e uma fita gravada que ele deixou, o espião foi mais
longe, revelando ter sido convidado em 1963 para uma reunião em um esconderijo
da CIA em Miami, em que um complô de assassinato foi discutido.
Bobby Kennedy sabia
que ele e seu irmão tinham feito inimigos políticos além da conta. Mas nenhum
era mais virulento do que o homem que trabalhou na operação da Baía dos Porcos
e que acreditava que o presidente os havia apunhalado pelas costas, se
recusando a salvar - e condenando a operação -, com o envio da Força Aérea dos
EUA e dos Marines. Mais tarde, quando o presidente Kennedy encerrou a Crises
dos Mísseis de Outubro de 1962 de Cuba sem invadir Cuba, esses homens viram
não um estadista, mas outra crise de nervos. Na Miami cubana, eles falavam de
la seconda derrota, a segunda derrota. Esses sentimentos anti-Kennedy, às
vezes vociferados acaloradamente na cara de Bobby, ressoavam entre os
parceiros da CIA na guerra secreta contra Castro – os chefões da Máfia que há
muito reclamavam suas lucrativas franquias de jogo e prostituição em Havana,
que tinham sido fechadas pela revolução, e profundamente prejudicados com a
guerra sem quartel do Departamento de Justiça de Kennedy contra o crime
organizado. Mas Bobby, o linha-dura que cobria o flanco direito de seu irmão
na questão de Cuba, pensava que ele próprio tinha se tornado o principal
pára-raios de toda essa eletrostática anti-Kennedy.
“Eu pensei que eles
me pegariam, ao invés do presidente”, disse ele ao seu porta-voz do
Departamento de Justiça, Edwin Guthman, conforme andavam de um lado para o
outro no quintal de Hickory Hill na tarde de 22 de novembro. Guthman e outros
em volta de Bobby nesse dia pensaram que “eles” poderiam vir em seguida atrás
do Kennedy mais jovem. Ao que parece, também Bobby. Normalmente oposto a
medidas rígidas de segurança – “os Kennedys não precisam de guarda-costas”,
costumava dizer com a impetuosidade típica – ele permitiu que seus auxiliares
chamassem os agentes federais, que rapidamente cercaram a casa.
Uma chocante
irrupção
Entrementes,
enquanto Lyndon Johnson – um homem com quem ele tinha notoriamente um
relacionamento antagônico – voava para o leste de Dallas para assumir os
poderes da presidência, Bobby Kennedy usava sua fugidia autoridade para
desentocar a verdade. Após tomar conhecimento de que seu irmão tinha morrido
no Hospital Parkland Memorial em Dallas, Kennedy telefonou para o QG da CIA,
estrada abaixo em Langley, onde ele frequentemente começava seu dia, parando
lá para trabalhar em questões ligadas a Cuba.
Pondo uma alta
autoridade no telefone – cuja identidade ainda é desconhecida – Kennedy o
confrontou numa voz vibrante de fúria e dor. “Seus esquadrões têm alguma coisa
a ver com esse horror?”, explodiu Kennedy.
Naquele dia mais
tarde, RFK convocou o próprio diretor da CIA, John McCone, para lhe perguntar
a mesma questão. McCone, que tinha substituido o lendário Allen Dulles depois
que o velho mestre da espionagem tinha sido forçado aandar na prancha por
conta da Baía dos Porcos, jurou que sua agência não estava envolvida. Mas
Kennedy sabia que McCone, um rico empresário republicano da Califórnia sem
nenhuma experiência em espionagem, não tinha um firme domínio de todos os
aspectos da atuação da agência. O verdadeiro controle sobre o serviço
clandestino girava em torno do homem número 2, Richard Helms, o astuto
burocrata cuja carreira de espionagem remontava às origens da agência no OSS
na II Guerra Mundial. “Era claro que McCone estava fora do circuito – Dick
Helms estava comandando a agência”, havia comentado recentemente o assessor de
RFK, John Seigenthaler – outro repórter investigativo, como Guthman, a quem
Bobby havia recrutado para sua equipe no Departamento de Justiça. “Qualquer
coisa que McCone descobrisse era por acidente”.
Kennedy teve outra
reveladora conversa por telefone na tarde de 22 de novembro. Falando com
Enrique “Ruiz” Williams, um veterano da Baía dos Porcos que era o seu aliado
mais confiável entre os líderes politicos exilados, Bobby chocou seu amigo ao
lhe dizer diretamente, “foi um dos seus caras que fez isso”. O que Kennedy
queria dizer? Por então Oswald tinha sido preso em Dallas. A CIA e seus grupos
clientes anti-Castro estavam sempre tentando ligar o alegado assassino ao
regime de Havana. Mas como os ásperos comentários de Kennedy para Williams
deixam claro, o secretário de Justiça não ia cair nessa. Evidência recente
sugere que Bobby Kennedy tinha ouvido o nome de Lee Harvey Oswald muito antes
que explodiu no mundo inteiro pelos boletins de notícias, e ele ligou isso à
guerra subterrânea contra Castro. Com Oswald preso em Dallas, Kennedy ao que
parece compreendeu que a campanha clandestina contra Castro tinha se voltado,
como um bumerangue, contra seu irmão.
A conexão de Chicago
Naquela tarde,
Kennedy mirou a Máfia. Ele telefonou para Julius Draznin em Chicago, um
especialista do Escritório Nacional de Relações Trabalhistas em corrupção em
sindicatos, pedindo-lhe para procurar por uma possivel relação da máfia em
Dallas. Mais importante, o secretário da Justiça acionou Walter Sheridan, seu
principal investigador do Departamento de Justiça, localizando-o em Nashville,
onde Sheridan estava esperando pelo julgamento do seu nêmesis de muito tempo,
o líder dos caminhoneiros Jimmy Hoffa. Se Kennedy tinha qualquer dúvida sobre
o envolvimento da Máfia na matança de seu irmão, ela rapidamente desapareceu
quando, dois dias após JFK ter sido abatido a tiros, o proprietário de um
grotesco clube noturno, Jack Ruby, abriu seu caminho entre os reporteres no
porão da estação de polícia de Dallas e disparou sua bala fatal contra Lee
Harvey Oswald. Sheridan rapidamente obteve evidências de que Ruby havia sido
pago em Chicago por um colaborador próximo de Hoffa. Sheridan reportou que
Ruby “tinha pego um monte de dinheiro com Allen M. Dorfman,” o conselheiro
chefe de Hoffa no Fundo de Pensões e Empréstimos dos Caminhoneiros e enteado
de Paul Dorfman, o chefão sindical que era o principal vínculo com a máfia de
Chicago. Poucos dias mais tarde, Draznim, o principal homem de Kennedy em
Chicago, conseguiu evidências adicionais sobre o histórico de Ruby como
cobrador da máfia, providenciando um detalhado relatório das atividades de
Ruby de extorsão dos sindicatos e sua propensão pela violência armada. Os
registros telefônicos posteriores de Jack Ruby ligavam-no mais ainda ao caso
Kennedy. A lista dos homens a quem Ruby telefonara por volta da hora do
assassinato - disse RFK mais tarde ao assessor Frank Mankiewicz - era “quase
uma cópia do pessoal que eu chamei para testemunhar perante do Comitê sobre o
crime organizado”.
Mensagem a Moscou
Conforme os membros
da família e amigos íntimos se reuniram na Casa Branca no fim de semana após o
assassinato para o funeral do presidente, um sentimento envolvido num rouco
lamento irlandês tomou conta da mansão executiva. Mas Bobby não
participou na dolorosa tradição da família. Recurvado e sem dormir ao longo do
fim de semana, ele meditou sozinho sobre o assassinato de seu irmão. De acordo
com uma narração de Peter Lawford, o ator e cunhado de Kennedy que estava lá
naquele fim de semana, Bobby disse aos membros da família que JFK tinha sido
morto por um complô poderoso que cresceu em meio às operações secretas
anti-Castro do governo. Não havia nada que eles pudessem fazer naquele ponto,
Bobby acrescentou, já que eles estavam enfrentando um inimigo formidável e
eles não mais controlavam o governo. A Justiça teria de esperar até que os
Kennedys pudessem retomar a Casa Branca – isso se tornou o mantra de RFK nos
anos depois de Dallas, sempre que seus companheiros urgiam que ele falasse
sobre o misterioso crime.
Uma semana após o
assassinato, Bobby e a viúva de seu irmão, Jacqueline Kennedy – que
compartilhava as suspeitas dele sobre Dallas – enviaram uma surpreendente
mensagem secreta a Moscou através de um emissário de confiança da família, de
nome William Walton. O discreto e leal Walton “era exatamente a pessoa que
você poderia escolher para uma missão como essa,” observou mais tarde seu
amigo Gore Vidal. Walton,um correspondente de Guerra da revista Time que se
reinventou como um gay boêmio de Georgetown, tinha crescido junto tanto de JFK
quanto de Jackie nos dias tranquilos antes que se mudassem para a Casa Branca.
Mais tarde, o primeiro casal deu-lhe um papel não-pago no governo, indicando-o
presidente da Fine Arts Comission, mas isso era principalmente uma desculpa
para fazer dele um convidado freqüente da Casa Branca e um confidente.
Após o assassinato
de JFK, o irmão do presidente e sua viúva pediram a Walton para seguir em
frente, como planejado, com uma viagem de intercâmbio cultural à Rússia, onde
ele deveria encontrar artistas e ministros, e transmitir uma mensagem urgente
ao Kremlin. Logo depois de chegar à fria Moscou, lutando contra uma gripe e
assoando o nariz com um lenço vermelho, Walton se encontrou no ornado
restaurante Sovietskaya com Georgi Bolshakov – um agitado e rechonchudo agente
soviético com quem Bobby tinha estabelecido em Washington um canal
confidencial de relacionamento. Walton deixou o russo atônito ao lhe dizer que
os Kennedys acreditavam que Oswald era parte de uma conspiração. Eles não
achavam que nem Moscou nem Havana estavam por trás do complô, Walton assegurou
a Bolshakov – era uma grande conspiração doméstica. O irmão do presidente
estava determinado a entrar na arena política e eventualmente concorrer à Casa
Branca. Se RFK tivesse sucesso, Walton confidenciou, ele retomaria a missão de
seu irmão por uma détente com os soviéticos.
A extraordinária
comunicação secreta de Robert Kennedy com Moscou mostra quão emocionalmente
alquebrado ele deve ter estado nos dias que se seguiram ao assassinato de seu
irmão. A calamidade o transformou instantaneamente de um insider
abrasivo e confiante – o segundo homem mais poderoso em Washington – para um
outsider profundamente cauteloso e afligido pelo pesar, que tinha mais
confiança no governo soviético do que no seu próprio. A missão de Walton ficou
perdida para a história. Mas é mais uma reveladora narrativa que lança luz
sobre a vida subterrânea de Bobby Kennedy entre o assassinato de seu irmão e
seu próprio fim violento menos de cinco anos mais tarde.
Ao longo dos anos,
Kennedy ofereceria um insípido e rotineiro endosso do Relatório Warren e sua
teoria do atirador solitário. Mas privadamente ele repeliu o relatório como
nada mais que um exercício de relações públicas voltado para tranquilizar o
público. E por trás da cena, ele continuou a trabalhar assiduamente para
desvendar o assassinato de seu irmão, em preparação para a reabertura do caso
se ele chegasse a ganhar o poder para fazê-lo.
Bobby guardou
evidências médicas da autópsia de seu irmão, incluindo o cérebro de JFK e
amostras dos tecidos, que poderiam se provar importantes em uma investigação
futura. Ele também considerou se apossar da limousine presidencial
manchada de sangue e recheada de balas que tinha conduzido seu irmão em
Dallas, antes que o Lincoln negro pudesse ser limpo de evidências e reparado.
Ele recrutou seu investigador-chefe, Walt Sheridan, para sua busca secreta – o
ex-agente do FBI e camarada católico irlandês que Bobby chamava de seu “anjo
vingador”. Mesmo depois de deixar o Departamento de Justiça em 1964, quando
foi eleito senador por Nova Iorque, Kennedy e Sheridan davam uma escapada ali
volta e meia, para esmiuçar arquivos sobre o caso. E logo depois de sua
eleição, Kennedy viajou para a Cidade do México, onde juntou informações sobre
a misteriosa viagem de Oswald para lá em setembro de 1963.
Em 1967, Sheridan
foi a Nova Orleans checar a investigação de Jim Garrison, para ver se o
estravagante promotor realmente tinha desvendado o caso JFK. (Sheridan estava
trabalhando com produtor de noticiário da NBC naquele tempo, mas ele retornou
a RFK, dizendo-lhe que Garrison era uma fraude). E Kennedy pediu a seu
secretário de imprensa, Frank Mankiewickz, para começar a colher informação
sobre o assassinato para o dia em que eles pudessem reabrir a investigação. (Mankiewickz
mais tarde disse a Bobby que sua pesquisa o levara a concluir que fora
provavelmente um complô envolvendo a máfia, exilados cubanos e agentes
renegados da CIA.) O próprio Kennedy achou doloroso discutir teorias
conspiratórias com os ardentes pesquisadores que o buscavam. Mas ele se
encontrou no seu gabinete de senador com pelo menos um – um editor de jornal
de uma pequena cidade do Texas, de nome Penn Jones Jr., que acreditava que JFK
tinha sido vítima de um complô da CIA-Pentágono. Bobby o escutou e depois
mandou seu motorista levar Jones até o Cemitério de Arlington, onde este
queria visitar o túmulo de seu irmão.
Bob na corda-bamba
Às vezes, esse
esforço para saber a verdade viria à tona em sua fala por vezes acelerada,
conforme Robert Kennedy lutava com a debilitante dor e o sentimento de culpa
de que ele – o vigia constante de seu irmão – deveria tê-lo protegido. E,
sempre cauteloso, Bobby continuou a desviar do tema sempre que era confrontado
com ele pela imprensa. Mas conforme o tempo passou, tornou-se crescentemente
dificil para Kennedy evitar a luta com o espectro da morte de seu irmão em
público. No final de março de 1968, durante sua heróica e condenada disputa
pela presidência, ao comparecer a uma tumultuada manifestação no lado de fora
do campus de Northridge, Califórnia, quando alguns impetuosos estudantes
começaram a gritar a questão que ele sempre temera “Queremos saber quem matou
o presidente Kennedy!”, proclamou uma jovem, enquanto outros começaram a
gritar: “abram os arquivos!”.
A resposta de
Kennedy nesse dia foi uma caminhada na corda-bamba. Ele sabia que se ele
revelasse plenamente o que pensava sobre o assassinato, a gritaria da mídia
que se seguiria teria dominado sua campanha, ao invés de questões candentes
como dar fim à Guerra do Vietnã e abolir as divisões raciais do país. Para um
homem como Robert Kennedy, você não trata de algo tão terrível e obscuro como
o assassinato do presidente em público – você investiga o crime do seu próprio
modo.
Mas Kennedy
respeitava os estudantes universitários e suas paixões – e ele tinha o hábito
de se dirigir às audiências nos campus com surpreendente honestidade. Ele não
quis simplesmente se desviar da pergunta nesse dia com seu comportamento
padrão. Então, embora cumprindo a obrigação de endossar o Relatório Warren
como sempre fazia, ele foi além. “Vocês querem me perguntar sobre os
arquivos”, ele respondeu. “Eu estou certo, como lhes disse antes, que os
arquivos serão abertos.” A multidão saudou e aplaudiu. “O que eu posso dizer”,
continuou Kennedy, “e eu já respondi essa pergunta antes, é que não há ninguém
mais interessado em todas essas questões de quem foi responsável pela, uhm,
uhm, a morte do presidente Kennedy, que eu.” O secretário de imprensa de
Kennedy, Frank Mankiewickz, há muito acostumado a ver Kennedy driblar a
pergunta, ficou “atônito” com a resposta. “Foi como se ele de repente tivesse
deixado escapar a verdade, ou um modo de encerrar qualquer questiona-mento
posterior. Você sabe, ´Sim, eu reabrirei o caso. Agora vamos seguir em
frente”.
Robert Kennedy não
viveu o bastante para elucidar o assassinato de seu irmão. Mas quase 40 anos
após seu próprio assassinato, um crescente corpo de evidências sugere que
Kennedy estava na trilha certa antes que também ele fosse abatido. Apesar de
suas contorções verbais em público, Bobby Kennedy sempre soube que a verdade
sobre Dallas importava. Ainda importa.