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Fair: Mídia nos EUA travestiu os golpistas da RCTV em ‘mártires’

O grupo norte-americano Fair (Correção e Precisão em Reportagem), que há 20 anos atua em defesa da “diversidade de pontos de vista na imprensa”, faz levantamento de distorções repetidas pelos principais meios da imprensa norte-americana, sempre abafando a atividade golpista da RCTV

O grupo Fair tem atuação nacional nos EUA desde 1986 desenvolvendo um trabalho crítico sobre a atuação da mídia. Edita a premiada revista EXTRA! (foto ao lado) e mantém um programa de rádio semanal, através dos quais defende a necessidade de uma reforma que quebre “os conglomerados de mídia dominante” e “o estabelecimento de um sistema público de emissoras”. A seguir, publicamos os principais trechos de um texto da entidade divulgado na internet.   

“Co-conspiradores do golpe como mártires da liberdade de expressão - Distorcendo a história da mídia venezuelana” 

A história é armada na mídia norte-americana como um simples caso de censura: a proeminente estação de TV venezuelana RCTV está sendo silenciada pelo governo autoritário do Presidente Hugo Chávez, que está punindo a estação pelas suas críticas ao governo.

De acordo com o repórter da CNN, T.J. Holmes (21/05/07), a questão é fácil de se entender: “está sendo fechada, está indo para fora do ar, porque o presidente Hugo Chávez não é um grande fã dela”. Ao silenciar a RCTV “uma voz da livre opinião”, Holmes prossegue, “Chávez, em um movimento que enfurece muitos grupos de liberdade de expressão, está se recusando a renovar a licença dessa estação de televisão, que tem sido crítica de seu governo”.

Na mesma linha, uma notícia da Associated Press (20/05/07) mantém o a questão como uma recusa de licença baseada em simples diferenças políticas, com a repórter Elizabeth Munoz descrevendo a RCTV como uma “rede que tem sido crítica de Chávez”.

Em sua coluna de 14 de maio, o ex-editor do Washington Post, Jackson Diehl, classificou a medida como uma tentativa de silenciar oponentes e mais uma “prova” de que Chávez é um “ditador”. Escreveu Diehl que “Chávez deixou claro que seu problema com [dono da RCTV, Marcel] Granier e RCTV é político”.

Mantendo o script da mídia de que o cara mau Chávez brutalmente silenciou os caras legais da oposição democrática, todos esses artigos esconderam a história da RCTV e as explicações para a recusa na renovação da licença e o processo que os levou a isso.  

ABRIL DE 2002 

A RCTV e outras estações privadas foram fundamentais no golpe de abril de 2002, que brevemente expulsou o governo democraticamente eleito. Durante a breve insurreição, os líderes do golpe ocuparam as ondas de televisão para agradecer às redes: “Preciso agradecer à Venevisión e RCTV”, declarou um dos marcados líderes que foram gravados pelo documentário irlandês A Revolução Não Será Televisionada. O filme documenta a participação das redes no breve golpe, quando as estações se colocaram com o serviço de boletins para o golpe – recebendo os líderes do golpe, silenciando as vozes do governo e convocando a oposição a marchar ao palácio presidencial, parte do plano estratégico dos golpistas.

Em 11 de abril de 2002, dia do golpe, quando líderes militares e civis da oposição realizavam conferências de imprensa exigindo a saída de Chávez, a RCTV exibiu um dos líderes da conspiração, Carlos Ortega, que insuflou manifestantes a marchar ao palácio presidencial. No mesmo dia, depois que o golpe antidemocrático teve aparentemente sucesso, outro líder golpista, o vice-Almirante Victor Ramírez Pérez, disse a Venevisión (11/04/02): “Temos uma arma mortal: a mídia. E agora que tenho a oportunidade, deixe me parabenizá-los”.

A participação das redes de televisão privada no golpe, incluindo a RCTV, não está em questão; mesmo a mídia dominante reconhece. Como o repórter Juan Forero, colega de Jackson Diehl no Washington Post, declara (18/01/07), “a RCTV, assim como as três outras grandes estações privadas, encorajaram os protestos”, que resultaram no golpe, “e, uma vez Chávez fora, comemoraram sua saída”. O conservador jornal inglês Financial Times escreveu em (21/05/07) , “a Venezuela argumenta com alguma justificativa já que a RCTV apoiou ativamente a tentativa de golpe contra o Sr. Chávez em 2002”.

Como argumentamos na edição de novembro da  revista EXTRA!, “se evento similar ocorresse nos EUA, e os jornalistas e executivos da TV fossem pegos conspirando com planos golpistas, é duvidoso que eles ficariam fora da cadeia, e que fosse permitido a eles continuar a transmitir, como ocorreu na Venezuela”. 

INTERESSE PÚBLICO 

Quando Chávez retornou ao poder, as TVs privadas se recusaram a cobrir as notícias, transmitindo ao invés programas de entretenimento – no caso da RCTV, o filme norte-americano Pretty Woman. Recusando-se a transmitir uma notável história, as estações abandonaram o interesse público e violaram a confiança pública que é vista na Venezuela (e nos EUA) como uma exigência para operar ondas públicas de transmissão. Lembrando a negativa da RCTV em cobrir o retorno de Chávez ao poder, o professor da Universidade Columbia e ex-editor da Radio Pública Nacional (NPR, sigla em inglês) John Dinges disse ao centro de mídia Marketplace (08/05/07):

“O que a RCTV fez simplesmente não pode ser justificado sob nenhum ângulo do princípio jornalístico...  Quando um canal de televisão simplesmente se recusa a informar, simplemente fica fora do ar durante um período de crise nacional, não porque foram forçados, mas simplesmente porque não concordam com o que estava acontecendo, você perde a competência de defender o que você faz nos princípios jornalísticos”.  

LIBERDADE DE OPINIÃO  

O governo venezuelano está baseando sua recusa em renovar a licença da RCTV pelo envolvimento no golpe de 2002, e não pelas críticas da estação ou à sua oposição política ao governo. Há  intelectuais norte-americanos e algumas vozes de direitos humanos que se confundiram sobre o assunto, reivindicando que a ação é baseada meramente em diferenças políticas, falhando em perceber que a mídia venezuelana, incluindo estações de rádio, ainda está fazendo parte da mais vigorosa dissidência do planeta. 

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15/06/2007
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